terça-feira, 13 de janeiro de 2009

ALEGRIA



Era um sorriso fechado, mordido entre os lábios, proibido, retraído, castrado. Era uma marca, como um sinal de nascimento sem escolha nem direitos, simplesmente acomodado no gesto reprimido, supostamente sem pecado.

Cresceu triste e com o passar do tempo convenceu-se de que só Tristeza realmente poderia acompanhá-lo, atendê-lo, ou até aliviar aqueles sentimentos desconhecidos, que vez por outra insistiam em habitá-lo.

Deixou que Tristeza fosse sua confidente e Choro sua expressão maior para lavar possíveis pensamentos... Sim, porque para este Sorriso os pensamentos não podiam ser claros, nem seus. Deviam ser apenas aqueles que habitassem, também, as cabeças que o rodeavam.

Assim foi passando o tempo de Sorriso: ora recolhido à memória, ora preso entre os lábios, esperando algo sem saber o que, pois o permitido o satisfazia só em parte. E o resto? O que mais havia entre ele, seus pensamentos desconhecidos e o mundo?

– “... O mundo é imundo, seu lugar é fora dele; criança não tem querer; lá não vá que o bicho lhe pega; olhe, mas não aponte, pois cresce uma verruga na ponta do seu dedo por castigo; não precisa de tanto colo e beijo melado; não faça barulho; meninas não fazem isso; meninos não choram; meninas são assim, choram à toa; não confie demais; confie desconfiando...”

Não, não, não... foram tantos os medos que Sorriso acabou por acreditar que o mundo era apenas aquilo que lhe diziam e perdeu a coragem de experimentar, olhar, atrever-se a tentar, brincar, descobrir-se. Outros lhe diziam como Sorriso era, devia ser, o que devia fazer e ele acomodou-se. Ficou ali, cada dia com mais medo de descobrir a janela de seus próprios pensamentos, com medo de suas possíveis vontades, com medos tantos que por si só criavam dúvidas sobre ele mesmo e tudo mais.

Enquanto isso Tristeza alimentava-se, crescia forte e robusta e trazia seu filho Choro, que se impunha como o amigo possível para quem é obrigado a ser um Sorriso solitário por opção alheia e acatamento próprio.

Porém, algo em Sorriso não conseguiram sufocar: uma chama pequenina de alegria, um sentimento oculto de buscar, de querer ser, apesar de tudo e de todos.

Quando pensavam que o processo de ser estava pronto, Sorriso alimentava silenciosamente, desesperadamente, a vontade de descobrir. Abriu uma janela pequena, cheio de reservas e por ela começou a olhar em volta. Espiava e guardava e calava.

Um dia descuidou-se e esbarrou com força em algo que passava por ele. Foi um tremendo choque! O que era aquilo? Um vento? Um arrepio? Uma mentira? Talvez o absurdo? Quem sabe o mundo? E Sorriso temeu. Bem no fundo uma sensação estranha denunciava descobertas, previa emoção. Todo ele tornou-se um sinal de alerta. Contudo, a vontade de descobrir falava alto e ele ia à janela e espiava desconfiado aquela coisa estranha que resolvera virar sombra e ficar ao alcance do seu olhar, disponível sempre.

Devagar Sorriso foi caminhando caminhos, enfrentando medos, abrindo portas, contando horas.

O que não diminuía era o espanto da descoberta: aquilo era só outro Sorriso, mas chamava-se Alegria. Era um sorriso que sorria! Gostava realmente do que fazia e ele mesmo decidia! Mais espantado ficou ao perceber que não era por falta de medo que Alegria assim agia. Ela tinha muitos, mas escolheu como companheira de caminhos Liberdade e ela é muito exigente, te obriga a andar com Opção, Verdade, Coragem, Entusiasmo, Intuição e tantas outras companheiras que quando deu pela coisa esse sorriso era Alegria, uma enorme alegria de viver intensamente tudo que a vida tem de bom e bonito. Desta forma, os piores inimigos nunca seriam seus companheiros de viagem: o Arrependimento e a Covardia.

Sorriso começou a perguntar-se coisas. Ficou numa confusão tremenda! Como era possível aquele mundo bonito e alegre? E as regras fixas? O que fazer com Tristeza? Onde foi que ela surgiu? E Choro? Quantas coisas mais iria descobrir? E descobrindo, o que fazer com tudo isso? Como é viver? O que está acontecendo? E Sorriso começou a ser Angústia.

Ele não sabia que Angústia é a primeira amiga de Transformação e ela vai mansamente caminhando para alegria e tudo começa a ficar colorido na vida por opção própria. Sorriso precisava entender que devia parir ele mesmo, então Esperança expulsaria Tristeza e Alegria e Liberdade tornar-se-iam companheiras de caminhos.

Alegria chamou Sonho e fez dele seu confidente. Ele sonhou o Amor tão fortemente que Alegria se fez Vento-Ventania, escancarou a janela de Sorriso; brincou Arrepio e passou por seus sentidos; mostrou-lhe o mundo cheio de flor, mar, gaivota, peixe, Amor; tornou-se Fogo, queimou correntes e afastou Tristeza definitivamente.

Era um Sorriso fechado, que depois de tão amado se fez Brilho, Olhar-Sorriso, Cheirar-Sorriso, Ouvir-Sorriso.

Sonho, então, sonhou seu Sonho Encantado e transformou Sorriso em Corpo-Sorriso e Alegria foi habitá-lo.

                                                                               Cristina Manga
                                                                                 (in "Portais")

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