segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A NOTÍCIA



Morreu.

Não ficou doente, nem sofreu um acidente, simplesmente morreu.

Difícil pensar você morto. Ainda estou correndo pés descalços sentindo a terra, o orvalho, espirrando sem camisa sob os protestos da velha Joana; pulando cerca de arame farpado, rasgando as calças, brincando com o vento, andando à cavalo...

Velho João moendo cana, mascando fumo, cuspindo cotidiano, plantando milho e nós correndo, brincando, pulando, comendo juntos, dormindo lado a lado.

Amigo do peito como você nenhum. Adivinhava a lágrima escondida e não poupava esforços para fazer-me rir.

Longas conversas à beira do rio, banho na cascatinha, tudo era motivo de festa, de risos, de travessuras e você o cúmplice, o único.

Morreu de velhice, à beira do rio, no nosso esconderijo, meu amigo, meu cão.

                                                                                    Cristina Manga
                                                                               (in "Alguns Retratos")


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