domingo, 12 de janeiro de 2014

MÁRIO MANGA - CAMINHOS DO HOMEM




CAMINHOS DO HOMEM
Conteúdos do consciente, inconsciente, da alma e suas formas de manifestação
G. J. M. Manga   (Mário Manga)


 APRESENTAÇÃO

Geraldo José Mário Manga, mais conhecido apenas por Mário Manga, nasceu em Baurú, estado de São Paulo – Brasil, em 7 de agosto de 1926, filho de João Baptista Manga e Albertina Marcondes de Moura. Cresceu nas plantações de café de seu pai até a idade escolar. Estudou seus primeiros anos em São Paulo, interessou-se por música e aos dezessete anos já era compositor e Maestro. Aos vinte anos entrou para a IBM do Brasil e casou-se com Yvone Tirelli, com quem teve dois filhos: Maria Cristina e Mário Marcus.

Tendo começado como Auxiliar Administrativo, foi construindo sua carreira na empresa: tornou-se vendedor e como tal ganhou o premio mundial Watson de Vendas, três anos consecutivos. Estudou economia e, uma vez formado, foi o primeiro economista reconhecido pela IBM e promovido ao cargo de economista da empresa, função que exercia sem equipe, além de assessor direto da Presidência da IBM Brasil. Depois, também, assessor da IBM World Trade Corporation, cargos que ocupou até a sua aposentadoria.

Casou-se em segundas núpcias com Norma Hänel, com que teve mais três filhos: Alexandre Alberto, Mario Henrique e Mônica.

Na década de 60 foi nomeado pela OEA assessor econômico das delegações latino-americanas, que buscavam a criação da Aliança Latino Americana de Livre Comércio – ALALC, o que o levou a residir no Uruguai por cinco anos, além de constantes viagens pela América Latina.

Os contatos contínuos com pessoas de variados países só aguçaram sua sensibilidade para a música, a poesia, a filosofia, a psicanálise, que seu espírito inquieto, sempre interessado e versátil transformou em tangos, cantigas, poemas, sambas, choros e chorinhos em seu famoso violão preto, feito sob medida para seus longos braços, ou no piano, fiel companheiro nas noites da sala de visitas de sua casa. Tocava e compunha com maestria e sensibilidade, encantando a todos que o ouviam.

Essa inquietude e eterna busca de saber o levaram a redigir este livro, concluído em 1986. Nele procura sintetizar sua cosmo visão da vida, outras vidas, ou fora dela em seus significados mais profundos. É sem dúvida um livro, como ele mesmo diz, para ser entendido em seu todo, porque nele o autor tece passo a passo os conceitos e os entrelaça como paciente artesão, para expressar a unidade do da sua visão. Ao término da leitura se apresenta o desenho musical da unicidade de seu pensamento global.

Devo acrescentar que o livro foi editado respeitando o original que me foi mandado por ele mesmo, conforme pedido expresso no bilhete que acompanha esta edição. Tive o cuidado de respeitar a sua forma de linguagem e estilo, apenas modificando pequenas coisas que a datilografia do manuscrito errou, misturou espanhol, ou não expressavam bem o pensamento do autor.

A edição deste livro não tem objetivo comercial, nem pretendo, caso isso venha ocorrer posteriormente, obter lucro com um trabalho que pertence a ele. Apenas desejo realizar o desejo dele mesmo de ver o livro publicado e possibilitar sua leitura àqueles que já manifestaram seu interesse em conhecer as ideias por ele expostas. Qualquer situação futura, caso ocorra, assumo a responsabilidade de resolver, como assumi a responsabilidade de editar e providenciar a sua edição.

Resgato, hoje, uma parte dele nestas páginas e espero seja um presente para todos nós que formamos a sua família e para aqueles que conviveram com ele e aprenderam a admirá-lo e respeitá-lo como homem de múltiplas habilidades, tanto quanto como profissional brilhante que foi.

Eis o livro. O mais é meu agradecimento ao autor, meu pai.
                                                       Cristina Manga




 PREFÁCIO 

CAMINHOS DO HOMEM, não é um LIVRO, é uma OBRA. Realizada por uma mente: consciente, inquieta, investigativa, que usou a alma e suas formas de manifestação para transformar um simples em um complexo e um complexo em um simples. 

Para um jovem, oriundo dos cafezais paulistanos chegar a ocupar uma posição relevante em empresa multinacional e fazer com a: Psicanálise, Antropologia, Filosofia, Economia e Sociologia um enorme questionamento e produzir várias reflexões entre nós? 

Ele consegue sensibilizar, criticar, discutir e fazer o leitor amadurecer com uma delicadeza saborosa, que devemos degusta-la lentamente, em cada página. 

Em cada capítulo encontramos explicações de tudo um pouco, e um pouco em tudo. Assim, como um regente reúne vários instrumentos para executar uma só melodia. 

Expor (e que coragem): Vida e Morte, Bem e Mal, nossos segredos, mitos e medos. Sintomas cotidianos ao “seu modo” polivalente. 

Mário Manga (O HOMEM) encontrou um CAMINHO (QUESTIONAR) e faz você, leitor, procurar e encontrar o seu. 
                                   Lino Rivas Cervino Neto 
                                   Médico Psiquiatra 
                                   Prof. de Ciências Biológicas 
                                   Outubro 2012.
                 

Caro Leitor

Você só poderá dizer se este livro é razoável ou não se o ler inteiro, mesmo que esteja em desacordo em certos capítulos. O livro é um todo. Eu acho que você vai, depois de ler cada página, parar um pouco para pensar.
                                  O autor
                              Julho, 1986



CAMINHOS DO HOMEM NA NATUREZA
Conteúdos do consciente, do inconsciente e da alma e suas formas de manifestação.


As impressões sensoriais são percebidas, avaliadas e armazenadas ou não na “memória consciente”.
Nossas impressões extrassensoriais, subliminares e biológicas (desenvolvimento-infância-puberdade) não são avaliadas, mas gravadas em sua forma crua e simbólica na “memória inconsciente”. Ao serem excitadas por um fato, impressão ou sensação, ambas as memórias atuam, ou seja, um mesmo fato, impressão, ou sensação, podem excitar uma ou ambas as memórias. Sendo os conteúdos conscientes e inconscientes diversos na sua essência ou no seu simbolismo e significado consciente, as reações nervosas (estímulo cerebral) podem ser em um só sentido, seja ele consciente ou inconsciente, ou podem se confundir e “embaralhar” fazendo o indivíduo indeciso em que ação tomar. Possivelmente tomará uma ação também ambígua ou confusa, no segundo caso. O indivíduo vacila sempre que as informações dos dois conteúdos são conflitantes. Assim, podemos achar que devemos fazer algo em determinado momento, mas “algo nos diz que não”.

O conteúdo consciente é “codificado” segundo a compatibilidade da impressão sensorial com a cultura da pessoa, segundo sua sensibilidade, mas sempre com uma, ainda que leve, interferência do inconsciente ou do cérebro primitivo (animal) e segundo seu estado biológico. Recebida uma impressão sensorial, “pensamos” ou raciocinamos, “sentimos” (impressão profunda) e intuímos (cérebro primitivo) para memorizar conscientemente. Quando o consciente se nega a memorizar por achar a informação inútil ou “que incomoda”, o inconsciente a gravará, à sua maneira, isto é, simbolicamente, única “linguagem” que o inconsciente conhece.

Uma grande massa de material captado sensorialmente não é elaborada (codificada) pelo consciente, ficando, entretanto, sua significação real retida pelo inconsciente. A esse material se junta o material percebido extra sensorialmente ou subliminarmente, sendo gravado em forma de símbolos – forma compacta do conteúdo de uma ideia. Esse conteúdo sempre tenta tornar-se consciente. Por associação, por excitação, ou pelo sonho, o inconsciente se esforça para que o consciente “elabore” o material e se equilibre. É uma das funções primordiais do sonho: equilibrar a psique.

Muitas vezes, sentida a impressão sensorial, a pessoa não sabe o que é aquilo. Quantas coisas vemos e não sabemos o que é, conscientemente. Isso é principalmente comum nas crianças. Entretanto, é muito possível que o inconsciente saiba o que é. Se não, reterá a impressão, outra vez em forma de símbolo, enquanto o consciente, simplesmente, “se esquece do fato”. Porém depois...


UM EXERCÍCIO INICIAL
As impressões sensoriais, extrassensoriais e sublimares são absorvidas em forma crua e simbólica pelo inconsciente, com nuances próprias ou compatíveis com a cultura do indivíduo. Uma vez captadas pelos sentidos (sensoriais) essas impressões são “elaboradas”, “avaliadas” e muitas vezes “codificadas” (palavras convencionais) para serem absorvidas pelo consciente, serem “memorizadas” para posterior uso do indivíduo.

Entretanto, uma grande massa de material captado não é elaborada, pois não interessa ao consciente e essa falta de elaboração leva a uma aparente perda da informação em linguagem do consciente. Porém, o inconsciente “memoriza” a informação, não de forma “codificada”, mas em forma de símbolos (forma compacta do conteúdo de uma idéia). Disso pode resultar um desequilíbrio entre os conteúdos conscientes e os inconscientes, podendo, posteriormente, provocar os conflitos entre consciente e inconsciente. Este, através do sonho, procurará restabelecer o equilíbrio pela projeção de imagens (símbolos). Não sendo bem sucedido, o inconsciente ainda procurará esse equilíbrio agora de forma sutil. O indivíduo sente que lhe “vem à cabeça” uma idéia súbita que parecerá não ter sentido e não saberá bem porque isso lhe veio à cabeça. Outra tentativa do inconsciente será a projeção de sons (a pessoa ouve, ou sente que algo “fala” ao seu ouvido) e até a projeção de imagens (“eu vi tal coisa”).

A aparente desistência do inconsciente fará com que a pessoa, pensando em algo, raciocine que está tudo certo, mas “sente” que falta alguma coisa. Isso que falta é algo relacionado com a idéia, complementar a ela, mas que permanece em sua forma inconsciente. Muitas vezes a ideia se completa sem que nos demos conta da participação do inconsciente. Pensamos que “lembramos”, mas não sabemos bem como pudemos “lembrar” de algo que não sabíamos.

Há ainda a considerar os “símbolos” do inconsciente coletivo. São símbolos que todos têm, mas cada indivíduo os “memoriza” de modo diferente, segundo seu conhecimento consciente, sua cultura, etc. Esses símbolos coletivos se encontram em grupos, comunidades, gerações ou toda a humanidade. Assim são os conceitos de “divino”, “pecado”, “mal”, “bem”...

O processo de absorção é, também, e muito frequentemente, subliminar ou extrassensorial. A cada sensação há uma “avaliação”, ou “seleção”: da sensação ao pensamento, deste ao sentimento, deste à intuição. Assim, captamos, pensamos, sentimos e intuitivamente decidimos segundo Jung:

A. Tornar a sensação imediatamente consciente;
B. Não a tornar consciente;
C. Defende-nos da sensação (criar uma imagem falsa, a propósito);
D. “Memorizar” para futura referência.

Na hipótese “A” segue-se o processo de elaboração e codificação. Nas outras hipóteses somente a elaboração tem lugar.

Chamo forma elaborada a “ideia codificada” segundo a linguagem, formalismo e cultura que condicionaram o indivíduo consciente. Podemos ainda chamar sensações codificadas (conscientes) e não codificadas (inconscientes). Assim, se o comportamento do indivíduo é “mau”, ele nada mais é senão a manifestação não codificada do inconsciente, sendo ainda muito provável que o “mau” esteja na codificação, ao dar-se a transferência inconsciente-consciente.

O processo de “repressão” atua antes da “avaliação” mencionada: após a impressão sensorial, atua o pensamento e aí se detém o processo. O indivíduo se recusa a “sentir” e, rapidamente, rejeita a ideia para o consciente, mas o inconsciente a fixa e daí ressurgirá no futuro, de uma forma ou de outra, ou se estabelecerá um grave conflito entre o inconsciente e o consciente, até que este aceite a ideia.

Essa tentativa do inconsciente persistirá e sempre que rejeitada pelo consciente poderá resultar em neurose e até em psicose. É bem possível que muitos desses conflitos sejam proporcionados pela educação do indivíduo. O seu conceito de bem e mal, por exemplo, segundo sua crença ou religião. O poder do inconsciente é tanto menor quanto maior for o poder do consciente e vice-versa. O poder do consciente aumenta com o saber e somente pelo saber. A função do inconsciente é “absorver” esse saber. O consciente tem o “poder”, enquanto o inconsciente tem “sabedoria”.

Quando a mente se forma no útero materno registra impressões e sensações? É extremamente provável. O consciente do intrauterino receberia pelo menos dois tipos de impressões sensoriais: uma através das alterações quimiobiológicas do organismo da mãe, resultantes dos estados psicológicos transitórios da mesma. Exemplo: aumento de adrenalina por susto ou medo. A impressão registrada pelo feto não seria de susto ou medo, mas as alterações metabólicas levariam à “memorização” de um símbolo construído até mesmo como defesa intuitiva contra o “mal estar” experimentado. Mas, o que nos interessa é o mecanismo de construção de símbolos, linguagem do inconsciente.

Outro tipo de registro sensorial seriam as impressões e sensações sofridas pela mudança de estado psicológico da mãe, exposta que está ao mundo exterior. Essas impressões sensoriais que começam a compor o arsenal de registros do inconsciente da criança podem ser feitas de símbolos profundamente diferentes dos gravados pelo inconsciente da mãe. Os símbolos gerados por um e por outro não estão, senão por raríssima coincidência, nem mesmo relacionados entre si. Mas isso ainda não é o “resíduo arcaico” de Freud ou os arquétipos de Jung. Os símbolos arcaicos e históricos seriam construídos antes do nascimento e poderiam ser bem parecidos, em conteúdo, aos de uma mesma espécie, do mesmo tempo. É realmente difícil perceber pelas futuras manifestações do conteúdo do inconsciente se eles são pré-natais ou pós-natais, pois eles podem se confundir no mar de símbolos primitivos e sem significação para o homem civilizado, que vai tentar compreendê-los.

A forma simbólica será inevitavelmente individual. Não há, portanto, nenhuma “hereditariedade psicológica” herdada por esse mecanismo. No máximo a “hereditariedade psicológica” poderia ser genética (no ADN?). O que pode confundir é um “comportamento similar” entre pessoas da mesma família, do mesmo grupo, ou da mesma espécie (símbolos coletivos), o que é perfeitamente compreensível, já que vários estímulos externos enviados ao inconsciente são os mesmos para os indivíduos do mesmo grupo, geração, ou espécie. Por fim, há ainda a considerar o “instinto” próprio de cada espécie e sua forma de manifestação: o cão ladra, o homem grita, etc.

A dificuldade do homem é incomensurável para entender qualquer fenômeno que não se apresente em três dimensões, pois essas são as dimensões que eles têm. Dizemos incomensurável e não impossível, porque o homem “sente” a presença de outra dimensão. Não a entende racionalmente, já que racionalmente só entende as impressões sensoriais que são tridimensionais. Mas, esse “sentir” que não provém de nenhum dos cinco sentidos pode provir de outro sentido, não racional, ou de outra dimensão, às vezes é o caso de sonhos. Além do simbolismo próprio, com o qual o inconsciente se manifesta através do sonho, a representação não é tridimensional. Daí o sonhador não deve desesperar-se para entender o sonho, mas, deve procurar “senti-lo”. E o sentirá perfeitamente. Vão se encarregar disso o instinto e a intuição, além de eventuais sensibilidades para percepção extrassensorial de que disponha a pessoa.

Se falta ao homem alguma dimensão ou algum “sentido consciente” (percepção sensorial), então haverá um ou mais “sentidos inconscientes”. Rhine demonstrou cientificamente a existência da percepção extrassensorial, que seria um desses sentidos inconscientes, ou seja, um sentido que o homem tem, mas não conhece sua causa, seu “mecanismo”, ou sua posição no tempo e no espaço e não controla conscientemente. Sentimos seus efeitos. Sendo assim, sentimos muitas sensações e temos muitas percepções de “causa desconhecida”. Diremos que são os espíritos ou os fantasmas, enfim, algo extraterreno. Mas é simplesmente a limitação do homem no espaço e no tempo, ou em outra dimensão qualquer, que por não tê-la o homem jamais a entenderá e não terá consciência de qualquer coisa que provenha dessas outras dimensões. Tudo que daí provenha e seja “sentido” inconscientemente pelo homem, ou “sentido” extrassensorialmente, ele dirá que são coisas do outro mundo. Assim, muitas percepções e fatos não explicáveis racionalmente perderiam seu “mistério” se pudéssemos ou se acrescentássemos a eles outra dimensão, o que é impossível. Então não podemos explicar racionalmente muitos “sentidos” e fatos, mas podemos “senti-los”, sentir sua presença e sua ação em nossa vida consciente. Voltaremos a esse tema depois de discutir sobre os “sensitivos”.


VIDA E MORTE
A VIDA VEM DA MORTE OU A MORTE VEM DA VIDA?

Se a vida vier da morte e for para a morte, então, só existirá a morte. Mas se a morte vem da vida e vai para a vida, então, só existirá a vida. Se a vida vai para a morte, de onde vem? De outra morte ou da mesma morte? Se a morte vai para a vida, de onde vem? De outra vida ou da mesma vida? Se, com Lavoisier nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, nem a mesma vida, nem a mesma morte podem voltar na mesma configuração. Ligada a esta há outra questão: a vida existe para o homem aprender ou para o homem ensinar? Sendo para aprender, que será do conhecimento após a morte? Foi inútil? Não é aproveitado? Ou, que uso se fará dos conhecimentos adquiridos em vida, após a morte? Sendo para ensinar, ensinar a quem? E com quem aprende? Observa-se que uma enorme quantidade de homens morre na ignorância, considerando-se como ignorância a falta de outros conhecimentos além dos instintivos e os intuitivos. Isso corresponde aos outros animais. E o que fazem no mundo essas pessoas? Têm elas, também, uma missão?

A “missão” do homem na terra é, indubitavelmente, a de aprender conscientemente para ”ensinar” inconscientemente. O espírito só pode saber tudo o que sabia até a morte do corpo e só pode aprender através das funções do corpo. Entretanto, esse espírito (inconsciente) é ávido de saber, pois sempre deseja ou “precisa” esclarecer-se. É essa uma das funções do homem: esclarecer o espírito, ensinando a ele o que não sabia até a morte do corpo. Fortalecer o consciente, dando a ele a maior quantidade e qualidade de saber que for possível e tentar preservar a personalidade no seu estado consciente cada vez mais puro, isto é, isento de enfermidade.

Esse “saber consciente” (e não há saber que não seja consciente, pois no “saber inconsciente” o homem não saberia que conteúdo possui e em que grau), ou seja, a percepção consciente das manifestações do inconsciente e a compreensão de seu simbolismo é a única forma de eliminar conflitos internos consciente-inconscientes, pois este “se acomoda” e aprende o que o consciente lhe “ensina”, já que esta é a “missão” do consciente. Enfraquecer o estado consciente pela não “provisão” de saber, de conhecimento, é arriscar que o inconsciente cresça até que se “personalize”, assuma a personalidade total do indivíduo: é a loucura, a demência, a psicose, o “estado de inconsciência”. A “missão” de cada ser vivo é, assim, fornecer ao inconsciente, ou à alma, o conhecimento que ela não adquiriu “em outras vidas”, outras personificações. A melhor maneira de fazer isso é tomar consciência das informações contidas no inconsciente e agregar as informações que faltem. Para isto é preciso saber. E a única maneira de saber é tornar consciente, conjuntamente, as “informações” do consciente e o saber do inconsciente.

