sábado, 24 de janeiro de 2009

A COMUNICAÇÃO


O telefone tocou. Atendeu sabendo quem era. Ela sempre sabia antes. Incomodava o fato de a voz parecer distante, como de alguém que fala sem vontade, quase enfastiado de falar. Estranha a mudança no tom apenas iniciada qualquer conversa. Devagar apareciam todos os ingredientes presentes quando duas pessoas se comunicam realmente.
Tornou-se rotina trocar idéias e informações sobre o dia, o estado de ânimo, os cotidianos... Todos os dias, às vezes até mais de uma vez ao dia. Trocaram palavras, sugestões, perguntas e em cada telefonema a certeza de uma amizade que foi ganhando cara de amigo velho, desses que a gente usa e abusa porque sabe que amigo é para essas coisas.

Não foram tanto as palavras que devagar caminharam espaços. Muito mais pesava o não dito, nunca traduzido. Percebiam, ou intuíam uma comunicação silenciosa fazendo nascer flores silvestres amarelas e laranjas, bem simples, que a transportava à beira de um lago transparente que sorria, sem que ela entendesse por que.

Tinha certeza apenas de duas coisas: cada vez que desligava o telefone sentia uma sensação desagradável de não ter de fato dito nada, ao mesmo tempo uma paz mansa e gostosa a invadia e seguia pelos silêncios dos lugares por onde ia. Como se há muito já houvessem dito tudo e apenas não lembrassem quando ou onde foi.

                                                             Cristina Manga
                                                              (in "Portais")


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