domingo, 22 de dezembro de 2013

O VOO E A LENDA



Conta-se, que diante do oceano, em cima de uma pedra, sentindo cheiro a sargaço, debaixo do sol, debaixo do céu, por debaixo dos passos, estava uma Gaivota.

A seu lado, dentro de um pequeno buraco, um Peixe, preso no capricho do tempo, nadava e nadava em círculos esperando a maré.

A Gaivota olhava e perguntava-se: por que este pequeno ser não salta, não se rebela, não grita? Bastaria um suave toque, talvez a ponta de minha asa e ele estaria livre, com todo o oceano à sua frente e tudo o que ele oferece benevolente.

Ocorreu-lhe um pensamento estranho: gaivotas alimentam-se de peixes... Mas, este era tão frágil, tão preso, que mais forte que o instinto foi o desejo de salvá-lo. Bastavam aqueles meninos cheios de plástico tentando agarrá-lo!

Começou ali a grande jornada. Gaivota pensava: pode um peixe viver fora d’água? Somente por um tempo calculado de um salto, um voo alto e um mergulho onde as mãos dos homens já não possam tocá-lo?

Dia a dia a ela traçou planos, cálculos, cuidados. Fazer um peixe voar não era uma tarefa fácil! O estranho era que subia maré, descia maré, mas o Peixe ficava em seu pequeno buraco. O que ele esperava? Seria a volta da Gaivota com seus vôos planados e suaves, suas acrobacias mirabolantes e seu prazer em voar?

Devagar foram criando uma comunicação silenciosa, até o dia em que a Gaivota não teve mais dúvidas: o Peixe queria voar. Queria voar! Então, suavemente tocou-o com a ponta de sua asa e ele aninhou-se entre suas penas, cuidadosamente molhadas. Era o suficiente para avançar mar adentro. Decolou lentamente, foi ganhando altura e planou no céu azul com a cumplicidade dos ventos.

Uma estranha alegria invadiu aqueles dois seres, de tal modo que ela nunca voou tão suavemente e ele, mais e mais aninhado, não se desprendia de sua asa, nem ar lhe faltava.

A natureza pasmou-se, os deuses sorriram e até Netuno compreendeu: havia esquecido que peixes podem ter asas.

Comovido com aquele amor, converteu o Peixe em Peixe-Voador e a Gaivota rebatizou de Andorinha-do-mar. Assim foi que a natureza ganhou novas espécies que o mar protege, enquanto juntos voam e mergulham num sem fim de brincadeiras, misturando vidas, fazendo-se espécie, longe das redes, dos tiros, dos arpões e dos anzóis.

Enciumados, os deuses do Olimpo quiseram guardar no reino do etéreo a força de liberdade dos dois. Assim, transformaram o Peixe em Piscis, formado de estrelas em dois; Andorinha, por teimosa, em Áries, fogo que tudo conquista. Deus Pai sorriu, pois que tudo é um, o Fogo acende a vida que a Água guarda maternal. Desta forma, sua criação apenas enriquecera-se com a liberdade de Peixes e Andorinhas que agora voavam além do azul.

Assim conta a lenda deste pedaço de terra e deste pedaço de céu. Desde esse dia quem achar uma Andorinha-do-mar achará um Peixe-voador e à noite duas constelações a cintilar e brincar.

                                                                   Cristina Manga
                                                                    (in "Portais")


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