Mas, o ponto de partida não seria o zero. Parece que o espírito já sabe alguma coisa, ou até muita coisa, que o consciente não sabe. Não serão, entretanto, conhecimentos só possíveis de adquirir em tempo posterior à morte do corpo. O homem, assim como o espírito, só pode “prever” o que já aconteceu no passado, ou o que era de seu conhecimento até o momento da morte. Esse conhecimento pode ser consciente ou inconsciente. Muitas pessoas morrem tendo um vastíssimo conhecimento, enquanto outras morrem praticamente na ignorância total de determinado assunto. Um indígena ao morrer não tem nenhuma necessidade de saber algo sobre energia nuclear, por exemplo. Assim, seu espírito jamais saberá desse assunto, à exceção de que seja “ensinado” posteriormente. Mas aquele inconsciente que conheceu a energia nuclear fará tudo, dentro de seu modo de manifestação, para que o consciente ignorante da matéria venha a estudá-la. É a “previsão” do futuro que não tem nada de novo ou de futuro: ou o consciente ensina o inconsciente ou este ensina ao primeiro. Na grande maioria dos casos é o consciente que ensina o inconsciente e esta é a razão porque o homem que não procura o saber não cumpre sua missão e é “perturbado”. Ou a missão desse homem é outra que não o de saber para ensinar.


A FUNÇÃO ENERGIA E SUAS FONTES

Se contemplarmos o homem, as plantas, os animais, o universo, sempre encontraremos a presença da energia. Nada existe sem ser energizado. Não existe, em todo o universo, absolutamente nada “morto”. Se existe, tem vida, tem que ter energia. Mesmo a pedra é um agrupamento de átomos em núcleos vivos. É falso supor que a vida só pode existir nas formas vistas pelo homem. A vida (energia) existe em um sem número de formas e intensidades. A energia necessária à vida de uma formiga não é da mesma intensidade da energia necessária para manter vivo um peixe. A energia necessária à vida é produzida pelas mais variadas fontes e resultante de um “complexo energético” que é a mistura da produção das várias fontes. Um dos elementos da “mistura” que entra em todas as composições energéticas é a energia cósmica. Assim a energia elétrica, magnética, hidráulica, térmica, são um dos componentes da energia mantenedora da vida.

A energia mental, além de seu componente material, é gerada pelo choque equilibrado dos opostos. Assim, para o homem viver mentalmente é preciso que tenha componentes mentais opostos, como por exemplo, o bem e o mal, a alegria e a tristeza e assim por diante. O choque dos opostos é necessário tanto para a energia material, como para a energia mental, ainda que com características qualitativas e quantitativas diferentes. Á falta de um oposto, o outro pólo agiria sozinho e produziria uma vida “anormal”. Se o homem tiver só o mal será anormalmente mau. Se tiver somente o bem será anormalmente bom. Em nenhum dos casos viverá bem e exercerá a sua função ou missão específica de também ser uma fonte de energia para outros tipos de vida. Essa é, aliás, uma das características das vidas: uma é fonte de vida para outra e não se pode romper o equilíbrio, sob pena de causar prejuízos irreparáveis à totalidade da vida. E tal prejuízo seria indubitavelmente “castigado” pelos que sofrerem suas conseqüências.

Então é preciso que haja vida para haver vida e é preciso que cada vida seja feita de energia devidamente “polarizada” e fundamentalmente “equilibrada”, como todo o Universo.

Quando Deus criou o homem deu a ele o livre arbítrio. O homem poderia escolher e decidir. Deus se apresenta com seu antagonista, a serpente, que tenta o homem para que tenha consciência do bem e do mal: a maçã, fruto proibido por Deus ao homem. Mas, o homem come a maçã, despertando para o bem e o mal. A questão é, por que a maçã continha “misturados” o bem e o mal e, assim, ao comê-la o homem já tomaria consciência dos dois pólos ou opostos? Por que Deus não fez uma árvore só de bem e outra só de mal e o homem, pelo livre arbítrio, escolheria de qual delas comer? É que em Sua sabedoria, Deus sabia que era necessário ter a totalidade e não só a metade. Assim, para ter o bem é preciso ter o mal e vice-versa.

Conclusão, vemos que a existência da vida “equilibrada” necessita de energias opostas devidamente “dosadas”. Não se tomem neste raciocínio julgamentos éticos ou preceitos morais para o bem e mal.

Cada unidade energizada torna-se por si só outra fonte de energia que “abastecerá” outros tipos de vida. Ao tornar-se, então, uma fonte energética, o homem deve fornecer a “totalidade” da energia necessária à outra vida, isto é, deve fornecer os opostos como Deus fez com ele, homem. Donde é necessário que o homem tenha e use os opostos para manter sua vida e cumprir sua missão. A mente humana e não humana permanecerá viva enquanto receber energia própria e adequada.

Qual será a fonte dessa energia? O corpo material? Sim em parte, isto é, de UM CORPO material e não necessariamente do mesmo corpo que possui a mente. Havendo energia própria e adequada DE QUALQUER FONTE, haverá vida. A energia mental pode ser captada de outra mente pela irradiação do pensamento desta. É o que prova, por exemplo, a telepatia, nas experiências de Rhine. Se a mente pode captar energia de outras fontes que não o corpo que a possui e se essa energia pode ser captada através do pensamento, então a mente (alma) pode ter vida "eterna". Quando Jesus disse que "os bons terão vida eterna" deveria ter dito que o “mau” também, pois a eternidade é representada pela certeza que sempre se pensará nos bons. Eles sempre serão lembrados. Mas os maus também. Esta integração realiza a totalidade.

Está na energia e sua fonte apropriada a possível solução de um sem número de "fenômenos inexplicáveis". Ora, todo o inexplicável só o é enquanto não for gravado pelo consciente, ou seja, enquanto não for do conhecimento do homem, conscientemente. Infindáveis números de "fenômenos" deixaram de o ser depois de conhecidas suas causas. O próprio conceito de Deus tem mudado durante os milênios de vida humana na Terra. Muita coisa que só Deus poderia fazer, hoje é feita pelo homem, imitando a natureza ou espontaneamente. Deus é a fonte da vida, mas para ser essa fonte, Deus precisa ser energizado para criar energia.

Sem dúvida Deus é a maior fonte de energia conhecida pelo homem. É uma fonte inesgotável e assim será enquanto houver vida na Terra. Mas essa energia recebida de Deus "acaba"? Dizendo de outra maneira, a energia mental do homem (alma) acaba com o corpo do homem? E se extingue tão rapidamente quanto se extingue a energia do corpo? A resposta, indubitavelmente é NÃO, pois as fontes são outras. Uma alma será sempre viva ENQUANTO ALGUÉM PENSAR PROFUNDAMENTE NELA.

Há um ponto comum em todas as religiões e crenças desde a mais remota antiguidade: a meditação (concentração do pensamento). É meditando que o homem chega a esse espetacular fenômeno que é o arrependimento, o retorno do equilíbrio da polaridade. Ajudado pela prece, ou oração, ou reza, o homem se concentra e medita: produz energia corretiva. E o importante é que ao meditar ou ao concentrar-se o homem tem um "alvo", evitando que o pensamento disperso diminua sua capacidade de produzir energia mental. E Essa poderia ser uma das fontes que alimentam as almas sem corpo próprio, que alimentam um sem número de "manifestações" de entes "estranhos", porque desconhecidos, ou melhor, ainda não tornados conscientes pelo homem. Quanto mais pessoas se concentram no mesmo "alvo", mais energia receberá tal "alvo" e mais energia transmitirá convertida esta em "manifestações". É como a potência que se transforma em força e move máquinas e aparelhos. Ê de certa forma curioso que os espíritas usem essas mesmas expressões como "aparelho", manifestação, etc.

Dizíamos que quanto maior o número de pessoas que se "concentrem" em uma mente, esta receberá, proporcionalmente, a maior quantidade de energia e estará cada vez mais apta a manifestar--se consciente ou inconscientemente. Agora, a mente que recebe energia pode ter ou não sua própria fonte energética (um corpo). Ressalto um aspecto que é da maior importância: a energia transmitida por mentes portadoras de corpo físico pode ser positiva ou negativa, "boa" ou "má". O mesmo acontece com as transmissões energéticas do inconsciente. Mas o "recebedor" da energia, sendo uma mente com fonte própria, que recebe uma energia "adicional”, captará a energia seja ela positiva ou negativa, consciente ou inconsciente.

Já se o "recebedor" não tiver fonte própria (mentes sem corpo), o processo se diferencia: sendo a energia emitida a do pólo negativo do emitente, então o "captador" será negativo (mente "má") e o "emissor" em si mesmo negativo ("mau"). Sendo a energia irradiada a de pólo positivo o "captador" também será positivo (mente boa). Assim, a mente má do transmissor energizará mentes más captadoras e mente boa no emissor energizará mentes boas captadoras.

Note-se que o emissor de mente má ou de mente boa pode não ter nenhuma aparência de bom ou de mau e, ainda, uma pessoa aparentemente boa pode ser extremamente má em seu inconsciente e fará, portanto, transmissões más, energizando, consequentemente, “mentes más”. Veja-se que o captador pode ter ou não ter fonte própria de energia, isto é, pode ser vivo ou "morto", sempre no sentido do corpo físico. Quando uma ou mais pessoas se concentram em outra pessoa que tem corpo vivo, esta será, consciente ou inconscientemente o "captador" e, sem dúvida, pode absorver essa energia, seja ela positiva ou negativa e passará a agir na forma da energia absorvida: positiva ou negativamente.

A ação posterior do captador poderá ser dirigida a outras pessoas ou a si mesmo, à sua mente ou ao seu corpo. A ação é consciente ou inconsciente, imediata ou posterior no tempo. A energia recebida e retransmitida para o físico terá como consequência bem ou mal estar físico (saúde ou doença). Se retransmitidas para a mente consciente ou inconsciente a consequência será melhoria do estado mental ou enfermidade mental aparente ou não (por exemplo, neurose não aparente ou psicose aparente).

Nos casos de captação de energia negativa é muito comum observar pelo menos uma mudança no comportamento sem causa aparente, no caso da energia ser branda, progredindo desse ponto até as mais críticas condições físicas ou mentais para os casos de energia negativa forte. Em qualquer caso, o "captador" pode "abrandar" a energia negativa recebida se dispuser, em sua fonte própria, de energia positiva compensadora. São os casos de "autocura” e “autocontrole". A captação de energia positiva terá sempre como consequência a melhoria do estado físico ou mental, desde que tal energia positiva não seja prejudicada por emissões próprias ou externas de energia negativa.

Temos assim, que uma concentração suprema de energia em um só ser criará uma força suprema e um poder supremo. Sendo uma concentração de energia positiva, criará um Deus. Sendo negativa, um Diabo.

Somente Deus é o ser individualizado (Único), ou seja, o Ser completo, com compreensão completa do consciente e integração do inconsciente. É o Ser polarizado em harmonia e equilíbrio. E é o que o homem deveria buscar para si, já que foi feito à imagem e semelhança de Deus Criador.


OPOSTOS COMPLEMENTARES
E A IDEIA COMO CONJUNTO ASSOCIADO

Reconhecer e tornar consciente o mal são tão necessários quanto reconhecer e tornar consciente o bem. (É preciso aqui não interpretar bem e mal nos seus conceitos éticos e morais. São coisas completamente diferentes). Somente tornando conscientes os dois pólos e integrando neles o inconsciente, o homem se completará e será feliz. De outra maneira ele terá alegrias e tristezas e jamais a felicidade. Prós e contras, dia e noite, bem e mal, são necessariamente antagônicos, mas, é necessário se completarem para nascer o TODO. Assim como é absolutamente necessária a existência do dia e da noite para a existência do homem e da vida no planeta, assim é necessária a existência do bem e do mal, para juntos, completarem a vida. Eis porque Deus misturou o bem e o mal no mesmo fruto e não os fez em árvores (vida) separadas. E Deus também tinha seu antagonista: a serpente (o mal). Assim, Deus possui em Si o bem e o mal, que são compensatórios ou não poderia haver normalidade e totalidade.

Aqui chegamos a um ponto fundamental: se os opostos são complementares e necessários ou indispensáveis à totalidade, a vida precisa da morte? Ou é a morte que precisa da vida? Ou, ainda, o antagonista da vida é outra coisa que não a morte? Como podem coexistir a vida e a morte para se completarem ou completar o que? Finalmente, o que existe é a morte, e a vida è seu complemento ou vice-versa? Tais indagações suscitam pensamentos dos mais profundos. Nada há de disparate nessas proposições, já que nada existe completamente com um só de seus elementos. Até na mente humana nenhuma idéia ou conceito é isolado em si mesmo. É impossível pensar individualmente em qualquer coisa, mesmo em um simples objeto. Todas as ideias são símbolos plurais ou "conjunto" de coisas e ideias. Se, por exemplo, pensamos em um lápis, sempre nos ocorrerá, juntamente com o símbolo do lápis, outros símbolos ou ideias referidas ao objeto lápis ao qual só chegamos por comparação ou por associação. Á própria memória usa como processo mnemônico a comparação ou a associação. Toda memória é "conjunto associativo”. Assim só sabemos que algo é frio se compararmos, associarmos a sensação de frio com outra coisa qualquer como, por exemplo, "é frio como gelo".

É indispensável também para a compreensão completa a idéia do oposto: só sabemos que algo é frio se soubermos o que é quente. Só sabemos que algo é bonito se soubermos o que é feio. Só saberemos o que é bom se soubermos o que é mau. Neste último exemplo não nos referimos aos conceitos éticos e morais de bem e mal. É indispensável excluir esses conceitos para a real compreensão.

Voltando à ideia do objeto lápis, seu símbolo em nossa mente é parte de um "conjunto de símbolos associados" (papel, apontador, parede riscada, escola, enfim, a ideia lápis está associada necessariamente a outras ideias) a que nos foi necessário recorrer para "memorizar" o objeto lápis. É esse o processo que utilizamos para impressionar nossa mente. Para memorizar uma ideia desconhecida é necessário associá-la a ideias conhecidas.

Se de objetos passarmos a coisas não materiais ou subjetivas gravadas em nossa mente e se analisarmos tais ideias associativas veremos porque gostamos, porque não gostamos, a razão das sensações agradáveis ou desagradáveis que sentimos ao "lembrar" de algo e ainda porque uma lembrança tão comum como a de um lápis pode ser agradável a uns e extremamente desagradável a outros. O estudo e análise das associações mnemônicas nos levam à fonte das neuroses, nunca das psicoses que têm bases e origens muito diferentes, ainda que possam provir da mesma forma de associação. Então é fundamental que tornemos consciente o maior número de ideias associativas para mantermos o equilíbrio mental. 

Voltamos à polarização, à participação do inconsciente em nossos atos conscientes, voltamos à necessidade de juntar bem e mal para nos realizar na totalidade. As idéias associadas para representar uma só coisa podem ter a participação do consciente e do inconsciente na formação dos símbolos mnemônicos ou da associação de ideias e símbolos. Claro está que a participação do inconsciente se fará "à sua maneira", ou seja, através de símbolos não necessariamente reconhecíveis pelo consciente. É quando recordamos algo que nos traz sensações boas e más ao mesmo tempo ou nos traz um sentimento de insegurança, ou incerteza para classificar a sensação em boa ou má. Ê o conflito que se apresenta e que deve ser resolvido, se possível, imediatamente, o que rarissimamente acontece. A tendência é afastar a ideia sem analisá-la e sem concluir se ela é boa ou má, mantendo o conflito latente. É muito mais fácil "convencer" o consciente sobre o bom e o mau, do que convencer o inconsciente. É porque o inconsciente tem raízes muito mais profundas para formação de seus símbolos, enquanto o consciente é "volúvel" ou considera interesses (não discutir para não criar inimizade, esse assunto Incomoda, é melhor concordar com a maioria, ou não entendo bem disso, etc.) considera interesses imediatistas de bem-estar físico ou mental aparente e necessariamente transitório.

O conflito não resolvido virá à tona, não se sabe com que consequências, à menor oportunidade, podendo então variar de "fator gerador", isto é, se o conflito se deu por um dos componentes da ideia associada, ele pode retornar gerado por outro "fator gerador" que também é componente da ideia em seu todo. É um eterno sentimento de insatisfação, ou de desconforto, pelo menos, porque no "conjunto" de ideias ou de símbolos que usamos para memorizar uma coisa ou um pensamento coexistem símbolos de coisas boas e símbolos ou ideias de coisas más, ainda que, possivelmente, elas ainda não estejam "misturadas" (equilibradas), pois umas podem estar na memória consciente e outras na inconsciente. Estarão no consciente quando refutamos ou aceitamos seguramente a nova ideia ou sensação. Estarão no inconsciente quando não sabemos definir. Estarão em ambos divididos, quando ficamos na dúvida se "memorizamos" ou não e em qual qualidade, se boa ou má, a nova ideia deve ser classificada.

Nesse ponto devemos ponderar que é praticamente impossível ao homem deduzir, induzir ou concluir corretamente, com base em seu raciocínio normal, ou nas suas impressões sensoriais. Elas são sempre aparentes e deformadas pela dimensão do homem e da coisa ou ideia apresentada. A posição cósmica do homem desvirtua suas observações já que suas conclusões são, na verdade, relativas ao seu estado físico, mental e da qualidade da sua sensibilidade. O que parece certo poderá estar absolutamente errado e vice-versa, Se eu vejo outro homem, digo que vi um homem e digo que sei o que ele é. Mas somente posso ter visto o que A MIM parece ser um homem na forma de ideias associadas de que disponho para definir um homem. Jamais a minha ideia de homem poderá ser igual à sua ou à de um terceiro. As ideias finais, (conclusões) são absolutamente individuais.

Chegamos então ao conceito de vida e de morte. O que cada um significa? Não podemos afirmar que não há vida sem morte nem tampouco que não há morte sem vida. Este último conceito (não pode haver morte sem ter havido vida) parece o mais lógico do ponto de vista tridimensional do homem. E por que seria falsa a conclusão de que não poderia haver vida sem haver morte? A questão é de pura deformação da lógica do homem. Como parece lógico que não poderá haver morte sem vida, é também absolutamente lógico concluir que não poderá haver vida sem morte, se considerarmos que vida e morte são COMPLEMENTARES e os conceitos são precipitadamente considerados da forma como em nossa cultura se conceituam vida e morte. Na nossa cultura significando "na cultura de cada um que queira definir vida e morte".

Considerando que nossas impressões sensoriais e nossas ideias são sempre deformadas e aparentes, concluímos que a verdade não é perceptível ao homem-consciência, que tem a dimensão limitada e por isso comete sempre o mesmo erro de apreciação. Entretanto, parece que o inconsciente tem acesso a outras dimensões. Então o conjunto consciente-inconsciente é a única maneira disponível para o homem aproximar-se da verdade ou da realidade do que vê, ouve ou sente. Podemos então formular que é possível haver morte sem vida: só depende de conceituação. E o que é complementar da outra? A morte é complemento da vida ou vice-versa?

Normalmente não há "complementos uns dos outros". Ser complementar significa participar do todo, não quer dizer ser acessório. Se assim é, somente a vida poderá ser um complemento presente ou ausente, sendo a morte a base para a vida. Assim, não poderá haver vida sem ter havido morte. O complemento dispensável temporariamente, ou o complemento que entra para perfazer o todo, para completar a base (morte) é a vida. E tanto assim é que A VIDA É TRANSITÓRIA enquanto a morte É ETERNA. A vida é alterável e adaptável enquanto a morte é imutável. A vida é destrutível enquanto a morte não o é. Ora, se podemos destruir ou extinguir uma vida, mas não podemos modificar, destruir ou extinguir a morte, então a morte sim é indestrutível e eterna. Não há segunda hipótese pensável. Desta forma é equivocado o conceito de que a alma se "incorpora" ao corpo. Somente pode haver incorporação do corpo à alma e até a própria palavra INCORPORAR diz isso.

