segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A FREIRA E O GALÃ



- Irmã quanto tempo falta para chegar no curso?

- Alguns pontos de parada.

- Será que sempre temos que viajar em pé nesses ônibus?

- Irmãzinha não reclame, reze.

- Me empresta seu rosário de dedo?

- Claro. Está no meu porta moeda. Espere um instante. Ai meu Deus!

- O que aconteceu?

- Espere um momento - virou-se para o rapaz de meia idade, terno e gravata, bem arrumado que viajava em pé ao seu lado, e sem nenhuma dúvida sussurrando-lhe disse:

- Hei, moço!

- Pois não Irmã – ele sussurrava também

- Me devolve meu porta moedas ?!

- A senhora ficou louca? Por acaso tenho cara de ladrão?

- Não. Mas eu sei. Me devolve o porta moedas!

- Irmã, a senhora me ofende! Sei lá do seu...

- Por favor, entenda, só tem o valor certo para a postulante e eu voltarmos para o convento!

- Minha senhora! Olhe bem para mim!

- O que tem?

- A senhora vê um ladrão?

- Olha, não interessa isso, me devolve meu dinheiro!

- A senhora é louca!

- Meu filho, pelo amor a Deus, o convento é longe, não podemos voltar a pé!

- Isto já passou da conta! Por que eu?

- Pelo amor de Deus, devolve!

- Pare com isso! Já começam a me olhar estranho. Até parece que estou flertando com uma freira!

- Eu só sei que não temos como voltar para casa!

- Olhe- disse o homem ainda sussurrando – não se preocupe mais, seu porta moedas está de novo no seu bolso. E desceu rápido do ônibus.

                                                                          Cristina Manga
                                                                    (in "Alguns Retratos")


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