segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O PESADELO



O carro veloz na noite espessa, na rua deserta, correndo, fugindo, o vulto após a curva, no meio da pista, um segundo, o freio, o impacto inevitável, o barulho surdo, o pânico. O homem foi o carro, o medo, o desespero. Lembrou-se da festa, do atraso, e amanhã? Os jornais, talvez testemunhas, não, ninguém vira, era tarde, a mulher... – Pobre mulher, será que morreu? Claro, impossível estar viva!

Tudo girava em sua mente: a cara, a semelhança, parecia-se com ela, aquela peste sua mulher.
- Afinal a culpa é dela! Insaciável, indiferente, sempre distante. Como alguém atravessa numa curva? Resolveu: - a culpa é dela. – Prosseguiu.

Perdeu-se na noite, no movimento, nos cartazes de néon, no bar. Escondeu-se na garrafa e bebeu até mentir flores bonitas. Mordeu a angústia, cuspiu na solidão, deu um gole para o santo e fingiu amor com a garçonete no quarto atrás do bar.

O quarto era pequeno. Tinha o indispensável e cheirava a perfume barato. A mulher ali, esperando o gesto, o ato, tratando o preço como um desagravo. Ele descobriu uma solidão maior que a sua e sorriu sem mentira, pasmado.

O sol os surpreendeu adormecidos, exaustos, sorrindo ainda, entrelaçados. Vestiu-se lentamente, despediu-se num afago sobre o corpo despido da mulher e partiu.

A caminho de casa recordou a festa, os amigos esperando, a esposa, Deus! Podia ouvi-la gritando: 
- Onde esteve?! Não diga! Era o que faltava! Além de fracassado agora também um bêbado! Olhe para você! O que vê? Eu lhe digo: nada! Isso é o que você é, nada!

Surpreendeu-se rindo, feliz, livre. Nem o pesadelo da noite anterior preocupava-o. Tinha afogado Freud na garrafa, no copo, no corpo da mulher da noite passada.

Na casa um empregado o aguardava.
- Senhor, sua mulher...
- Matei-a ontem, no quarto dos fundos de um bar! Não diga nada...
- Senhor acho que não compreendo. Devo dizer-lhe, sua mulher morreu ontem à noite, atropelada. Foi um acidente inevitável.

                                                          Cristina Manga
                                                      (in "Alguns Retratos")

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