Ficam assim nossas indagações iniciais respondidas: somente haverá vida se houver morte. A vida é necessária à morte para que possa dar-se o processo de incorporação. A vida é o corpo que se "junta" à alma e NÃ0 PODE HAVER INCORPORAÇÃO DE ESPÍRITOS, ou seja, que um espírito TOME um corpo já que é o CORPO QUE TOMA O ESPIRITO. Não é resposta qualquer solução diferente, por não ter nenhuma base "natural", ou seja, na DIMENSÃO DA NATUREZA. Pode "parecer" ao homem deformado no cosmo que outra coisa se passe, mas, nada Indica outra possível conclusão.

E para que um corpo se incorpora à alma? Vida e morte são diferentes ESTADOS da mesma coisa: a morte.

Vida é desenvolvimento e aperfeiçoamento da forma e do espírito. A vida ou o "sistema vida" cessa ao cessar o desenvolvimento e o aperfeiçoamento. E não há opção ou terceiro termo: ou há desenvolvimento ou se instala a decadência e advém a morte. Assim o corpo pode "morrer" antes da alma, mas a alma também pode "morrer" antes do corpo. O desenvolvimento tanto do corpo como da alma pode prosseguir tranquilamente após a "morte" de um deles, ou seja, o corpo pode prosseguir seu desenvolvimento após a "morte" da alma, assim como a alma pode prosseguir seu desenvolvimento após a morte do corpo e continuar, assim, viva. Basta conseguir outra "fonte de energia". Já o corpo não precisa outra "fonte de energia" após a morte da alma, pois dispõe de "autoenergização". (São várias as maneiras que o homem busca para os desenvolvimentos: estudos, passeios, crimes).

Antes de abordar essa questão devemos considerar o seguinte; se tudo na natureza VIVA é ENERGIA ou, quando menos, depende de energia, e ainda, se a base da vida for a morte, qual é a energia da morte? Inicialmente devemos precisar os conceitos de vida e de morte. Morrer é acabar? Se for acabar, o que acaba? Acaba tudo ou uma das formas de vida? Ou das formas de morte? Morrer é não dispor mais de energia?

Vimos e falamos sobre a necessária interdependência de tudo o que existe no Universo. Nada existe sozinho. Há então existências complexas, que são aquelas que dependem ou se integram com vários fatores de vida além do seu oposto e há os chamados, "organismos simples", como o homem qualifica, por exemplo, a bactéria, sendo um "organismo complexo", por exemplo, o corpo humano ou mesmo a cadeia de ADN.

Então temos que a vida além de energia é também, necessariamente, um "conjunto" (sistema) de fatores de vida. Ao dizer VIDA nos referimos a esse conjunto e não a uma só coisa. Os fatores de vida são interdependentes, não podendo existir sem os outros. A falta ou "mau funcionamento" de um dos fatores causará um distúrbio mais ou menos grave (desde um mal estar até uma doença) chegando até à paralisação neurológica do sistema. Para o coração do homem e ele "morre". Terminou a fonte geradora de energia.

Assim, vida é o trabalho sistemático do conjunto que a integra, permanentemente alimentado por uma fonte de energia, compondo um "sistema de vida". Vida é desenvolvimento e cessa se ele cessar. Não há opção ou meio termo: ou desenvolvimento ou a decadência e a morte.

Quanto à morte, dissemos que ela é eterna. Seria? Chegamos então à pergunta já feita: por que o corpo se incorpora (dá forma) à alma? A morte somente será eterna enquanto energizada por outra "fonte" que não seja o corpo físico (lembro aqui a Vinicius de Morais: "que não seja eterno posto que é chama (energia ), mas que seja infinito enquanto dure"). E assim é a morte. É eterna enquanto chama e é infinita enquanto dura. Para ser eterna precisa do corpo e é tão infinita quanto a vida. Assim vida e morte são exatamente a mesma coisa: o oposto de uma coisa é a própria coisa. Aliás, isso de dar vários nomes à mesma coisa é muito próprio do homem na sua infinita ignorância e sentidos distorcidos e do seu hábito de "julgar e concluir pela aparência”, sistematicamente equivocada.

Toda a controvérsia dos homens sobre a vida e a morte, assim como todo e qualquer assunto, resulta tão somente de seu erro de apreciação. Ora, é impossível que um veja, ouça, sinta da mesma forma que outro. O que há é nada mais nada menos que um "código" comum para os homens pensar que se entendem: a linguagem. Assim, todos chamam "ver" de ver, mas cada um vê, necessariamente, coisas diferentes. Mas eles dizem que é a mesma coisa. Quando digo "aquela parede", você olha e confirma que "viu" "aquela parede". Mas, é simplesmente impossível que tenha visto essa parede da mesma forma que eu vi. A única coisa comum é a palavra parede. Agora, já dissemos que não existe "uma" ideia, mas que para memorizarmos, inclusive uma palavra, usamos um "conjunto" de ideias associadas e avaliadas pelo consciente e pelo inconsciente. Jamais esse conjunto e ainda mais, a sensação que ele causa, pode ser igual em duas ou mais pessoas. Muitíssimo menos o "sentir". Dessas condições díspares provém, muito provavelmente, e entre outras razões, o famoso "NÃO CONCORDO". Não concordar é simplesmente NÃO SENTIR DA MESMA MANEIRA, ou porque não quer, ou por impedimento psicológico. E esse sentir está sujeito aos símbolos, imagens e avaliação que cada um da a cada coisa, distorcendo cada imagem a seu bel-prazer ou às suas necessidades psicológicas, tudo dentro dos seus valores éticos e morais, dependentes da sua cultura, quando as coisas EM SÍ MESMAS não devem ser avaliadas pelos conceitos éticos e morais de quem vê, ouve, fala ou sente. È tão impossível ter impressão sensorial igual à de outro quanto é impossível que duas ou mais pessoas tenham a mesma impressão digital.

E quanto às sensações ou impressões extrassensoriais? E o que não vem por um dos cinco sentidos físicos, mas de outro sentido que chamamos extrassensorial? Tratamos agora de funções conscientes e de funções inconscientes. Se até aqui demonstramos a impossibilidade de duas pessoas terem impressões sensoriais idênticas, a possibilidade de duas pessoas terem impressões extrassensoriais iguais é o superlativo do impossível. Então as "sensações" telepáticas, telecinéticas, premonitórias, psicográficas, etc. não podem ser iguais e, não podendo ser iguais, não podem ser a mesma coisa, ou seja, o que duas ou mais pessoas chamam de "premonição", por exemplo, é diferente para cada um. Apenas a palavra ou O SENTIDO QUE CADA UM QUER DAR ou QUER QUE PAREÇA podem ser "parecidos". O sentido que cada um dá às sensações extrassensoriais é uma resultante de seu estado psicológico, de suas eficiências e deficiências mentais, de suas neuroses e, enfim, de seus "valores psicológicos", conteúdos do consciente, do inconsciente e da alma. É, portanto, necessariamente, absolutamente individual. E nem poderia ser de outra forma. Quando uma pessoa tem visões ou "vê espíritos", SÓ ELA OS VÊ. Ora, podemos "ver" tudo o que quisermos, exista ou não fisicamente "a coisa". Ver um espírito é uma reversão do processo visual comum para projetar o QUE QUEREMOS VER. Não é nada mais que UMA PROJEÇÃO do desejo consciente ou inconsciente. Perto das pessoas que apreciamos (que nos conforta psicologicamente) vemos um anjo. Perto das que não nos confortam vemos figuras estranhas. Tenha-se em conta que confortar e não confortar não é o que aquele que sente acha que é conscientemente.

Quem sempre e repetidamente diz que não precisa de algo está, sem a menor dúvida, precisando muito desse algo. Todos "vêem" de olhos fechados. O chamado "sensitivo" "vê" de olhos abertos o que somente ele mesmo projeta e "vê" essa projeção, pela reversão do processo biológico da visão comum. Quase todos os que sofrem de distúrbios mentais "vêem" e “sentem" coisas que os mais equilibrados não vêem nem sentem. É a coisa mais comum de observar-se nos hospitais psiquiátricos. Mais uma prova de que ninguém pode ver, ouvir, sentir, ou entender do mesmo modo de outra pessoa. Como já dissemos, se excluirmos a palavra (que é "código" do homem e é a única "mesma coisa"), a concepção de cada indivíduo é somente dele e de ninguém mais e está condicionada aos valores psicológicos desse mesmo indivíduo (valores conscientes e inconscientes). Como o conceito de bom e mau, verdade e mentira, corpo e alma, tudo no homem é individual e exclusivo. Não pode haver duas pessoas iguais, ou duas sensações iguais, ou dois sentimentos iguais. Os "conjuntos" que conformam a ideia são os responsáveis por tal disparidade. Mesmo que o objeto central seja o mesmo (não igual) o conjunto que forma a ideia, ou seja, o símbolo mnemônico é totalmente diverso em cada ser humano, como em tudo na natureza. Parece que a natureza não se repete, desaparecendo assim qualquer conceito de coletivo, exceto a "consciência coletiva”: a herança psicológica das gerações e a hereditariedade psicológica.

Alma é alma, corpo é corpo e ambos absolutamente individuais. Não é possível nem mesmo imaginável que duas pessoas tenham o mesmo corpo, idênticos em forma, aparência e funções orgânicas.

Cabe aqui uma rápida referencia a forma do corpo. Ora, cada forma tem sua função no espaço. Ou a forma se adapta à função, é “modelada" por ela, ou a função é limitada pela forma. Então cada indivíduo com sua forma, assim como toda e qualquer forma que exista no universo tem sua função, sua atividade, seu comportamento limitado ou "modelado" pela sua forma. Temos assim, que a forma da alma não pode ser a forma do corpo, pois as funções são diferentes e adaptadas. Apresentar ou representar, portanto, um espírito com a forma física do corpo é pura imaginação (ou falta dela) e estrito condicionamento do homem. A única maneira possível para um espírito "ver", "ouvir", etc. é através de um corpo, como o faz nosso inconsciente. Então a alma "residiria" no inconsciente, isto porque ver, ouvir, etc. É FUNÇÃO DO CORPO EM SUA FORMA e já vimos que a alma não pode ter a mesma forma do corpo.

Mas a alma se manifesta através do corpo, jorrando seu conteúdo no consciente ou, se o consciente se recusa a receber o conteúdo adaptado, adaptando-o à forma do corpo para permitir sua manifestação, tomando conta do consciente para conseguir sua finalidade. Ê o caso da neurose personificada (dupla personalidade) ou da loucura.


A VOCAÇÃO

Uma das maneiras interessantes e "pacificas" da manifestação do inconsciente é a chamada vocação. Há hereditariedade psicológica? As observações de Freud e Jung, entre outros, conduzem a uma resposta afirmativa a essa questão.

Como dissemos, alma é alma e corpo é corpo. Eles se "juntam", se complementam para formar o todo, mas continuam independentes na sua "missão" e, necessariamente, na sua maneira de manifestar-se. O corpo toma uma alma para poder nascer uma vida ativa e compreensível para o homem, já que a forma tomada pelo conjunto corpo e alma é tridimensional, dimensão que o homem tem. A alma não pode tomar a forma de um corpo, incorporar-se, pois isso seria transmutação e a alma deixaria de ser alma, para ser outra coisa qualquer. Além do que, a dimensão da alma é diferente da dimensão do corpo e esse corpo não comportaria a alma ou suas funções não poderiam cumprir-se já que cada forma tem sua função ("missão").

Por outro lado parece haver uma "alma comum" em alguns aspectos entre os membros de uma mesma família. Claro está que muito do psicologicamente comum se encontra em que uma família sofre grande número de impressões, traumas e alegrias coletivamente. O “ambiente" familiar afeta sem dúvida, cada um dos seus membros. Mas é importante observar que cada um pode ser afetado de uma maneira inteiramente diferente, segundo sua própria individualidade. Entretanto a impressão captada pelo consciente ou pelo inconsciente leva a uma mesma manifestação posterior ou futura. Muitas vezes uma experiência vivida por um indivíduo na sua infância ou adolescência desperta desejos que são reprimidos por não serem realizáveis naquelas circunstâncias ou naquele momento. Claro que a repressão pode conduzir a uma série de manifestações posteriores agradáveis ou desagradáveis. É como a recordação. Temos recordações agradáveis e desagradáveis. Mas as recordações são conscientes e muito frequentemente "distorcidas" por quem recorda. Se a recordação é agradável, a tendência é fantasiá-la de acordo com nossos anseios não realizados. São as recordações falsas. Sendo desagradável, o indivíduo rejeitará sua lembrança decidindo conscientemente não recordar ou tendo crises de dismnéia ou amnésia. Quando por fim é forçado a recordar, transforma a recordação desagradável em uma fantasia que o satisfaz e às vezes o convence, perigosamente, de que o ocorrido não foi o que foi, mas o que sua fantasia produziu. De qualquer modo a impressão foi registrada e ressurgirá em uma forma ou em outra, sendo uma dessas formas a "vocação".

Por exemplo, a vocação de toda sociedade de homens é a liberdade e a desordem natural. Observe-se que aquilo que é desordem para o homem é ordem para a natureza.

Temos então, que a "vocação" é a manifestação de um afeto reprimido, mas de recordação agradável, isto por um lado. Por outro lado temos a manifestação da vocação também resultante de conflitos não solucionados. É indiscutível que a "vocação" está presente em cada um e somente aguarda o momento ou a oportunidade de se manifestar. É o momento dessa manifestação quando, sem qualquer estímulo exterior, a pessoa "sente que tem jeito para tal coisa". Muitas vezes nem ela mesma percebe essa "habilidade natural". Sua atenção é despertada por outras pessoas para o fato dela sempre se sair bem em determinado assunto ou tarefa, às vezes sem nunca ter aprendido ou estudado tal assunto. É a vocação inconsciente. Cada um de nós tem sempre algo que faz melhor ou "com mais facilidade e espontaneidade". Aqui é a vocação natural. Essa vocação natural é a manifestação de impressões tidas no passado e que foram "agradáveis" e despertaram "curiosidade". Não é possível ter vocação para algo que "NÃO SE SABE".

Talvez não se saiba conscientemente, mas a própria naturalidade com que a vocação se manifesta prova que o "algo" foi devidamente "trabalhado" pela pessoa, consciente ou inconscientemente como fruto de sucessos psicológicos de impressões agradáveis recebidas ou vividas. Todo sentimento ou desejo sentido tem de se manifestar mais cedo ou mais tarde. O problema seria descobrir que sentimento ou que desejo se manifesta e analisar a forma de sua manifestação. Desejo e sentimento parecem não ter nenhuma relação com determinada manifestação consciente ou inconsciente. Por exemplo, o desejo ou a necessidade de escrever, uma vez reprimidos, podem se manifestar em forma de afonia, Ora, uma pessoa afônica tem de escrever para que os outros a entendam. Isso é uma forma de "forçar" a manifestação do desejo oculto. O ódio muitas vezes é manifestação de amor. Assim, também, a "vocação" é manifestação de um desejo ou de um sentimento ainda não realizado e a forma que a pessoa encontra para realizá-lo. Observe-se que o sentimento ou desejo pode não ser uma coisa "boa". Vingança também é um desejo embora condenado à classificação de "mau" pelos códigos de ética e de moral.

Claro está que as manifestações de sentimentos e de desejos reprimidos têm caráter neurótico, ou melhor, podem ter tal caráter já que tais sentimentos e desejos não são conscientes nem se revelam na manifestação. Pelo contrário, é às vezes realmente difícil deduzir um desejo por uma manifestação. E necessário que se faça uma análise muito cuidadosa e muito aguda e, sempre que possível, ser auxiliado pelos sonhos da pessoa. O uso de terminados termos durante uma narração, as formas de expressão verbal e corpórea usadas pela pessoa é que invariavelmente revelam o sentimento reprimido e a possível causa da neurose tanto quanto a da "vocação".

É importante observar que as manifestações ocorrem enquanto o desejo não é realizado. E tais manifestações, para aumentar a dificuldade de sua identificação, são MUTÁVEIS. Assim, um mesmo sentimento reprimido se manifesta em formas diversas durante a vida do neurótico, segundo sua evolução física e mental, seus hábitos e costumes, seus padrões éticos e morais,

A manifestação em uma criança não será a mesma que a manifestação quando adolescente, nem a mesma quando já adulto. Isso sem dizer que efetivamente a manifestação não possa permanecer a mesma, modificando-se apenas detalhes e nuances: é possível e, nesse caso, de mais fácil identificação pela sua iteração através do tempo. Ê então muito importante perceber se uma "vocação" não é simplesmente a tentativa de eternizar uma manifestação neurótica, personificando-a. É falso pensar que as manifestações do inconsciente e da alma sejam sempre desagradáveis ao manifestante. Pode, quando muito, incomodar do ponto de vista social, ou ético, ou moral mas, SEMPRE CAUSARÁ PRAZER AO MANIFESTANTE ainda que ele desminta e negue tal prazer. Até um assassino vocacional tem prazer em matar já que a pretensa "realização" do desejo reprimido (por exemplo, vingança) o alivia momentaneamente e lhe pode trazer uma "tranqüilidade como há muito não sentia". Mas a insatisfação retorna, muitas vezes em manifestações completamente diferentes. Nunca a manifestação é autorreveladora do desejo reprimido. Muitas vezes é seu contrário.

É preciso, então, muita perspicácia e atenção para perceber o que quer "dizer" aquela manifestação. Quando um neurótico diz ou sonha, por exemplo, que uma pessoa é de "má índole", ele quer dizer que ela mesma se acha de "má índole" por algo que fez. É o sentimento de culpa nem sempre bem fundado ou não seria neurótico. Outras vezes é a expressão "fulano é muito bom" significando "eu sou muito má" ou "fulano sabe muito" o que quer dizer "eu me acho ignorante e sinto desconforto com isso". Essa última expressão é muitíssimo comum nos complexos de inferioridade. Não se deve confundir tais comportamentos com outros similares, mas decorrentes de outros fatores, como, por exemplo, a pessoa que ouve outra falar chinês sem ser chinês e exclama: "Ele fala chinês muito bem". E quando perguntamos: Você entende chinês? A resposta é não! Ora, se ela não entende chinês como pode dizer que o outro fala muito bem? E isso acontece com idiomas muitos mais próximos como o espanhol para o português, o inglês que todo mundo acha que sabe e entende.

O fato a constatar e diferenciar é a manifestação neurótica da manifestação ignorante ou "para sentir-se importante" o que não deixa de ser outra forma de manifestação neurótica, dependendo, obviamente, de cada caso. Vemos assim que a "vocação" 'de algumas pessoas inclusive para, com muita facilidade, aprender um idioma, decorre de um processo neurótico. Pode parecer ao leitor, e realmente o é, absurdo pensar que digo que toda e qualquer "vocação" é manifestação neurótica. Não. Mas sempre será sentimento reprimido buscando sua forma de manifestação. Pode mesmo ser um "bom" sentimento. Mas em qualquer caso a "vocação" É UMA NECESSIDADE PSICOLÓGICA DE REALIZAÇÃO, e quando realizada é muito satisfatória para o manifestante. É a prova do componente neurótico. O prazer decorrente da realização de uma "vocação" se equipara, "mutatis mutandi”, ao orgasmo da satisfação sexual. Muitas vezes é aí mesmo, no desejo sexual insatisfeito, a origem da "vocação". É então preciso perceber o simbolismo apresentado para "representar" o desejo escondido, reprimido e muito provavelmente inconsciente, principalmente se a pessoa já demonstra sintomas neuróticos em outros comportamentos.

