segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A CONHA



Seguiu seus passos até os limites de sua porta e aguardou. Trazia um mundo pesado às costas, mas na mão uma flor e um grão de areia.

Não tinha palavras para dizer, não sabia por que fazia essa peregrinação diária, não era capaz de explicar o que estava acontecendo, mas ali estava, como uma árvore que lentamente vai lançando raízes, criando galhos, cobrindo-se de folhas e em condições satisfatórias enche-se de flor e frutos.

Caminhava com desconfiança, como quem testa cada passo, observa e aguarda. Todos os dias perturbava a porta com um grão de areia e observava.

Até hoje não sabe em que momento percebeu que ela movia-se, olhava diferente e até traia-se num sorriso que insistia em escapar e logo desistia.

De grão em grão Passos insistia.

Tudo começou em pequenos segundos silenciosos cheios de curiosidades, espantos, medos, perguntas, mostrando os caminhos do encontro.

Num dia azul de chuva Passos transformou-se em mar, Porta abriu-se e descobriu que grãos de areia podem transformar-se em pérolas.

Mar acolheu a Concha e seu tesouro e entendeu perfeitamente todos os passos que dera em direção ao mistério. Nenhum fora gratuito. Nenhum se perdera. Todos estavam escritos desde o princípio.

Agora a Concha e seu tesouro são livres de incômodos grãos de areia. Porém, se outros vierem, bastará ouvir seu coração e produzir seus tesouros...

                                                                                Cristina Manga
                                                                                  (in "Portais")


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