segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

OS LIMITES



Ergueu-se de repente com um soco na mesa, olhos arregalados e a pele tensa. O homenzinho à sua frente não sabia se corria ou escondia-se sob a mesa de jacarandá, ao tempo que a ira ia desalojando seus medos e ampliando espaços. Ele pretendia definitivamente voltar para casa com o aumento de salário necessário. Tinha prometido, jurado, ela insistiu tanto que tentasse e ele não tinha mais como deixar de enfrentar a situação, tensa dos dois lados.

- Está bem mulher, vou tentar de novo. Mas você sabe como ele é estúpido e não se importa com nada. – Saiu para o trabalho com essa promessa martelando-lhe os ouvidos.

Joana era uma mulher bonita, mas nunca soube disso e Pedro não fazia questão que soubesse. Passava os dias entre pratos, comidas e roupas penduradas, num sem fim de camisas, lenços, cuecas e fraldas. Ah, as fraldas! Pareciam centenas, milhares, quanto mais pesava o cansaço. Ficavam desparramadas pela sala, quarto, banheiro, como bandeiras manchadas. E como limpá-las sem sol? Nunca batia sol no conjugado que alugaram perto da praia, apesar de caro. Mas Pedro insistiu tanto! Abria mão de tudo, menos da praia. Ela concordou, bastante havia sido conseguir que ele assumisse o filho a caminho. Não ia por tudo a perder.

O dia correu lento para ela. Agora estranhava a demora do companheiro e a ansiedade começava a crescer. Afinal hoje ele saíra decidido a falar tudo e não deixar-se intimidar.

Ligou a televisão e sintonizou a novela. Isso afastaria os pensamentos negativos, sempre presentes quando o atraso do outro é evidente. Ainda pensou que com certeza preocupava-se à toa, pois ele deveria estar tomando umas cervejas por aí com amigos.

Distraída, um plantão urgente a fez sintonizar como quem acorda de repente. Diante dela, na tela mágica, preso em flagrante, algemado, olhar perdido, seu marido explicava as razões e sem razões do assassinato.

                                                                                    Cristina Manga
                                                                                (in "Alguns Retratos")


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