Todos os desejos e sentimentos fortes, conscientes ou inconscientes, procuram sua realização. Ou são realizados, ou são transformados pela libido, ou são "esquecidos" (reprimidos). A consequência ou o preço da não realização são as manifestações imprevisíveis. E a manifestação do desejo não realizado se faz sempre pelo ponto mais fraco da pessoa, provindo uma histeria, se o ponto mais fraco for físico e uma neurose de outro tipo se o ponto mais fraco for mental. Por exemplo, uma pessoa com problemas somáticos não ainda manifestados no sistema nervoso, fatalmente descambará para uma histeria: a paralisia. Outra que tenha problemas no aparelho digestivo terá sua histeria dirigida a fortes dores de estômago ou transtornos hepáticos. A mais comum forma de manifestação histérica e a mais simples por problemas ou conflitos não muito severos é a dor de cabeça. Quem não tem "dor de cabeça" quando tem um problema que não pode ou que não quer resolver? Sempre o sintoma dor é o mais presente nas histerias (cabe aqui um parênteses para citar que algumas pessoas e alguns médicos chamam a histeria de "neurose de conversão". Isso não existe, A neurose não se "converte" em nada nem "converge" para parte alguma. Uma neurose SE MANIFESTA de algum modo). O que ocorre é que a manifestação da neurose feita pelo "ponto mais fraco" da pessoa pode perfeitamente converter um pequeno distúrbio estomacal em uma ulcera real e que deve ser tratada por um especialista e não por um psiquiatra.

A função do psiquiatra é o tratamento DA NEUROSE para que não se repita a manifestação, mas a úlcera é problema do gastroenterologista. Então NÃO HÁ FINGIMENTO quando um neurótico reclama de problemas orgânicos. ELES EXISTEM ou podem realmente existir, pois esse neurótico já tinha predisposições àquela enfermidade. Se já há uma doença manifesta e juntamente aparece uma manifestação de conflitos e desejos reprimidos, a DOENÇA, sem dúvida, SE AGRAVARÁ.

Parece que tudo isso não tem nada a ver com a "vocação" de que falávamos. Mas realmente tem. A persistência de qualquer desses sintomas neuróticos pode efetivamente despertar uma "vocação”, sendo esta, uma tentativa própria e espontânea para solucionar o conflito. É uma "ajuda" muito oportuna e muito bem-vinda do inconsciente. A aceitação consciente dessa “ajuda” não resolve o conflito, mas traz a “sublimação” que é uma forma de “aquietar" o inconsciente e converter o problema psicológico em prazer, em "descarga" e até em lucro-pecuniário, resultando assim em fornecer ao doente mais e mais recursos para "esconder" seus problemas, ou vertê-los em símbolos só compreensíveis pelo próprio neurótico. É o caso da manifestação pelas artes.

Mas, a conclusão de todos e do próprio neurótico é simples e convenientemente dada como realização de uma "vocação". É, pois, necessário investigar muito bem as "vocações" assim surgidas. E podem surgir até em tenra idade, quando chamam à neurose "menino prodígio" ou outros tipos de chamadas "manifestações" do outro mundo ou até o incrível título de "já nasceu com isso". Ora, tal coisa simplesmente não existe.

Em casos totalmente diversos dos aqui expostos parece haver uma "hereditariedade psicológica". Filhos que pensam como os pais, netos que seguem a profissão do avô falecido e sobrinhos que "se parecem com o tio", nas suas "vocações", essas parecenças, ou identidades com parentes mais idosos só pode ser resultante de conflitos, de desejos reprimidos e de uma maneira indireta de conseguir afeto. Ora, minha mãe gosta muito de minha tia. Se eu for como a minha tia vou ganhar elogios (carinhos) da minha mãe. E aí se forma a "falsa personalidade" com consequências imprevisíveis. A vocação pode ser, então, também uma "falsa personalidade", que agrada e satisfaz muito àquele que "sente" a "vocação" O outro lado é a personificação através da vocação. Essa personalidade não é "falsa".

Não há casos narrados e comprovados de "hereditariedade psicológica". A semelhança de comportamento de membros de uma mesma família são resultados do "ambiente comum" em que vivem. E nem precisa ser família. Todos somos resultado do nosso ambiente, seja ele qual for, pois é esse "ambiente" que nos ensina a maneira de nos manifestar. É sempre importante “estar de bem" com o ambiente para merecer afetos psicológicos,

O outro extremo é o rebelde que faz prevalecer sua própria personalidade seja ela neurótica ou não. Um REBELDE SEMPRE TEVE OUTRO REBELDE NO AMBIENTE OU UM REBELDE DE QUE OUVIU FALAR "Tomou-se seu herói" e ele vai imitá-lo. É outra “vocação”? O que é mais provável é que a conformação psicológica dos membros de uma mesma família, em maior escala, assim como acontece com os membros de uma mesma sociedade, em menor escala, tem ou pode ter os mesmos incentivos de excitação e produção de imagens que impressionam de modo semelhante a todos. Claro está que a impressão retida por cada um ou os "símbolos", gravados e compostos por cada membro, serão diferentes já que tais símbolos são absolutamente individuais. Entretanto, o "significado" será o mesmo sem que isso queira dizer que as impressões retidas serão da mesma sensação para todos. Para uns serão sensações agradáveis, para outros desagradáveis, para terceiros indiferentes. Mas, as reações futuras terão a mesma "base" para todos. No caso de uma família, o que poderíamos chamar de "hereditariedade psicológica" está em dois pontos principais: disfunção biológica hereditária (p.ex. passado luético de um dos pais - irregularidade genética) ou "vício ambiental" (V. Freud pg. 140).

De tanto ouvir falar no avô a criança pode acabar querendo ser como o avô. Verificamos que, à falta de "heróis" familiares, a criança, e mais o adolescente, "adota um herói" para imitar e comportar-se como ele, É tipicamente o caso de imitação de artistas que impressionaram o adolescente. (não só o adolescente. essa tendência é observável em muitos adultos de qualquer idade). Sendo, porém, o "herói" um familiar, será esse o imitado. Ora, não há hereditariedade nenhuma no fato de um filho ser médico porque o pai ou o avô "transmitiu" essa "vocação". Tal raciocínio alcança as raias do absurdo. Tudo o que pode haver em hereditariedade psicológica são os casos de demência. Parecem ser transmissíveis. Não sendo o caso, o que devemos fazer é tornar consciente a enorme importância que representa o "ambiente" para o desenvolvimento psicológico normal e satisfatório da criança. Mesmo para o "adulto”, o ambiente é da maior importância. Um ambiente X pode e vai provocar manifestações inconscientes (neuroses) em qualquer pessoa que já possua a neurose latente, mas controlada. Pelo ambiente chegamos até as manifestações "paranormais" de telecinesia, como quebra de espelhos, caída de quadros, visões, e todos os fantasmas juntos.

Ê, pois, da maior importância o ambiente a que se expõe uma pessoa, principalmente em se tratando de uma criança. A criança, como muitas vezes um adulto, não fixa palavras (código do homem), mas "sente" o ambiente, a expressão de quem fala e gera símbolos que vão impressionar sua mente em forma de coisa "boa" ou de coisa "má", de "coisa agradável" ou de "coisa desagradável". Se o símbolo gerado no inconsciente for "sentido" de forma diferente pelo consciente cria-se aí o germe de um conflito, de uma neurose, que se não resolvido no momento ou no futuro, provocará manifestações, possivelmente estranhas, sempre que esse "ambiente" as repetir por associação do indivíduo. As sensações contraditórias voltarão a ser sentidas e poderão fazer "explodir" a neurose. Entretanto, essas sensações, esses conflitos, se reprimidos, podem ser "sublimados" em forma de "vocação". Por exemplo, se uma criança vê alguém dirigir um automóvel e tem a sensação agradável, despertará o desejo de também dirigir o automóvel. Esse desejo uma vez reprimido aumentará toda vez que volte a ver alguém dirigindo ou toda vez que pensar em automóvel. O desejo atingirá tal ponto que a pessoa "sente que sabe" dirigir e, se tomar um volante é muito provável que saia dirigindo quase que satisfatoriamente. O que dirão os que a vêm? Que ela tem "dom para a coisa" ou, com outras palavras, "tem vocação" para motorista. Ora, esse dom não é mais que um forte desejo provocado por um "ambiente" e reprimido pela pessoa.

A sensação reprimida pode ser como vimos, "coisa boa" ou "coisa má". Esse é um julgamento instintivo se a sensação é sentida pela primeira vez e será intuitivo se já puder ser associado a sensações anteriores já "classificadas" pelo indivíduo. Neste "julgamento" participam os "valores psicológicos", os efeitos somáticos que a sensação pode provocar do ponto de vista biológico. Algo que "machuca", fere ou provoca dor física é, do ponto de vista biológico, algo "mau". De tudo isso se pode compreender a atenção que o homem deveria ter quando fala. No caso do ouvinte ser uma criança ela "sentirá" mais do que ouvirá ou entenderá as palavras. E o mesmo com um adulto, dependendo de sua instrução e estado psicológico no momento em que "ouve", ou dos sucessos anteriores vividos, que poderão ser associados às palavras ouvidas.

Vimos o papel das palavras e do ambiente na formação de símbolos inconscientes, na formação de "conjuntos de idéias" para memorização e posterior associação. O papel de uma palavra ou de um conjunto delas que formem uma idéia, uma opinião ou expressem uma determinação de comportamento, é o mesmo papel do ambiente para a formação da "hereditariedade psicológica". É a repetição diária de palavras, gestos, expressões, opiniões, música, e tudo mais que alguém possa "sentir" no ambiente, que forma a "hereditariedade psicológica", ou melhor, a semelhança de comportamento, repetição de profissões e até, de certo ponto de vista, a "semelhança" física (não confundir aqui a parecença física por hereditariedade biológica), enquanto os fortes desejos reprimidos vão formar o "dom". Os símbolos, impressões, sensações, ideias (conjuntos) e principalmente os sentimentos (valores psicológicos) captados ou formados pelo inconsciente passam a integrar sua própria estrutura, por ser da mesma espécie, inclusive em seu oposto (complemento indispensável).

Uma vez impressas, qualquer "provocação" a esses símbolos mnemônicos fará desencadear "processos de defesa” conscientes ou inconscientes, sendo conscientes quando este conflita com o inconsciente e inconsciente quando este conflita com o consciente. Principalmente o inconsciente, mas também o consciente luta com todas as armas contra qualquer tentativa de ruptura de sua integridade, ou seja, contra qualquer tentativa de “quebra" de suas imagens ou de sua desclassificação (de "bom" para "mau" e vice versa). Auxiliares dessa "defesa" são o instinto, a intuição, "o pressentimento”, a premonição, os sonhos e outras manifestações, até a histeria. As manifestações do inconsciente não são simples "avisos" ou "reprimendas", mas tem objetivos claros: preservar a integridade psicológica ou restabelecer seu equilíbrio (função dos opostos) por processos compensatórios. Note-se que esses processos são, muitas vezes, impessoais e intemporais são processos da "alma".

Vimos a "hereditariedade psicológica". Outra coisa é a "herança psicológica" recebida por toda a espécie humana, mas tendo a prática de sua "posse" variações segundo a sociedade humana que a pratica, sem, entretanto, alterar sua essência. Do totem ao cristianismo e ao ateísmo a "herança psicológica" marca sua presença. Como premissa, a alma "vive" pela energia produzida pelo CHOQUE DOS OPOSTOS e preexiste à consciência humana, em forma de "munem". O passado é sempre um fantasma que "tememos" e que muitas vezes incomoda. Não se deve confundir passado com recordações, já que efetivamente estas são presente. O homem "sente" que tem um passado (como sente que tem um futuro como a certeza de morte - o homem é o único animal que sabe), mas não consegue, conscientemente, descrevê-lo ou explicá-lo. Entretanto esse passado não é de um homem ou de um grupo de homens, mas de toda a espécie humana. É a herança psicológica, é o fantasma do passado não lembrado conscientemente, porque é inconsciente. É um sentimento de culpa a ser purgado, mesclado com uma leve, mas presente paranóia. O sentimento de culpa é o "pecado original", a desobediência cometida pelo homem, comprometendo a espécie. A paranóia é o segundo "pecado" originado pela pretensão do homem de superar-se ou julgar-se superior à criação. Ambos os "pecados" integram a personalidade do homem desde o nascimento ou até mesmo na fase intrauterina. Sim, porque personalidade aqui é vista como individuação incompleta, mas existente ou quando menos latente, ainda não manifestada. O fato de não se manifestar não excluiu sua existência. O mito "pecado original" é da maior importância, como, aliás, todo e qualquer mito. É a parte mais fundamental, a base absoluta para o desenvolvimento psicológico, sendo sua compreensão indispensável à individuação, ou seja, para que se integre à personalidade do homem. Sem ele, sempre "falta um pedaço”.

Assim, o mito do pecado original é o estigma que todos levam, é o pecado de cada um, aquilo "sente" como pecado e procura redimir durante sua vida (do corpo espiritualizado). Sendo um pecado do corpo tornou-se um pecado do espírito ao estigmatizar o inconsciente com o complexo de culpa e promovendo a "defesa" consciente do complexo através da paranóia. É como "defender atacando". Mas, como todos os mecanismos de defesa psicológica do consciente através dos quais somente ele opera, é ineficaz e a "neurose herdada" se mantém viva e atuante. Assim, o fantasma que incomoda é o pecado de cada um, ou no que cada um julga ter pecado em um passado que não pode ser recordado conscientemente. Esse é pecado, o grande "segredo" de cada um, segredo que não revelado conscientemente leva inevitavelmente à neurose "herdada". O "segredo" não é necessariamente inconsciente como o é o "pecado". Mas, mesmo consciente, mas não revelado, leva esse mesmo consciente à produção de incríveis meios de "defesa". É como a mentira não confessada: é preciso sempre uma mentira maior para esconder a mentira menor. Mas tudo isso é muito, ou mesmo indispensavelmente necessário ao homem. Sua "herança psicológica" é o mito, sua fonte de energia psíquica. Perder o mito é perder a energia e morrer. E foi assim que morreu o homem.

No começo tudo era o Pai. E a criatura desobedeceu ao Criador. O filho desobedece ao Pai e é "castigado". E esse mito se repete até os dias de hoje: o pai "castiga" o filho por desobediência. Mas o pai é venerado pelos filhos, é adorado em suas várias formas, homem, animal, espírito, etc. A obediência vem depois e o Pai é reconhecido como o Senhor Deus Pai dos homens. Esse reconhecimento é registrado desde a mais remota antiguidade como comprovamos ao estudar os costumes ou o "moral" das tribos primitivas e dos grupos mais isolados que ainda hoje vivem em certas regiões da Austrália e da África, Esse era o moral de todos os homens na remota antiguidade. O "desenvolvimento" de algumas regiões da terra MODIFICOU ou SUBSTITUIU o mito, permanecendo, entretanto, sua essência e seu significado. Está imutável através dos tempos. O totem prova a existência não só de Deus, mas, também, das formas de animais “divinos", que precederam o “homem desenvolvido e “aperfeiçoado”“. O Totem, Deus em forma de animal e assim adorado, prova ainda mais as Leis de Deus, desobedecidas pelo primeiro homem, mas totalmente absorvidas pelas gerações seguintes. A prova é o horror ao incesto nas Sociedades Totemistas e a "religião" da exogamia inerente ao Totemismo.

Mas, o que faziam os homens com seu Deus? Matavam-no e comiam-no e bebiam seu sangue para se "purificarem". Assim se cumpria o rito e o mito. Nenhum animal sagrado podia ser morto e devorado por um homem, mas podia ser "sacrificado" por todos juntos, pela "sociedade" durante suas "festas santas" ou de purificação. Então o que era "pecado" se cometido individualmente não o era se cometido coletivamente. Essa fase da civilização humana (que perdura até hoje) não tinha nada de original ou de invenção do homem, que, aliás, não inventa nada, mas era nada mais que uma IMITAÇÃO DO COMPORTAMENTO DOS DEUSES!

Ora, é conhecido que os Deuses, ou o Deus, reclamava para si o primogênito de cada família, para ser "sacrificado" como purificação do homem (?) ou como "pagamento" das graças concedidas por Ele. Assim como posteriormente Caim e Abel levavam "presentes" a Deus, também as sociedades consequentes "presenteavam" seu primogênito para "acalmar a ira dos Deuses". Em várias tribos em todo mundo a cerimônia do sacrifício era cumprida sistematicamente. Entre outras, as virgens eram "sacrificadas" a Deus (e aos homens da tribo), sendo possuída em público por todos os varões e depois cerimonialmente assassinada, esquartejada, seu sangue bebido e sua carne comida. Isso "salvava" a tribo da ira dos céus e lhes trazia fartura, boas colheitas, etc.

Da mesma maneira o Totem è sacrificado pela coletividade. Porém, o Totem já não representava um ser humano, mas sim um animal. Ele é morto, esquartejado, sua carne é comida e seu sangue bebido. Assim o boi, o camelo ou o cordeiro eram por um lado "sagrados" (reservado aos Deuses) e por outro lado devorados, numa imitação do que acontecia aos homens com seu primogênito. O sacrifício do Deus ou seu assassinato era da maior importância para o desenvolvimento da sociedade primitiva. Desenvolvimento não material, mas PRINCIPALMENTE ESPIRITUAL. Comer a carne do Deus ou do animal sagrado (substituto do Deus que já não andava pela Terra) e beber seu sangue dava aos comensais o CONHECIMENTO E A SABEDORIA DE DEUS e a força ou a vitalidade sexual do animal deglutido. Daria o "sacrifício do primogênito" também força a Deus? Também o sacrifício da virgem e sua violentação pelos varões jovens ou velhos traziam à tribo fertilidade, fertilidade não de colheitas, mas fertilidade para gerar filhos sadios. Então se observa a “razão" do sacrifício: é preciso matar o Pai para fortalecer o Filho.

Tal razão explica a "crença" ou a atitude ritual do homem, mas não explica a cobrança que Deus fazia de lhe ser entregue o primogênito. A dedução é que antes era o sacrifício do Filho. Depois a morte do Pai. E esse é o mito desde os tempos mais imemoráveis e é o costume que ainda se pode observar em tribos primitivas onde prevalece a "Lei de Deus", porque onde foi chegando a "lei dos homens" o ritual foi proibido. Muito curioso, entretanto, é que a proibição imposta pela lei dos homens, ou como querem alguns, pela "evolução espiritual" do homem, NÃO ABOLIU O MITO. Foi simplesmente substituído por rituais idênticos. Assim o mito fica presente e atuante na sociedade humana e o homem não se desliga dele. Isso deve ter sua razão e uma razão muito fundamental: a destruição do mito equivale à destruição do homem-psicológico.

O mito do sacrifício está absolutamente arraigado na alma humana e não pode ser desfeito, ou se desfará a própria alma. É a herança psicológica de toda a espécie humana, que nasce e morre com ela e a transmite a seus descendentes de uma maneira inexorável. Conscientemente o homem não pode evitar o cumprimento do mito pelos seus descendentes, porque está inerente ao filho o único modo de ser "igual ao Pai": matando-o e devorando sua carne. Podemos encontrar a razão do mito com certa facilidade: o Pai possuía todas as mulheres férteis da tribo, pois era seu dever o de procriar. Para isso o Pai era "o Chefe", o patriarca absoluto e infalível. Ao filho restava "depor o chefe" e ASSUMIR SEU LUGAR. O desenvolvimento sexual do filho ficava assim frustrado ou impossibilitado de completar-se, já que lhe era proibido o incesto e as relações sexuais com a mãe (as mulheres do Pai). Em algumas tribos as relações sexuais são também proibidas aos jovens (filhos) com outros parentes como a irmã, a cunhada, etc. Tanto homens como mulheres obedecem às proibições e para se completarem sexualmente têm de abandonar a tribo e juntar-se a outros grupos, sendo o mais comum a criação de outra tribo onde o filho (jovens) IMITA O PAI na posse das mulheres e no privilégio da procriação.

Aí a origem da degeneração da espécie, pois os filhos (jovens) inexperientes não cuidam de que a procriação seja feita peIo mais capaz de procriar filhos sadios e isentos dos "males do parentesco". Esse mal do parentesco deve ser entendido de forma diversa de hoje em dia. Em tribos da Austrália, por exemplo, e na maioria das tribos totemistas, o parentesco se dá pelo Totem de cada parceiro no casamento e não por serem consanguíneos. Assim, se a mãe é do Totem A e o pai do Totem B os filhos pertencem ao Totem da mãe e não podem ter relações sexuais com ela, mas podem ter com o pai que pertence a outra "família", à outro Totem. Vemos então que o incesto em si mesmo não produziu degenerescências absolutas. (Toda essa questão é muito mais de hereditariedade patológica do que de incesto). Pode-se observar nos animais a presença de um "chefe" que só é “deposto" pela morte que lhe impõe o filho para apossar-se das fêmeas.

É de se observar que a motivação do assassinato do Pai é o impulso sexual, ou a absoluta necessidade de descarregar a libido. Esse "impulso", como veremos, é uma das maiores forças propulsoras existentes na natureza. É praticamente inexorável e o cumprimento de sua "missão", é absolutamente irresistível ou incontrolável sob qualquer condição. Assim muitos animais têm seu chefe de grupo ou chefe do clã e também para ele rege a lei proibitiva do incesto, sendo o chefe o responsável pelo cumprimento e pela observância dessa lei. Tanto na sociedade humana como nos grupos animais o não cumprimento da lei acarreta as mais severas punições, geralmente a morte. Entretanto, nas tribos totemistas há o incesto entre pai e filhas e entre mãe e filhos quando pai e mãe não pertencem ao mesmo Totem. Entre animais que não conhecem (supõem-se) o Totem, também há punição com a morte se um mais fraco ou mais incapaz de procriar pretende ter relações sexuais com "parentes". Ao chefe, entretanto, sendo animal ou homem, é permitido o incesto sem qualquer consequência prejudicial à tribo e à descendência. A consequência do incesto, nesses casos, nada mais é do que o reconhecimento do "sistema" como, por exemplo, nos cerimoniais de "sacrifício", a Lei era cumprida e o povo "salvo".

Vemos ainda que a "herança" do sacrifício do deus (pai) ficou completamente arraigada na alma humana. Da mesma forma o incesto. Apesar de proibido por leis severas ou brandas, continuava e continua a ser praticado em todas as sociedades. Se o incesto ou a procriação com parentes consanguíneas (versão moderna) "degenerasse a espécie", então todas as espécies são degeneradas, pois no princípio dos tempos a procriação só seria possível pelo incesto. Será esse o "pecado original" que roubou do homem a possibilidade de ser "igual ao Pai"? Não. A proibição do incesto É INSEPARÁVEL DA EXOGAMIA e isso explica a questão: proibir o incesto era forçar a exogamia para DIVERSIFICAR A ESPÉCIE E FORTALECER 0S GRUPOS HUMANOS NA CONQUISTA DA TERRA. Não é lógica a tentativa de Freud de explicar a proibição do incesto para evitar a "promiscuidade nos grupos", referindo-se somente aos antigos "matrimônios em grupo". (Nos dias atuais se pratica o sexo, em grupo). O incesto em si não degenera nenhuma geração, já que a degenerescência é produto de fatores biológicos e existirá com ou sem incesto. Entretanto, reconhecemos que a exogamia, ao diversificar os grupos, evitou a "concentração de poder" em uma só família, o que causaria uma enorme lentidão no progresso e desenvolvimento do homem.

A proibição do incesto é, pois, UMA DECISÃO POLÍTICA e não biológica ou psicológica. Mas deixou marcas no homem psicológico. E a força NATURAL do desejo de incesto é tão forte que, contornando a proibição e 'buscando "alívio psicológico", em algumas tribos da America e da África os jovens chamam de "mãe" a TODAS AS MULHERES QUE PUDESSEM TER SIDO SUA MÃE e as jovens chamam de "pai" A TODOS 0S HOMENS QUE PODARIAM TER SIDO SEU PAI. Assim a relação com a "mãe" para os jovens e com o "pai" para as jovens era possível, pois fora da proibição e, psicologicamente, o incesto era cumprido, a "herança psicológica” se realizava, A abstinência forçada aos jovens (aos filhos) levou ao desejo incontrolável do assassinato do pai. E essa herança ficou para toda a humanidade que vem repetindo o mito e o rito geração após geração. Como dissemos a diferença dos dias atuais à antiguidade e a SUBSTITUIÇÃO do Deus por animais ou outras formas que SEMPRE. REPRESENTAM A DIVINDADE. Da mesma forma que foram substituídas outras "cerimônias", também se substituiu o Pai. Por exemplo, o homem primitivo para casar-se raptava a "noiva". Hoje não há rapto, mas há a "lua de mel" que simboliza o rapto. O desentendimento notável entre sogra e genro è também reminiscência ou "herança" psicológica. Ao ver a filha raptada, a mãe passava a odiar o raptor (genro). Entretanto, ao nascer um filho do casal recém-formado, os "sogros" passavam a reconhecer o raptor (genro) como membro da família. Então é o genro que implica com a sogra, Ele se recusa a ver retornar seu complexo materno já superado e ameaçado de retornar na figura da sogra (mãe). E tanto é assim, que as sociedades que proibiam o incesto incluíam a sogra e o sogro na proibição, exatamente para prevenir um desentendimento na vida do novo casal. A sogra tentando "dominar" o novo filho e recuperar *sua autoridade sobre a filha. O genro lutando e rechaçando definitivamente a ideia de retornar ao complexo de Édipo

Como antes, até hoje as relações sogra-genro não são, nem poderão ser satisfatórias para o bem da nova família. E a "herança psicológica" se faz sentir, ainda mais. Sua execução é "forçada" pelos hábitos (ritos) que as gerações querem impor (e impõem) às novas gerações. Porque, repetimos, a perda do mito é a perda da alma, o que podemos notar nas gerações atuais onde o materialismo é predominante e as questões da alma (equilíbrio psicológico) são consideradas supérfluas e, portanto, desnecessárias. A quebra do mito tem seu preço e o homem que o quebra paga inexoravelmente o preço da natureza, o preço cobrado por Deus, o Criador: advém a degeneração psicológica, a demência provocada pelas drogas, pela música, pelos “costumes modernos", costumes que "tornam o homem independente", mas esse mesmo homem preserva inconscientemente a sua "herança psicológica" e age dentro dela. Ele ainda "sacrifica" o Pai, devora-o e bebe seu sangue em um processo IMITATIVO que quer ainda demonstrar que o Filho é tão capaz quanto o Pai, portanto, deve ser "sacrificado" como Deus (Pai) para a "ascensão" dos filhos.

Mas essa maneira de "torcer" a questão é o que presenciamos hoje como NEUROSE COLETIVA. Totalmente incapaz de SUBSTITUIR O PAI, o filho (juventude) TOMA SEU LUGAR, MAS NÃO O SUBSTITUI. Perde-se aí o controle da sociedade. O conhecimento do Pai que guiava, orientava toda a "família" falta ao Filho. A solução é "INVENTAR" que tal e qual coisa, ou que todas as coisas mudaram. Mas os Filhos (juventude) continuam imitando o Pai, porque não há outra solução, DE-SE AOS FATOS O NOME QUE OS FILHOS QUEIRAM DAR. Ao assassinar o Pai os Filhos ficaram "perdidos"

Perdidos, desorientados os filhos (juventude) estariam perdidas as futuras gerações, que dependeriam dos filhos e perdida estariam todas as sociedades dos homens sobre a terra. E a solução é outra vez encontrada pelo Pai: "Divinizar" os filhos (a juventude). O Filho tornando-se Deus, a juventude seria "divinizada", pois o Filho só poderia representar (simbolizar) os jovens, a nova geração. Decide assim 'Deus, o Pai, fazer a "nova e eterna aliança" com os homens, tentando, por última vez a salvação da sociedade humana. Mas por que desta vez o Pai, Deus, não fala e instrui outro Moisés? Por que o Pai não reencarna ou encarna ele mesmo para salvar os homens? O Pai nunca ressuscitou e não ressuscita agora. A solução exigida pelo momento, no após assassinato do Pai, seria uma única: valorizar o Filho, mandando-o "negociar” a eterna aliança com os homens, representando a um só tempo a Ele, Pai, e a nova geração, os Filhos, a juventude. E assim envia Deus seu Filho à Terra. O "plano" foi concluído pelo Pai. Mandaria um Filho seu, que para fazer em seu nome a "aliança" deveria ter a "forma de homem" para que os homens o entendessem. Deveria ser "sacrificado" como o fora o Pai, para ser "divino". Deveria, num banquete, ser comido e ter seu sangue bebido, exatamente como estabelece o Mito. A primeira observação a fazer é que para mandar seu Filho, este deveria "nascer homem". O Pai precisava "gerar" um filho, com forma de homem.

Entretanto, o Pai, Deus, não seguiu "o costume humano do matrimônio". Para ter um filho não se casou Deus com uma mulher humana. Com isto não "constitui família" conforme faria um humano. É então a família desnecessária para a procriação nas normas da sociedade humana? É então, a família não uma "invenção" divina, mas uma "invenção dos homens" totalmente desnecessária a preservação da espécie e dos costumes naturais. É a família A MESMA FORMA ARCAICA DO TOTEM E DA EXOGAMIA vestida de roupa nova, como tudo. E o novo Totem também tem um Deus: o nome de família, que a identifica, como o animal identificava o Deus, o Totem. As proibições são “herdadas", o Totem é herdado, o MITO É A HERANÇA PSICOLÓGICA DO HOMEM, que pode "dar roupa nova" a ele, mas o cumpre inexoravelmente, assim como Deus, o Pai, o cumpriu integralmente quando resolveu mandar o Filho para "salvar os homens". Não sendo a família parte do Mito não foi necessário o "matrimônio de Deus". Fez com que uma virgem concedesse um "homem" e traçou o destino dele: a missão era relembrar o Mito aos homens, repetindo-o em todos os detalhes. Assim veio o Filho (por que não o próprio Pai?) que, como faziam os homens entregando a Deus seu primogênito, deveria ser entregue agora aos homens. Mas o Filho era homem e Deus já estava a esse tempo substituído por um animal que o representava no sacrifício. Então o Filho se torna o "cordeiro de Deus" e assim assume o papel de representante da divindade. Era o cordeiro o animal sacrificado nos rituais de cumprimento do Mito. Vemos então o plano de Deus para "salvar o homem", mas com o objetivo de "divinizar a juventude". Tudo isso deveria ser feito dentro do Mito e dentro dos costumes humanos da época. Daí o simbolismo (a imitação) em toda a história da redenção, onde os filhos, a juventude foi REDIMIDA PELO ASSASSINATO DO PAI e pela tentativa de assumir seu lugar junto às fêmeas e na condução da sociedade e das “leis naturais". O próprio Deus-Pai entrega agora o seu Filho aos homens.

O Homem primitivo cumpria o Mito levando ao ALTAR (pedra do sacrifício) o "representante da Divindade", um animal, uma virgem, etc., segundo a divindade a ser "reverenciada" e adorada e a quem cumpria agradar. A vítima (representante) era levada ao altar e aí assassinada na presença de toda a tribo (sociedade) que se reunia EM FESTA para a "cerimônia". A festa consistia no assassinato e, a seguir, num "banquete" onde todos comeriam a carne do Deus e beberiam seu sangue para "ficarem iguais a Ele" (Veja-se que "ficar igual a Ele” é a mesma tentação sofrida por Adão e Eva no paraíso, induzidos pela serpente: repete-se o Mito).

O Filho de Deus nasce de uma virgem (Maria). Depois de tornar-se semideus perante os homens (o Messias) vai ao "sacrifício”. É assassinado. Antes, porém, reúne os homens em um "banquete" (ceia) e, sabendo que será assassinado, diz: (usando o pão como "símbolo") “Tomai e comei todos vós. ESTE É MEU CORPO” (para ser comido, devorado) e ainda diz (tendo o vinho como “símbolo"): “tomai e bebei este é MEU SANGUE”. E assim, NUM ALTAR (a cruz símbolo do Universo) O FILHO É SACRIFICADO, assassinado, COMIDA SUA CARNE E BEBIDO O SEU SANGUE. E nesse momento ele se torna divino. Torna-se Deus-Filho. Cumpre-se o Mito e o homem ESTÁ SALVO. Mas ao ser o Filho o sacrificado e não desta vez o Pai, torna-se o Filho Deus, como o Pai. Os filhos "perdidos" após o assassinato do Pai retomam agora a "gerência dos homens". O Pai é quase esquecido para que o Filho seja lembrado, amado e venerado, O "trauma psicológico" (forte sentimento) sentido pelo homem fica definitivamente arraigado em seu consciente e no seu inconsciente: O Filho é divinizado e como era o Filho, jovem e não o Pai, velho, então quem se diviniza é a juventude. Agora os filhos (jovens) são considerados Deuses e perdem sua efetiva incapacidade de SUBSTITUIR O PAI junto às mulheres na procriação e na manutenção das "leis".

A divinizada juventude, o divinizado jovem é agora adorado como "deus". Entretanto NÃO PODENDO DEFINITIVAMENTE SUBSTITUIR O PAI "altera as leis" na forma que ela juventude é capaz de entender e fazer cumprir: é a sociedade moderna, é a tecnologia (Filho) "querendo" tomar o lugar da ciência (Pai), é a quebra dos tabus, o desrespeito ao Mito e, portanto, a morte da alma. Ê impressionante a lentidão do homem para compreender fatos míticos. A divinização da juventude levou quase DOIS MIL AN0S para ser entendida! Com isso o que sucede é da maior curiosidade: o homem jovem ACREDITA que é ELE quem modifica as coisas, que faz descobertas fantásticas e que a tecnologia supera a ciência!

O fenômeno da "má memória" do homem nas sucessivas gerações é conhecido há centenas de anos. Um excelente exemplo disso é a “descoberta" de Copérnico de que o Sol é muito maior que a Terra e que é a Terra que gira em torno do Sol e não o Sol em torno da Terra como pretendia Ptolomeu. Cobriu-se então, o "jovem" Copérnico de todas as glorias. Na sua santa ignorância (que o homem parece fazer questão de preservar) "esqueceu-se" que a descoberta de Copérnico no século XVI já estava descoberta no século III Antes de Cristo por Aristarco de Samos! Idêntico "engano" se dá no endeusar a tecnologia (filho) e esquecer a ciência (Pai). Mas, seja qual for o comportamento da sociedade atual ELA NÃO PERDE SUA "HERANÇA P3ICOLÔGIOA" e, de urna forma ou de outra, com um simbolismo ou com outro, o Mito é preservado no inconsciente do homem pois é sua alma. "O Mito é o que nunca aconteceu, mas sempre existiu" (Sallustius, século IV).

Hoje a comunhão católica (banquete em um altar onde se "come" o corpo do Filho e se bebe seu sangue, como Ele ordenou) repete todos os dias o Mito. Não mais o Mito do assassinato do Pai, mas da divinização do Filho, que também se faz por seu assassinato, para que sua carne seja comida e seu sangue seja bebido, para que o homem "seja igual", agora não mais ao Pai, mas igual ao Filho que também é Deus,

Analisada essa terrível "herança psicológica" descobrimos no comportamento do homem, na sua vida psicológica, a procura da "vitima" para o sacrifício. O Mito tem que ser repetido. Tem de ser cumprido. Não encontrando a "vítima", o homem olha para si e vê que tem o Pai (Deus) dentro dele e inexoravelmente vai "assassinar” o Pai, vai cumprir o Mito que é o seu Destino e volta-se para si próprio e se destrói. Então, inexoravelmente, ou o Mito se cumpre ou o homem se destrói para assassinar o Pai dentro dele. Vemos aqui o eterno "complexo de destruição”, com que o homem nasce e morre: é sua "herança psicológica". À falta de "símbolos" e "banquetes" coletivos para o sacrifício, ele mesmo, o homem, se sacrifica no altar da inconsciência. Essa busca incessante do homem para o cumprimento do Mito é a busca pela "integração psicológica" pela "individuação" preconizada por C. G. Jung.

Para "completar-se psicologicamente" e, portanto, para ser um ser ÙNICO, individuado, completo, o homem precisa do Pai, inconsciente, alma que não se "funde" sozinha com o consciente no processo de integração humana. Tem de ser conseguido pelo homem-consciência. É a infindável procura do OPOSTO para formar o TODO. É então, indispensável assassinar o Pai, comer sua carne e beber seu sangue (isso quer dizer enfrentar as misérias formadas pelo consciente trazendo a ele os conteúdos do inconsciente e da alma para a divinização do homem que é seu Destino), para com essa "cerimônia" purificar-se, encontrar-se finalmente, realizar-se como um TODO e não apenas com uma parte, a consciente. Esse processo, se tentado, é o próprio "sacrifício" do homem para também "tornar-se Deus". Ou o homem cumpre seu Destino que é a integração do consciente e do inconsciente, da vida e do Mito, ou ele se destrói. AÍ está a NEUROSE COLETIVA da espécie humana: a busca do que falta para "completar-se" ou então destruir-se. É a eterna “herança psicológica" ou "herança neurótica". O homem teme a Deus porque teme a si mesmo, altar de Deus, onde Ele deverá ser sacrificado, É a certeza da morte que só o homem tem. É a inexorabilidade do Mito. Mas o homem ama a si mesmo, sem ser tipicamente narcisista, porque também ama a Deus. A morte do Pai é a ascensão do Filho: renovação do corpo para prosseguir o desenvolvimento sem o que adviria a morte. O totemismo é reproduzido em nossos dias com o envio do Filho, não mais em forma de animal, mas em forma de homem, para o sacrifício (crucificação) e para a festa, o banquete onde sua carne será comida e seu sangue "bebido (a santa ceia). Vem então o reinado do Filho que perdura aos nossos dias com a divinização da juventude, e o assassinato do Pai.

Como no totemismo, o Filho exalta o Pai que não deve ser esquecido, mas sempre lembrado como "autoridade suprema, onisciente. Esse é o Mito que demonstra insistentemente que o Pai (inconsciente) deve "estar no Filho" (consciente). O homem talvez ainda não tenha percebido a inexorabilidade da integração psicológica e o Pai (inconsciente) continua tentando lembrar-lhe essa necessidade ou a destruição. Inconscientemente (talvez) começa o Filho (juventude) a "perceber qualquer coisa". O trauma psicológico da vinda do Filho é presente e como o simbolismo deve ser agora imitado, observamos a geração nova com barbas e cabelos longos (como Jesus?), provavelmente iniciando, após dois mil anos, a compreender seu papel de "enviado do Pai". Estaria o homem iniciando, então, a compreensão da absoluta necessidade da integração consciente-inconsciente? Para isso o Filho tornou-se Deus mas não se tornou Pai. Não perdoa já com tanta benevolência porque não é Pai. O Filho tem adeptos, seguidores, apóstolos, mas não tem filhos porque não é Pai. Ê Deus-Filho (para a juventude), mas não o é para seu próprio povo (judeus) que não o reconhece como Deus. Toma o lugar do Pai, mas não o substitui. E a cisão continua, o homem não se completa: falta agora o Pai. Já não há Deuses para sacrificar e o homem só pode agora sacrificar a si mesmo, Imolando-se em seu altar, a sua alma, porque com a vinda do Filho, com a divinização da juventude, teve o homem sua última chance, a "nova e eterna aliança" com Deus selada pelo sangue de Jesus, oferecido aos homens no banquete, tudo em nome do Pai. Assassinado o Pai (inconsciente) e sacrificado o Filho (consciente) pode fugir ao homem sua última chance de por fim à dissociação

Não respeitar e não cumprir as condições da "ultima e eterna aliança" é a autodestruição. Ao tornar-se Deus, o Filho, representante da juventude, disseminou a divinização do jovem. Mas, essa divinização teria um preço: a integração, a individuação do homem para tornar-se completo. Todavia, parece que o homem, representado agora pela juventude não entendeu o Deus-Filho, ou não quis entendê-lo, pois cada vez mais se dissocia ao invés de integrar-se.

Seria então o fim do Mito, o fim do inconsciente? Não. Na dissociação quem se personaliza, quem "toma o corpo" e passa a praticar os atos é o inconsciente, para aqueles que não buscaram a integração. O consciente ou os atos conscientes ficam a mercê de sua própria sorte. Acaba o Mito, acaba o homem. Sem o Mito não é possível a vida da alma, ela não teria mais objetivo. Para salvar-se, vai o homem repetindo o Mito, “nolens volens” (por bem ou por mal), apenas mudando os símbolos, sem alterar sua significação. O corpo é o pão, o sangue é o vinho, mas o "sacrifício" ê o mesmo; a carne é comida, o sangue é bebido, tudo em benefício do homem-assassino, que continua um bárbaro, um primitivo, um homem-conscíência e, portanto, dissociado, o indivíduo não realizado no Pai, nem em si mesmo.

Vimos assim o Deus-Pai (inconsciente todo poderoso, onipotente, onisciente). Vimos o Deus-Filho (consciente a ser educado, a adquirir saber para progredir o inconsciente, missão de Jesus - juventude), missão do homem sobre a Terra. Mas a Divindade sem a qual não vive o homem são TRÊZ PESSOAS EM UMA SÓ (a Santa Trindade). Temos então, que ver ainda o Deus Espírito Santo, a alma. Se o consciente e o inconsciente precisam integrar-se para a individuação (Jung) do homem, então consciente e inconsciente são opostos que se completam um ao outro.


A ALMA O TERCEIRO TERMO DA INTEGRALIDADE

Vemos que para algo completar-se não é necessária outra parte IGUAL, mas outra parte OPOSTA. E assim é a morte para completar a vida. O Mito da morte do Deus (sacrifício) não é a "eterna aliança", mas a “eterna herança" que Deus deixa à humanidade: é preciso morrer para ter vida eterna! O homem vive do Mito e tem de assumi-lo para a sobrevivência sã de sua psique, para integrar corpo e alma e assim vencer o "sentimento de culpa", eterno complexo psicológico herdado pelo homem depois do assassinato do Pai. Mas, com a preservação e adoração de sua memória (do Pai) ao ver o Filho que jamais poderia substituí-lo. Pai e Filho, ambos Deuses. Completam-se? São então, opostos? Não são opostos, porque não se completam mutuamente. O filho (consciência) se completa no Pai (inconsciente), mas o Pai não se completa no Filho, ao contrário do conceito humano-social. Falta um terceiro termo. Deus (COMPLETO, ÚNICO) não é uma dualidade, mas uma TRINDADE, que se completa com o "ESPÍRITO SANTO".

Questão já mais difícil de entender, pois apesar de ser tridimensional, o homem acostumou-se a viver somente com a bidimensão, por ser mais simples e, portanto mais fácil de "manobrar". Mas o "terceiro Termo" ou a terceira dimensão do homem, como na natureza, é "a alma", o Espírito Santo do homem, juiz sereno e imparcial, mas bondoso e justo, entre o consciente e o inconsciente. Luz buscada pelo homem para decidir, fundir, integrar os opostos, conciliando-os. A alma é a "matéria prima" da "fusão". É o terceiro termo e indispensável, porque o homem é tridimensional. Sem ele faltaria uma das partes. É esse terceiro termo que falta quando "sentimos” que falta "algo”, quando somente o consciente e o inconsciente agem ou se manifestam. Encontra-se na expressão vulgar, sábia, perceptiva, dizer-se “está bom, mas falta alma”. Porque corpo e alma, sendo cada um tridimensional, ao se manifestarem somente duas das suas dimensões, o homem "sentirá que falta a terceira", para ser completo.

Tudo isso não desfaz a ideia da necessidade dos opostos para compor-se a UNIDADE. Ao contrário, prova que ideia de unidade são "conjuntos" e só funcionam bem enquanto "conjunto". É impossível viver com os elementos dissociados. Entretanto o papel de "juiz" conciliador da alma é prejudicado pelo "livre arbítrio do consciente". Assim a alma, o "juiz" não pode "impor" a conciliação entre o consciente e o inconsciente.

É absolutamente necessária a vontade de integrar-se para conseguir a UNIDADE. E, mais que a alma, o "livre arbítrio", poder do consciente, levará o homem a cumprir sua vontade seja para um lado seja para o outro. O "livre arbítrio" é "alertado" pela intuição, mas a decisão final só é tomada pela aplicação desse poder consciente, o "livre arbítrio".

Temos assim que o homem possui PLURIUNIDADE, mas não PLURIUNIFORMIDADE. Daí o conflito. Talvez seja difícil entender a ideia de PLURIUNIDADE. Sendo unidade, como pode ser plural? É esse o mesmo "mistério" da "Santíssima Trindade". Voltamos aqui ao problema humano de compreensão dos conceitos. Deformado pela lógica do homem, è mesmo difícil compreender que no "termo” (unidade) está implícito um "conjunto de ideias" sendo cada termo componente da ideia uma unidade em si, mas a ideia contém uma pluriunidade de termos. Ou seja, o termo sozinho é incompreensível (a unidade é incompreensível) e sua compreensão depende da compreensão do "conjunto de termos" ou da PLURIUNIDADE, Se o "conjunto de termos" for harmônico, (pluriuniforme), não conflitivos, então surgirá a compreensão da ideia, formada por mais de uma UNIDADE (termo) sendo, por isso, para ser lógica e compreensível, formada pela PLURIUNIFORMIDADE da PLURIUNIDADE.

São nesses termos que a alma pode avaliar e julgar as manifestações do consciente e do inconsciente, juntando-se a eles para a formação do ÚNICO (UNO, UNIDO) compreensível. Como Juiz, é a alma que retém o conhecimento do MITO e atua dentro dele. Se há desvio dos objetivos do Mito falta "alma” á ideia ou à manifestação do consciente, ou do inconsciente, isto é, a "direção” está errada, a ideia é falsa ou deformada, ou não compreensível e, portanto, não realizável. Só com a participação da alma pode chegar o homem à individuação, pode o homem assemelhar-se a Deus. Somente a TRINDADE (consciente, inconsciente e alma) pode ser semelhante à Santíssima Trindade, Deus Pluriunidade, à forma como o próprio Deus "fez" o homem à sua imagem (corpo) e semelhança (espírito). Não é assim compreensível a ideia de "espírito" como uma unidade independente em si mesma. Isso não existe. Pode, isto sim, haver "manifestação" de uma unidade, separadamente. Daí a difícil compreensão dessas manifestações isoladas, pois são sempre incompletas, falta "inteligência".

A essa pluriunidade e pluriuniformidade, quando "harmônicas" chamamos "equilíbrio". Se, como vimos, a energia está presente em tudo que há no universo, outro fator existe para manter essa energia em estado "harmônico": é o equilíbrio. Seria então esse "equilíbrio" o terceiro termo, a "alma" de cada coisa. Podemos dizer que as energias contidas em todas as coisas somente são úteis se apresentar-se em equilíbrio, se forem "harmônicas". Ê a Lei do Universo. À falta de equilíbrio advém a catástrofe. E isso se passa com o homem, parte do Cosmo, e, portanto, sujeito à Lei. Já vimos que as energias são de várias espécies, segundo sua aplicação ou necessidade. Se tomarmos, por exemplo, as energias do "bem" e as do "mal", energias opostas, mas complementares, a sua "dosagem" ou a "dose" de cada uma delas precisa ser correta para resultar em uma energia "útil" ou uma "mistura útil". O equilíbrio é o ponto ótimo da mistura dos opostos. Observe-se que não dizemos que as doses devem ser iguais, mas sim que devem ser equilibradas EM CADA CASO. O que falta á uma sai da outra e o que sobra de uma vai para a outra, sem se dizer com isso que o ponto de equilíbrio seja o perfeito. Umas "misturas" serão ou poderão ser mais "doces" e outras mais "amargas", mas, quem julga o que falta ou o que sobra? No homem é a "alma", na natureza é Deus. Por fim, somente o equilíbrio conduz à PERSONALIDADE, ou ao seu elemento básico.

Tudo isso que parece um "complexo funcionamento da mente humana", complicado para entender, é o conflito congênito do homem, é a "herança psicológica" que só é compreendida pelo fenômeno da "defesa", ou seja, o homem NÃO QUER RELEMBRAR, não quer despertar seus arquétipos, pois eles realmente incomodam ao relembrar ao homem, a cada momento, seu "complexo de culpa" pelo assassinato do Pai. Isso é traumatizante cada vez que algo ê "associado" pelo inconsciente (e posteriormente pelo consciente) trazendo à lembrança o trauma congênito, a culpa, o "pecado” não redimido por CADA HOMEM e não pela coletividade. ISSO quer dizer que nenhum homem se redime do "pecado" do assassinato só porque pertence a uma sociedade religiosa, ou porque cumpre ritos e rituais com o que tenta "disfarçar" sua culpa. A redenção é INDIVIDUAL e a única forma de solução para o conflito é a integração (individuação), é a fusão da trindade tornando-a pluriuniforme. Sem essa consciente "associação" o homem não se redime e assume a "herança" tentando "esquecê-la". É nessa tentativa que reside a "dissociação" que condena o homem a uma vida dissociada e, portanto, incompleta, com sofrimento e infeliz.

Quando Jesus, o Cristo, diz que seu sacrifício é para o “perdão dos pecados" do homem, na certa se referia ao PECADO DE NÃO ASSUMIR A HERANÇA E ASSIM NÃO CUMPRIR O MITO que ele veio repetir aos homens, para sua "relembrança", em nome do Pai. Voltamos aqui à asserção eterna: sem o cumprimento do Mito não há "salvação". Somente pode ocorrer a integração da pluriunidade através da pluriuniformidade. E a "herança psicológica" é tão "espontaneamente presente" na espécie humana que vemos o homem sistematicamente querendo imitar ao Deus: Deus recebia o primogênito do homem para o "sacrifício". O homem sacrifica o frango e não o galo, o leitão e não o porco, e assim por diante. Os "sacrificados" são os filhos "primogênitos". Também Deus sacrificou seu filho para talvez "dar o exemplo" ao homem, e pelo "símbolo" perdoando-o pelo seu assassinato. E o homem aprendeu. Instintivamente, intuitivamente, ele tenta seguir os caminhos do Mito, sua "herança", sem nunca resolvê-los.


REENCARNAÇÃO E RESSURREIÇÃO

A vida cessa quando cessa o desenvolvimento e só renasce para continuar ou para completar esse desenvolvimento, para aperfeiçoar-se, no caso, "espiritualmente". O corpo do homem sofreu, através dos séculos, um enorme aperfeiçoamento, observável à cada nova geração. Pelos, unhas, dentes, antes adequados a uma vida animal do homem, "aperfeiçoaram-se" à medida em que o homem modificou hábitos e costumes para tornar-se como ele mesmo chama "mais civilizado". Mas, o conceito não interessa e sim a nova figura do corpo do homem, a demonstração de seu “aperfeiçoamento".

Tudo isso é visto na teoria da evolução (nem sempre merecedora de grandes créditos, por ser fantasiosa) não comprovada, nem na origem, nem na razão. Interessa-nos, entretanto, a "evolução" do espírito. Tal evolução está à vista, para ser comprovada. O "saber" acumulado pelo homem desenvolveu-se enormemente (ou naturalmente), mas não se desenvolveu suficientemente. O atraso é muito bem explicável pelo comportamento intelectual do homem, isto é, por sua inicial "descrença" naquilo que lhe é ensinado e querendo, cada nova geração, provar por si os mesmíssimos fenômenos naturais ou científicos já do conhecimento e do domínio da geração anterior. Tudo começa, cada vez, do marco ZERO para chegar exatamente à mesma conclusão. Não querendo aceitar sua "burrice" de refazer o que já estava feito, as novas gerações, simplesmente, dão outro nome para a mesmíssima coisa. Um bom exemplo é o já mencionado fato de Copérnico "descobrir” no século XVI o que Aristarco já havia demonstrado no século III A.C.! Esse comportamento de inteligência mal desenvolvida atrasou em milênios o aperfeiçoamento do homem, ou melhor, o aperfeiçoamento do espírito do homem, já que o corpo não depende de sua vontade: é um fenômeno cósmico irreversível.

Assim, é evidente a diminuição acentuada da capacidade intelectual a cada nova geração. Sem máquinas e aparelhos o jovem está "morto". Vê-se nesses jovens a expressão de espanto e a incompreensão quando falamos nos filósofos e seus pensamentos, dos físicos que formularam as bases teóricas de que resultou a tecnologia usada por esses mesmos jovens, tudo isso usando SOMENTE O RACIOCÍNIO, sem mesmo um simples binóculo. Observa-se também a rapidez com que o jovem SATURA sua capacidade intelectual quando o levamos a PENSAR em informações um pouco mais complexas, mas de segundo grau somente. Muito rapidamente advém um cansaço, um "stress" mental: é a evidência da diminuição da capacidade de concentração e de compreensão, é o caminho da atrofia mental para raciocínios um pouco mais sofisticados.

Vemos, entretanto, que o corpo do homem foi se aperfeiçoando a cada geração, talvez baseado num "modelo" orientador existente desde a criação e ao qual o homem não conseguiu ainda equiparar-se. Agravando o processo temos ainda que o corpo também se modifica pelo espírito, Não tendo conseguido o necessário grau de desenvolvimento durante um período de vida só resta ao homem persistir no seu aperfeiçoamento pelo renascimento. Como o corpo, o espírito também "estanca" com a morte física e somente com um renascer em um corpo (fonte de energia) dará prosseguimento à sua "vida", ou seja, ao seu maior desenvolvimento e aperfeiçoamento. O homem não vive porque quer, não mantém a vida consciente segundo sua vontade pelo tempo que entender. Mas uma “vida eterna" pode ocorrer com o inconsciente. Terminada a lição consciente pela morte física, deixa o inconsciente de receber estímulos associativos para sua manifestação e entra em “repouso". Enquanto houver energia "externa" para alimenta-lo o inconsciente estará "vivo". Sua forma de manifestação seria então, através de outro corpo (outra fonte de energia). Mas, esse novo corpo não tem consciência de que existe um inconsciente manifestando-se por seu intermédio. Ê quando alguém fala, ouve vê ou diz algo e ela mesma se surpreende com o que fez. Não foi ela. Foi "um espírito". Realmente foi um espírito, mas espírito dela mesma e de outra forma jamais poderia ser. Não há relação ou comunicação externa corpo-espírito. Ao se manifestar, a única maneira possível é espírito-espírito e em linguagem de tal simbolismo que é, na verdade, praticamente impossível a sua compreensão consciente. Pode um corpo "adotar" um espírito que ainda não terminou seu aperfeiçoamento. Mas aquilo que o espírito já sabe ele tentará manifestar através do novo corpo. Temos então que distinguir perfeitamente a diferença entre a comunicação espírito-espírito e, não a comunicação, mas a manifestação do espírito por processos corporais.

Esse segundo caso é que se poderia chamar de “reencarnação”. De fato, se considerarmos correta essa possibilidade explicaremos uma série de "fenômenos sobrenaturais". É comum em qualquer pessoa reconhecer-se essa condição. Mas o termo reencarnação definitivamente não serve para exprimir o processo, nem a finalidade do fenômeno fica satisfatoriamente explicada. A grande crença na reencarnação se encontra na índia. A vida posterior do espírito e sua volta ao mesmo corpo encontramos nos costumes egípcios. Mas, para que voltaria um espírito a ter corpo? A resposta está no não cumprimento do seu desenvolvimento satisfatório anterior, porque quando há integração não há retorno: Jesus não reencarnou, nem nunca falou sobre essa possibilidade. Se tivesse dito teria de ter dado exemplo, como fez com tudo o que disse. Jesus não reencarnou, mas ressuscitou em espírito ou, na verdade, não morreu em espírito. Por outro lado disse que voltaria à Terra. Só pode ser em outro corpo se tiver que voltar novamente em forma de homem. Só então ficaria provada a impossibilidade da reencarnação (conforme a semântica do termo), mas a possibilidade da ressurreição.

Vejamos então o que poderá ser o que chamaremos de "reminiscência espontâneas". Quase todas as pessoas que prestam atenção nas suas próprias sensações já terão vivido uma situação como a de "reconhecer" lugares que nunca frequentou ou mesmo viu. Como â de se "identificar" com ambientes, geralmente muito antigos, sentindo na ocasião um enorme conforto e perfeita sensação de "já ter vivido" ali, etc. São as "reminiscências espontâneas" que parecem vir do "fundo da alma". Quando menos, tudo isso demonstra que tais sensações, que somente podem ser produtos de "circunstâncias associativas", provêem de uma reminiscência de "outra vida", ou seja, de reminiscências espontâneas, pois tem origem no inconsciente. E isso, que já é muitíssimo, nem de longe prova a existência de uma reencarnação ou da "volta à vida” de uma mesma pessoa. O que pode ter ocorrido é que um corpo novo "tomou" um espírito já vivido e este traz consigo essas reminiscências que se manifestam espontaneamente, sempre pelo processo associativo, sem interferência do consciente. A sensação sentida durante tais recordações e que parece provir "de outro inundo" é tão forte que "apaga" temporariamente o consciente e a pessoa sente-se em verdadeiro "êxtase".

Sensações, ou melhor, manifestações espontâneas mais débeis, mas nem por isso menos importantes para nossa análise, ocorrem com muita frequência. Por exemplo, citamos o caso corriqueiro de, subitamente, ao ouvir nosso nome, pensamos ultrarrapidamente: esse não é meu nome. Meu nome é "X". E ficamos perplexos e nos perguntamos: "Ora, de onde saiu isso?" É a incontestável "reminiscência espontânea" que aqui não deve, de nenhum modo, ser confundida com arquétipos de Jung ou os "resíduos arcaicos" de Freud, já que estes são "símbolos inconscientes coletivos" enquanto a "reminiscência espontânea" é absolutamente individual.

O conteúdo dessas reminiscências são "valores psicológicos" (sentimentos) arraigados no mais profundo do ser, isto é, do inconsciente. E elas existem, sem dúvida. De nenhum modo devem-se confundir aqui outros processos mentais como impressões esquecidas, repressões, derivação por reação, afastamento ou "esquecimento" consciente, etc. Esses processos, muito parecidos com as "reminiscências" em suas manifestações, têm, entretanto, suas origens em acontecimentos recentes, isto é, durante a vida da pessoa ou da vida consciente da pessoa, em traumas psicológicos e repressões da libido, enquanto a "reminiscência” de que falamos não tem origem demonstrável ou provável ou que possa vir à tona durante um processo associativo PROVOCADO.

A sensação da reminiscência é tão grande quanto o momento da conscientização de um fator gerador na neurose. Por exemplo, em determinado momento, ou estando por primeira vez num lugar, a pessoa exclama: "Eu já estive aqui!" e sente uma sensação quase traumática, de tal força e de tal compatibilidade que se assemelha a um fator de origem de uma histeria. Muito longe de isto provar ou mesmo demonstrar uma reencarnação, o que demonstra é que existe ou pode existir EM ALGUMA PESSOA "reminiscências psicológicas congênitas", ou "reminiscências psicológicas adquiridas". A "lembrança" não é realmente dela: foi "emprestada" de alguém. Nos casos mencionados de “reminiscências espontâneas” a pessoa não RECORDA um fato, mas simplesmente lhe vem à mente UM CONHECIMENTO não adquirido conscientemente por ela. Haveria duas razões, ou duas possibilidades de tal ocorrência: como dissemos o fenômeno pode ser uma "reminiscência psicológica congênita" ou uma "reminiscência psicológica adquirida". 

No caso primeiro, "reminiscência psicológica congênita" esse CONHESCIMENTO proviria da "irradiação" de choque psicológico da mãe (choque no sentido de alta impressionabilidade - hiperestesia) ao confrontar-se com um acontecimento "bom" ou "mau". Um choque de tal intensidade que, como já vimos, pudesse produzir alterações quimiobiológicas no organismo da mãe e, consequentemente, causar tal desconforto ao feto que poderia induzir impressões sensoriais em sua mente (do feto), impressões essas logicamente "não definidas" dada a passividade mental em que se encontra o feto. A possibilidade de formação de símbolos no inconsciente pré-natal é evidente, dependendo tão somente da eficácia do "fator gerador". Isso além da normal formação de símbolos mnemônicos pré-natais, ou de "símbolos básicos" para o futuro desenvolvimento mental do feto, que estariam já contidos na cadeia ADN, juntamente com os símbolos do instinto e da intuição, como as sensações de fome e o ato de "procurar alimento". A primeira sendo instintiva (física) e a segunda intuitiva (mental), por exemplo, se manifestarão no pós-natal, ou melhor, no imediatamente pós-natal (e a não manifestação é anormal). Ora, para que haja manifestação de algo esse algo tem de existir previamente. Assim, essa manifestação do instinto e da intuição, ainda que imediatamente pós-natal, é manifestação de impressões formadas ou "adquiridas" no pré-natal. Como essas, outras impressões podem ser gravadas ou repelidas pela mente do feto que, definitivamente já funciona no pré-natal. Sendo a manifestação pós-natal e só tornando-se consciente no pós-natal, é uma "reminiscência adquirida", pois as impressões não foram produzidas pelos sentidos do feto, mas pelos da mãe. Mas esse tipo de "reminiscência adquirida" não explica satisfatoriamente os casos mencionados de "eu já estive aqui", "meu nome não è esse", etc.

Há casos relatados de recordações (distinga-se de reminiscência) de situações aparentemente nunca vividas pela pessoa. Entretanto, uma busca mais cuidadosa vem posteriormente revelar que a pessoa esteve no lugar ou que viveu a situação em tempos remotos, na sua pré-infância às vezes. O evento foi "esquecido" e em uma fase adulta é "relembrado". Outros relatos informam que a mãe viveu o acontecimento ou esteve no local durante a gestação e teria sofrido aí uma hiperestesia. Em outros casos a mãe relatou à criança fatos e acontecimentos e descreveu cenas e ambientes que impressionaram fortemente a criança e esta "gravou" como se fossem experiências vividas por ela, realmente. Isso é comum mesmo em adolescentes e até em adultos sensíveis que ao ler um livro ou assistir a um filme e ainda ao ouvir um relato bem feito, fica de tal modo impressionado que "jura", depois, ter realmente estado naqueles lugares e vivido aquelas situações.

Muitos contadores de histórias as contam como se sua própria experiência fosse. O contador é quem faz o "papel de mocinho", de "bandido ou de simples expectador. Isso dá mais realidade à história e a torna mais crível pelo que ouve. Mães, tias, tios, avós, governantas, todos contam histórias às crianças, corno os contos de fadas universais. Mas, o narrador coloca na história muito de sua própria fantasia e a criança que ouve ainda coloca outras fantasias que são as suas próprias. Ora, o resultado disso é que, por um lado, nem sempre as fantasias do adulto narrador "empatam" com a fantasia da criança ouvinte e o resultado é uma "história absurda", resultado da mistura das fantasias com seus diferentes graus. Por outro lado, ao incluir na história suas próprias fantasias essa história passa a ser "dela", vivida por ela, narrador ou criança ouvinte. Mesmo no caso de contos universais que todos sabem que nem narrador nem ouvinte poderiam ter vivido aquilo, porque aquela é uma história "de todos", uma propriedade coletiva, narrador e ouvinte se incluem como "personagem expectador" e ainda assim podem gravar a impressão de terem realmente "visto" e vivido os momentos da história. Não podendo isso tornar-se uma lembrança, pois isso seria uma mentira, (a pessoa poderia lembrar-se que "ouviu a história" (verdade), mas para esconder mesmo inconscientemente (dependendo do tempo decorrido) a mentira de que ela mesma viveu a história, essa "lembrança", toma a forma de "reminiscência", sendo então a reminiscência uma "lembrança de que "não se sabe a origem". E não se sabe mesmo, pois já pertence aos "arquivos" do inconsciente. Entretanto, a reminiscência, acompanhada do "segredo" (a mentira da participação) pode produzir severas manifestações neuróticas ou histéricas como, entre muitas, querer viver realmente a fantasia e sentir-se "deprimido" por não conseguir fazê-lo, induzindo em muitos casos à manifestação histérica. Uma dessas manifestações é o dizer "Eu já estive aqui”, acompanhado de forte sensação de "sentir o passado" que não existiu e daí derivar para “são recordações da outra vida", convencendo-se a própria pessoa de que ela é a "reencarnação" de outra, com todas as suas terríveis consequências para a saúde da mente.

A mesma sensação aparece quando urna criança vive uma situação que absolutamente não compreende no momento em que a viveu. Ê o mesmo mecanismo mental que funciona, com a diferença que uma situação verdadeiramente real é posteriormente narrada como se fora uma fantasia. Isto é, a narração é apresentada como absoluta verdade, mas o narrador "sente" que o que diz é sua fantasia: nunca aconteceu. É um efeito inverso com resultados idênticos ou quase idênticos. Talvez se possa comparar esses comportamentos com o comportamento da pessoa que quer esconder uma mentira: ela mente cada vez que uma associação induz a lembrança do fato sobre o qual mentiu inicialmente. E uma mentira cada vez maior é contada, indispensavelmente acompanha de fantasia cada vez mais rica, até que a mentira se torna verdade inconteste para o narrador. Ao suceder tal coisa nasce aí mesmo o núcleo de uma neurose. Todo esse mecanismo mental é utilizado com tanta frequência por todos que é extremamente difícil encontrar alguém que, em algum ponto, não conduza uma neurose dessa qualidade e procedência.

Todas as pessoas fantasiam de um modo ou de outro, em um caso ou em outro. As fantasias mais marcantes serão, sem nenhuma dúvida, as inerentes fantasias sexuais. Não há pessoa que não as "tenha tido em maior ou menor grau, dependendo exclusivamente da potência de sua libido, ou de sua força de exteriorização reprimida. Toda repressão da libido faz nascer, imediatamente, uma fantasia que pode ser "resolvida" em idade posterior, ou pode permanecer "em conflito" por toda uma vida. Isso sucederá sempre que a repressão tornar-se um "segredo". E a formação de segredos é farta no campo sexual, desde a infância, por ser, de acordo com o código moral existente, um tabu que deve ser "escondido" e não revelado: um "segredo" quase que obrigatório.

Observe-se que a grande maioria de "histórias" provém, real ou fantasiosamente, da infância. O início de uma dessas histórias ou contos é, com enorme frequência, "eu me lembro... quando do eu criança..." E nem sempre a história se repete na íntegra. A cada vez que é contada vem com algo novo, pois a falta de lembrança é preenchida com a fantasia do narrador. Assim é que muitos "segredos" infantis são posteriormente convertidos em "histórias para crianças" e se observarmos mais atentamente perceberemos que TODA HITÓRIA INFANTIL TEM UM COMPONENTE SEXUAL. E esse conteúdo é que "excita" a criança-ouvinte e a faz "gostar da história". É o fruto do período de desenvolvimento da libido, quando as fantasias são as mais fartas e são colocadas na história pelo autor com suas próprias sensações infantis. E o rei (pai) ou a rainha (mãe) impedindo o casamento da princesa (personagem da libido) com o plebeu (o "partner" da libido) e mais a "mulher ruim" (a consciência condicionada) que "castiga" a princesa (que quer fazer o que ainda não pode, pois deve preservar a castidade, segundo o código moral).

Ê realmente muito difícil encontrar nas histórias "um bruxo", mas comuníssima a presença "da bruxa," já que consciência è termo feminino. Quando essas "lembranças" se enfraquecem, ou as fantasias se "resolvem", elas se tornam "reminiscências",ou seja, uma lembrança "vaga" que parece que não é nossa, que vem de outro mundo pois, dizemos, "não sei como isso me veio à cabeça". Esse é um dos mecanismos de manifestação das "reminiscências adquiridas": lembrar o que não existiu PARA A PESSOA. Quase poderíamos dizer "usar a memória do outro". Mas não é só esse o caso de "usar a memória de outro".

Vejamos outro tipo de "reminiscência adquirida". Todo o mecanismo é praticamente o mesmo. Uma das exceções, e fundamental, é que o fato ou a situação ou o ambiente "lembrado" nunca fez parte de qualquer narração, nunca foi vivido pela mãe gestante, nunca foi encontrado em leituras, filmes cinematográficos, fotografias vistas pela pessoa que "lembra". Enfim, não se encontra em todo o passado da pessoa qualquer fato ou circunstância em que uma imagem pudesse ter sido produzida em sua mente, imagem essa que, mesmo com transformações causadas pela fantasia, corresponda à coisa “lembrada". São nesses casos que surge com mais vigor a hipótese ou a convicção da reencarnação. Mas, "tomar a memória de outro" em nenhum momento é "reencamar" em seu sentido vulgar. Aqui, as impressões da mãe gestante, das histórias de fadas ou de fantasmas, são substituídas pelo que Jung chama "sincronicidade".

Relembrando um pouco, o processo chamado mais tecnicamente por Jung de "sincronicidade" é o que vulgarmente se chama de "percepção extrassensorial", ou "recado do outro mundo”, ou "visão”, etc. É o caso de "saber" o que está acontecendo em qualquer outro lugar, no momento em que a coisa acontece sem o "adivinho" participar do acontecimento. Muitas vezes essa "visão" não é tão sincronizada, pois vem através de sonhos. Outras vezes a "percepção" é anterior ao evento e ainda outras vezes é posterior. Note-se que, nesse último caso, sendo a "percepção" posterior, mesmo assim a pessoa que sente que "tal coisa aconteceu" recebe a "mensagem" sem nunca ter sabido do evento com anterioridade. É mesmo uma "adivinhação". O fenômeno a que nos referimos é o caso em que uma pessoa "sente" que alguém, por exemplo, acaba de falecer. E a pessoa realmente faleceu naquele momento. O caso de falecimento é, sem dúvida, o mais comum e corrente mesmo entre os que não são "sensitivos", isto é, a sensação é sentida por qualquer pessoa sem nunca isto significar que tal pessoa é excepcional, paranormal ou, enfim tenha qualquer "dom" que outra pessoa não possa ter. Outros casos que não a morte, exigem mais "acuidade" do "receptor". Mais cuidado, no sentido de que muitas pessoas "não prestam atenção" aos seus próprios pensamentos, fenômeno típico dos chamados “dispersivos”, ou “aéreos”, ou ainda “desligados”. Dizemos que os que participam de um "fenômeno" (que não é fenômeno nenhum) dessa natureza, simplesmente têm "sintonia" com a outra pessoa. É, pouco mais, pouco menos, a mesma coisa de ser simpático ou antipático a alguém. Temos mais sintonia com as pessoas de quem gostamos e será dessas pessoas que vamos "receber" mentalmente a notícia de sua morte. Vários estudos têm conduzido à explicação de que o "morto" quer avisar o "receptor" de sua morte. No momento da morte, sabemos, o agonizante tem pensamentos realmente fortes e, portanto, eficazes para serem "transmissíveis", similarmente às que demonstrou Rhine sobre a transmissão do pensamento entre vivos. E isso não é absolutamente nada sobrenatural, fundamentalmente porque o "aviso" é "transmitido" ANTES DA MORTE do personagem, isto é, ainda enquanto vivo. É simplesmente uma questão de maior ou menor sensibilidade do "receptor" naquele momento. E essa "sensibilidade" provém de vários fatores.

Um deles, como todos sabemos, por exemplo, é que durante moléstias infecciosas as pessoas se tornam mais "sensíveis" mentalmente. O mesmo acontece com o enfraquecimento físico. O jejum tem o objetivo de enfraquecer o físico para tornar a mente mais sensível e com maior poder de "concentração". Era o que Jesus fazia e aconselhava. É o que faz o hindu. É, em parte, o processo da yoga através do relaxamento físico. Em qualquer desses casos o resultado é o mesmo: maior concentração mental e maior sensibilidade psíquica. Se tais pessoas forem naturalmente impressionáveis então acharão que tudo vem do outro mundo e que a sensação que sentem é um privilégio dado por Deus. E não é nada disso. É tudo muito natural e humano e daqui da Terra mesmo. Porém, o que nos interessa é a existência da capacidade perceptiva sem uso dos cinco sentidos conhecidos e exercitados pelo homem. Evitamos aqui a palavra "percepção extrassensorial", que é a correta, para evitar confusão com fenômenos classificados como "paranormais". A percepção extrassensorial não tem absolutamente nada de "anormal". E essa percepção é responsável pelo fenômeno da "sincronicidade" de Jung, ou da "adivinhação" vulgar. Nós, pelas duvidas, preferimos chamar a esse fenômeno "Simultaneidade coincidente”, um nome mais científico para a "transmissão de pensamento".

Porém, há uma diferença entre uma coisa e outra. A transmissão de pensamento se entende proposital, exercitada e se refere exclusivamente a pensamentos. A "simultaneidade coincidente" se refere, além de pensamentos, a ocorrências físicas a fatos ocorridos no momento em que outra pessoa pensa, sem provocação nessa mesma ocorrência, no momento em que ela acontece. O processo tem muito da percepção extrassensorial da intuição, principalmente quando, como a intuição, a percepção extrassensorial ocorre ANTES do acontecimento, sendo a grande diferença a que a intuição "percebe" que algo "vai ocorrer", mas dificilmente sabe "o que", enquanto a percepção extrassensorial sabe, antes de acontecer, "o que" vai suceder. Qual é o processo, o mecanismo mental do fenômeno? A percepção se dá pelo uso da "reminiscência espontânea associada", ou melhor, pela associação da reminiscência com o fato ocorrente, associação essa ativada pelo fator gerador ocasional ou ocasionado.

Mas toda essa segunda parte da demonstração das manifestações das "reminiscências adquiridas" não explica ainda o "eu já estive aqui", ou "esse não é meu nome", quando essas sensações não têm passado justificativo. E isso realmente ocorre. Sem dúvida é extremamente difícil ao mero observador, ou à testemunha da "lembrança", discernir entre "reminiscência adquirida" mencionada na primeira parte (distúrbios emocionais da mãe, por exemplo), das reminiscências adquiridas em "passado justificativo". Isso porque ao observador e à testemunha não é dado conhecer o passado consciente e inconsciente do "perceptor". Mas, se realmente não houver um passado reminiscente ou passado explicativo e justificante, então estamos frente a um caso de "reminiscência adquirida extrassensorialmente". Se recapitularmos o que foi dito sobre as "fontes de energia" para funcionamento da mente veremos que a mente não "morre" com o corpo e se manterá "viva" enquanto tenha uma "fonte de energia" para alimentá-la. Assim sendo, a mente "viva sem fonte própria (corpo)" também poderá "transmitir" pensamentos e sensações de sua memória. E somente poderá fazer tal transmissão à outra mente.

Assim, quando sem passado justificativo, alguém se "lembra" de algo que não aprendeu, não viu nem sentiu em sua vida, está "lembrando" por outra mente ou outra memória que não a sua. É uma reminiscência adquirida, é o "uso da memória de outrem".

O "chamamento" da reminiscência, ou seja, o fator ativador é o que chamamos "reminiscência espontânea", pois nasceu sozinha, do nada, espontaneamente. Ainda aqui, nenhuma possibilidade de "reencarnação". Não se trata de uma pessoa “vivendo” a vida de outra ou de uma pessoa “revivendo”, “expandindo” sua própria vida. Ê simplesmente um processo de "transferência de recordações", provocando no ser vivo uma "reminiscência adquirida".

E um terceiro processo pode ainda ocorrer, para esse tipo de "lembrança". É o caso de "associações múltiplas" de "conjuntos de idéias” ou "associação em cadeia" de vários "conjuntos" resultando em uma "lembrança original e INÉDITA”.

Antes, porém de analisarmos essa terceira possibilidade de ocorrer ao homem lembranças de coisas que "não conheceram" conscientemente, voltemos um pouco à reminiscência adquirida extrassensorialmente, porque é fundamental a perfeita compreensão desse mecanismo. Antes de tudo, é preciso bastante observação e astúcia para qualificar uma lembrança como "extrassensorial". Sabemos que é comum o esquecer-se algo sucedido há algum tempo e que, por julgarmos "sem importância", não "gravamos" com a necessária intensidade, pelo menos conscientemente. É uma recordação "meio apagada". Essas impressões que foram esquecidas retornarão um dia, sem a menor dúvida, sempre que ocorra uma "relação associativa", ou seja, sempre que algum fato, alguma simples palavra, gesto, ou alguma situação provoque a associação. E a ocorrência passada será então lembrada, às vezes com riqueza de detalhes, mas SEM A CARACTERÍSTICA DA REMINISCÊNCIA ESPONTÂNEA. Assim alguém pode "lembrar-se" de uma casa onde "nunca" esteve e descrever até os quadros que há nas paredes, em todos os seus detalhes e NÃO TRATAR-SE DE REMINISCÊNCIA EXPONTÂNEA ADQUIRIDA, mas simplesmente de recordação de IMPRESSÕES ESQUECIDAS pelo consciente, mas mantidas pelo inconsciente. Observe-se que muitas impressões SENSORIAIS são obtidas em ínfimas frações de segundos, como é o caso de impressões obtidas pela "memória fotográfica".

Ao passar por um lugar qualquer, vemos algo que nos impressiona. Mas, naquele momento, por discrição, pressa, por não poder "desviar a atenção", etc., "fotografamos" a impressão e nos esquecemos dela conscientemente. Mas a impressão ficou. Não é extrassensorial e será recordada quando for "ativada" por associação. Nesse momento da lembrança, diremos "eu nunca tinha visto isso antes, mas sei exatamente como é". E passamos a descrever a "fotografia" memorizada em todos seus detalhes e cores. Esse mecanismo de recordação não é nem reminiscência adquirida, nem espontânea, É o mecanismo comum e normal de "chamar" à memória uma IMPRESSÃO SENSORIAL, com a única diferença, no caso, tratar-se de uma IMPRESSÃO ESQUECIDA PELO CONSCIENTE que volta à memória por alguma associação. Poder-se-ia dizer que a lembrança foi espontânea, pois esse tipo de impressão esquecida NÃO PODE SER TRAZIDA À MEMÓRIA PELO USO DA VONTADE DA PESSOA, ELA É AUTÓNOMA, mas é associativa, portanto, não pode ser espontânea. Mas, note-se, ser de grande importância, que ela não é apática, ou sua recordação seria dificílima e incompleta quando ocorresse. Este é mais um caso de memorização por impressão sensorial e é comuníssima.

Também são chamadas de impressões extrassensoriais as impressões gravadas por "dedução" e por "indução". Esses casos ocorrem quando, por exemplo, lemos um livro, uma revista, ouvimos alguém expor em uma conferência ou até durante simples conversas com amigos, Nesses casos o que gravamos na memória não é o que foi lido, visto ou ouvido, mas "uma imagem trabalhada" por nós, "deduzida" da leitura, do que foi visto, ou do que foi ouvido e que pode não guardar nenhuma relação com o que foi sentido sensorialmente. Nesse caso a impressão sensorial provocou a produção de outras imagens, fruto exclusivo da nossa imaginação. AQUILO QUE GRAVAMOS REALMENTE NUNCA EXISTIU, NUNCA FOI VISTO, NEM NUNCA FOI OUVIDO, porque o que ficou na memória foi o que produziu nossa imaginação e nossa fantasia e não o que ocorreu realmente. Se dez pessoas lerem ou ouvirem uma narração, por exemplo, onde se diga "e a princesa entrou no castelo", é indubitável que nesse momento passam a existir dez castelos, um diferente do outro, na memória de cada um dos dez leitores ou ouvintes, com mais ou menos detalhes, segundo a imaginação, a fantasia e a cultura de cada um dos leitores ou ouvintes. Como esse processo ocorre com muita frequência na infância, quando ouvimos muitas histórias e na adolescência, quando lemos muita coisa que não podemos entender, é muito compreensível que esses produtos da imaginação sejam "esquecidos", mas tomados COMO REAIS. Porém, o "agente da associação" permanece. Assim, no exemplo, sempre que lermos ou ouvirmos a palavra "castelo" ela nos fará associar não ao castelo da história, mas ao castelo produzido pela nossa imaginação que nunca vimos, mas que podemos descrever em seus mínimos detalhes pela nossa fantasia, que foi o que realmente ficou memorizado. No futuro, se visitarmos um castelo, podemos "acomodar" tal castelo com o "produzido" por nossa imaginação no passado. "Acomodar" significa "reconhecer falsamente" em dado aposento do castelo, o aposento (que não havíamos imaginado) do castelo por nós imaginado. Esse reconhecimento é "fabricado" ainda pela imaginação e pela fantasia, INSTANTANEAMENTE, à medida que vemos o castelo real. Todo esse mecanismo pode operar mesmo com coisas "do outro mundo”, como pessoas falecidas há muito tempo, lugares que já não existem por terem sido reformados ou terem recebido construções, etc.

Todos esses “fenômenos" existem simplesmente porque o homem não se integra, não se "individua", na expressão de Jung, ou seja, o homem não procura conhecer seu inconsciente e "viver em harmonia consciente e inconsciente". Todo esse "fenômeno" é nada mais nada menos do que uma manifestação neurótica afetiva: "VER O QUE QUER para NÃO VER O QUE NÃO QUER, para não ver o que pode trazer recordações dolorosas, sensações de insegurança, um pouco de "Alice no país da fantasia". É um tipo de “fuga" e não de transferência, mas de "transformação". "Vou pensar nisso para não pensar naquilo outro", transformando impressões desagradáveis em "fantasias confortantes". Essa "transformação" não se da em momento futuro no que se vê a coisa realmente, mas no momento em que se produz a fantasia. O viver o mesmo momento no futuro trará, sem dúvidas, a mesma sensação e conforto espiritual que a pessoa sentiu no passado, quando produziu a fantasia. É "um sonho que se realiza", isso que muitos chamam de "reencarnação" para não confessar a fantasia inicial que, muitas vezes produto do inconsciente, é tão "segredo" quanto as experiências sexuais infantis, que o código moral proíbe de confessar espontaneamente, mas que surgem em quase todas as psicanálises.

Voltemos agora à "reminiscência adquirida" em sua terceira modalidade. Dizíamos que "associações múltiplas" de múltiplos "conjuntos de ideias" podem produzir um terceiro "conjunto" original e INÉDITO. É esse, talvez, o mais notável mecanismo disponível na mente humana. E, outra vez, não tem absolutamente nada de "sobrenatural", mesmo porque dizer que há coisas sobrenaturais no homem é o mesmo que dizer que o homem não é "natural". É um absurdo, simplesmente.


ASSOCIAÇÕES MÚLTIPLAS

As "associações múltiplas" não são "espontâneas", mas resultantes de uma associação inicial incompleta, de uma associação inicial imperfeita, por "transformação", por "reação" ou por “esquecimento".

Voltemos um pouco ao conceito de ideia como "conjunto". Dissemos que uma ideia é um "conjunto de símbolos associados". Quando se ouve por primeira vez a Ideia "mão", por exemplo, o símbolo físico, para ser "gravado" ou memorizado de forma que possa ser relembrado a qualquer momento, recebe da imaginação da pessoa uma série de "subsímbolos" que vamos chamar de "estímulo mnemônico". Temos assim que "mão" é registrada no cérebro, por exemplo, como "mão do homem", "mão do pai", 'da mãe'', "da criança", "mão que machuca, bate" "mão que acaricia", etc., dependendo, claro, da idade da pessoa, de sua cultura e de sua capacidade de fantasiar.

Formamos, então, um "conjunto mnemônico" onde "mão" é o símbolo central, o "núcleo da ideia", enquanto os "subsímbolos" formam o complemento de "estímulo mnemônico". Se a gravação foi "mão do homem", "mão" é o núcleo e "homem" o subsímbolo associado. Assim, para lembrar-se de "mão", lembramos-nos de "homem" e, trazendo à memória o "conjunto" diremos que "sabemos o que é mão". O símbolo "mão" é extraído do símbolo "homem", os dois símbolos formando uma "ideia" compreensível, "um conjunto". Porém, ainda mais, nosso cérebro sabe inverter as posições dos símbolos e perceber quando, por exemplo, queremos significar "mão" do homem da ideia "homem com mão". Nesse segundo caso o "núcleo" ou "símbolo central" passou a ser "homem”, ficando o símbolo "mão" como símbolo auxiliar mnemônico.

Para facilitar a compreensão, exemplificamos com um "conjunto” de apenas dois símbolos. Mas um conjunto ou ideia compreensível pode ter ao redor do núcleo ("ideia central") até centenas de "símbolos mnemônicos auxiliares", isto é, detalhes, cheiros, cores, e até sensações agradáveis ou desagradáveis que serão lembradas junto com o símbolo central JUNTAMENTE COM os símbolos auxiliares, ou seja, o "conjunto" é lembrado ou relembrado em seu TODO e em suas PARTES, já que os símbolos auxiliares são parte do "conjunto", e seu papel é o de ser "associativo", ser um caminho para atingir o núcleo, a ideia ou símbolo central.

Isso posto vejamos como se dá a associação incompleta ou imperfeita e seu mecanismo de "ativação". E também o que ocorre quando, como resultado da associação imperfeita, outro "núcleo”, que não o original, é associado pelos símbolos auxiliares ou parciais da ideia. No primeiro caso (associação imperfeita) os símbolos mnemônicos auxiliares conduzem a um símbolo central (a ideia) "distorcido" ou "parecido" com o original. Isso é muito comum com a lembrança de nomes: lembrar-se de PEÇANHA ao invés de ARANHA, PEREIRA no lugar de OLIVEIRA e assim por diante. Quando, porém, a lembrança é de nome ou coisa completamente diferente (desastre ao invés de Aranha) houve então uma "interferência" psicológica no mecanismo mnemônico. A pessoa REAGE à lembrança "Aranha” e a modifica. Outra "interferência" é a transformação. AÍ o símbolo central é definitivamente substituído por outro, sempre por razões psicológicas. A lembrança equivocada pode ser ainda produto do ‘‘esquecimento. Nesse caso, aliás, muito interessante, os "símbolos auxiliares" FICAM SEM SÍMBOLO CENTRAL e, assim, o "conjunto", a ideia fica incompleta, sem sentido.

Por fim temos a "associação errada" e a modificada evolutivamente. Ê o caso ocorrido quando o símbolo central é substituído por outro melhor, mais técnico, mais correto, correção esta feita pela evolução cultural da pessoa. A ideia é "aperfeiçoada" sem nunca perder seu sentido e seus estímulos iniciais. Ao contrário, nos casos de "aperfeiçoamento" as sensações agradáveis ou desagradáveis provocadas pela lembrança podem adquirir uma "nova força" e se tornarem muito mais presentes. A associação errada ocorre quando os símbolos auxiliares conduzem definitivamente a outro símbolo central (a ideia) que não é o original e a pessoa não percebe a mudança e continuará fazendo essa associação errada por toda a vida, adaptando automaticamente os símbolos auxiliares ao novo símbolo central. Observe-se que nesse caso o erro está em que os símbolos auxiliares NÃO LEVAM À IDEIA QUE A PESSOA EXPRESSA. Mas, o que chamamos de tal vez o MAIS NOTÁVEL MECANISMO DA MENTE HUMANA é a associação das partes entre si. A associação dos símbolos auxiliares entre si perdendo-se os núcleos originais.

Essa forma de associação pode ser "parcial" ou "completa". Será parcial quando somente um ou pouco mais símbolos auxiliares de um "conjunto" (ideia) se associa a um ou poucos mais símbolos de outro "conjunto", outra ideia, com a exclusão dos núcleos originais. Será "completa" quando todos os símbolos mnemônicos auxiliares de um conjunto se associam a um ou mais (até todos) os símbolos de outro conjunto. E será (a mais interessante) MÚLTIPLA quando os símbolos de um conjunto se associam aos de outros conjuntos sucessivamente. É o caso da associação MÚLTIPLA, formando um ou mais novos "conjuntos" com núcleos (ideia central) próprios, diferentes dos originais, sendo esses novos conjuntos igualmente pluriunitários e pluriuniformes, ou não, mas, o que é fundamental, possuindo todos os aspectos e características de uma ideia real, quando é puramente resultante da imaginação. Nunca ocorreu a coisa, nem nunca existiu, mas a pessoa terá CERTEZA que "viu" a coisa e que "viveu" a situação de tão real que é sua aparência, de tão forte que foi a imaginação.

Ora, em nosso exemplo vimos que o símbolo auxiliar "mão" é conteúdo do "conjunto homem" mas também "homem" que é núcleo em um conjunto pode ser auxiliar em outro. E esse auxiliar pode, por exemplo, associar-se a outros auxiliares ou a outros núcleos como "barba", "bigode", "cabelo", "bom" "mal', "engraçado", etc.. Tudo isso decorre do uso do "mesmo material mnemônico associativo" para gerar uma ou mais ideias diferentes que acabam por não se "fundirem", como seria de esperar, mas acabam "se confundindo" (aqui o mais importante e notável) e formando uma terceira ideia ORIGINAL E INÉDITA: é o que o homem chama de CRIATIVIDADE que pode tanto resultar em descobertas sensacionais, criações notáveis, esclarecimentos científicos para questões ainda obscuras, etc., como também em terríveis "neuroses de defesa", ou no que Freud chama "lembranças encobridoras", reminiscências infantis de coisas que nunca existiram, mas que estão absolutamente "vivas" na mente do neurótico que jura, porque tem absoluta convicção, que "viveu" tal fato, ou que "já viu tal coisa". Um bom e interessante exemplo de associação "transformada" é narrada por Freud, referindo-se a um expaciente, já analisado, relata, posteriormente, a seguinte "recordação" de infância:

"Conservo numerosas lembranças do tempo de criança, desde a mais tenra idade, e posso mesmo indicar as datas com toda segurança... Quero observar que, de qualquer modo, há cenas que meus pais me contaram repetidas vezes e que quando eles as relembram para mim não consigo discernir se elas já existiam em mim desde um princípio, se eu mesmo as vivi ou se são resultado das historias contadas por meus pais, (os grifos são nossos)... Mas há lembranças sobre as quais não sei o que pensar, nem encontro razão que justifique sua retenção em minha memória por tanto tempo. É o seguinte: Certa vez estava eu em uma pradaria onde havia muito verde e era muito densa. Entre as folhagens ressaltavam-se muitas flores amarelas, da espécie chamada “dente de leão". No alto da pradaria havia uma casa em cuja porta duas mulheres conversavam: uma campesina com seu lenço na cabeça e uma babá. Na pradaria, eu (que teria cerca de três anos ) brincava com um primo e uma prima, irmã dele, e colhíamos as flores. Já tínhamos feito uns buques pequenos e o mais bonito era o de minha prima, a menininha. AÍ eu e meu primo caímos encima da menina e lhe tiramos suas flores. Ela saiu correndo e chorando e quando chegou na casinha as mulheres lhe deram um grande pedaço de pão de centeio. Ao ver isso eu e meu primo jogamos fora as flores e corremos à casinha e pedimos também do pão, A campesina nos deu, cortando os pedaços com uma faca enorme. Eu me lembro até hoje que o sabor do pão era maravilhoso, delicioso." (Recordações Encobridoras, Pag. 140.0b.C.J)

Na verdade, nada disso aconteceu. Houve sim o passeio ao campo, o primo, a prima e as flores que não foram apanhadas nem roubadas da menininha, nem houve pão cortado com grande faca, sendo esses "símbolos" resultado da "transformação" do núcleo original que foi realmente o de "apaixonar-se pela prima", como confessou posteriormente o paciente, "restabelecendo" o "conjunto original".

Eis o que relata o expaciente (Op.cf.): "Vejo agora que ao forjar tal fantasia realizei algo como a satisfação de dois desejos reprimidos - a defloração e o bem estar material. (...) se trata de algo que jamais aconteceu e introduziu-se sub-repticiamente entre minhas lembranças infantis como se fosse coisa real o que não passou de fantasia minha".

Assim também fatos anteriores "fantasiados" aparecem como reais em circunstancias posteriores. A sensação original se perde, pois na infância as sensações são instintos animais jamais sentidos novamente pelo adulto, já que os instintos se transformam em impulsos ou "tendência racional condicionada". Se já é raríssimo uma "lembrança infantil" ser posteriormente narrada com fidelidade ao seu conteúdo original, que então dizer de alguém "recordar" momentos ou situações "vividos em outra vida anterior". Absurdo, talvez. Com muito boa vontade chegamos não a uma reencarnação ou "poderes sobrenaturais", mas sim e simplesmente chegamos à possibilidade de uma "reminiscência espontânea adquirida" ou ao*'uso da memória de outrem".

Comprovamos aqui que a ideia é um conjunto associado e assim é gravada na memória. Mas, esse conjunto pode "perder" seu núcleo (ideia central) pela sua transformação ou substituição (transferência). Assim o núcleo se dissocia do conjunto a que pertence. Os "restos" - material associativo, símbolos associativos auxiliares - não perdem totalmente, contudo, sua eficácia e passam a se manifestar de modo independente, quase sempre sem nexo aparente, pois lhes falta o objeto principal inicial. É quando esses "restos" de material associativo, dissociado muitas vezes por neurose de reação ou de defesa, CRIAM um novo núcleo, formando um novo "conjunto associado" ou se "aderem" a um núcleo (ideia) já conjunto, isto é, se "aderem" a um "conjunto associado" já existente, "rearranjam" os símbolos associativos auxiliares desse conjunto. Esse processo mental, geralmente alimentado por fantasias "fabrica" recordações da infância em um legítimo processo de defesa contra conflitos de afeto ou de lembranças que não podem ser “lembradas" (principalmente experiências sexuais). As recordações assim "fabricadas" são geralmente sem nexo, distorcidas, "forçadas”, que não coincidem muito bem com o novo núcleo.

Entretanto, e por outro lado, tal processo mental pode produzir uma NOVA IDÉIA, lógica, compreensível e completa, absolutamente ORIGINAL. É o que leva o homem a inúmeras DESCOBERTAS CIENTÍFICAS ou da vida comum. Ê, enfim, o que se chama CRIATIVIDADE. Quanto à memória e seu funcionamento o homem já sabe como uma informação "entra" (é gravada) no cérebro e como "sai" (é ativada, relembrada) do cérebro. Mas ainda não sabe o homem como as informações são RETIDAS no cérebro, pois é impossível saber quais símbolos associativos auxiliares cada indivíduo utilizou para "memorizar" exatamente o mesmo objeto, a mesma ideia. Ou seja, não se pode saber como cada indivíduo "codificou"' e "classificou" o objeto ou a ideia, já que essa "codificação" e "classificação", das quais emergem e são gravados símbolos associativos auxiliares, juntamente com o núcleo, são muitas vezes inconscientes, como podem ainda resultar de associações anteriores "erradas" ou "incompletas", que irão produzir conjuntos (idéias) mal associados e falsas recordações e lembranças do que nunca existiu, nunca foi visto ou nunca aconteceu realmente, isso quando não "derivou" para a CRIAÇÃO de uma ideia ORIGINAL e absolutamente NOVA.

Porém, como na história da falsa recordação infantil que transcrevemos, a pessoa diz ter uma "lembrança vívida", real, do acontecido que não aconteceu. Isso é um processo mental “de ‘‘ocultação”, mas para muitos é um caso de “reencarnação” dada a fidelidade com que ambientes, pessoas, nomes, etc., são mencionados por quem "recorda" o que não viu, sem ter para tal lembrança nenhuma explicação (consciente, eu digo). Vemos então que, pelo menos por esse caminho, não há nenhuma reencarnação. Ora, o mais próximo conceito de reencarnação a que podemos chegar é a "reminiscência espontânea não associada", reminiscência espontânea adquirida, aliás MUITO COMUM NOS SONHOS, corno veremos adiante.

Para um conceito de reencarnação são inconcebíveis as banais narrações e sensações de que "eu já estive aqui", do "eu já conhecia este lugar" e assim por diante. Grifados "sensações" porque a pessoa que diz que já viveu anteriormente um determinado momento atual realmente "sente", tem a mesma sensação que "gerou" a ideia gravada inicialmente, mas que foi "recusada" pelo consciente naquele mesmo momento inicial ou posteriormente, como resultado consciente de preceitos éticos ou morais obtidos na sua educação. Ademais, essa "reencarnação" não passa de "reassociação" de material mnemônico associativo dissociado de seu núcleo original-inicial por "transformação" ou por transferência, criando novos núcleos IMAGINADOS pela fantasia ou pela necessidade de "ocultar alguma coisa”. Não poderia haver reencarnação para um espírito "começar tudo de novo". O espírito só retornaria para aperfeiçoar- se, para aprender o que não conseguiu aprender em outro corpo, e a partir daí, e não para começar tudo do início. A reencarnação "útil" só se daria após a adolescência, quando o espírito poderia "aperfeiçoar-se”, ou tal reencarnação seria uma enorme perda de tempo, quando há modos muito mais eficientes para um espírito conseguir o aperfeiçoamento, o que é seu objetivo desde uma "primeira vida" ou em quantas "reencarnações" tivesse que fazer. Essa é a única razão lógica, aceitável e compreensível para um "retorno" à vida corpórea.


A CURA ESPIRITUAL

O homem continua "deslumbrado" com a daimonia e com a numidade que ele "pensa que tem" ou acredita que outros tenham. Não é fácil deduzir se tal crença é instinto ou simples medo. Medo porque o homem teme muito mais do que ama. Ainda mais, é característica do homem antigo ou moderno SISTEMÁTICAMENTE achar que tudo o que ele não entende É SUPERIOR A ELE ou “vem de outro mundo". O homem não se preocupa em entender nem mesmo os fenômenos naturais que ocorrem à sua vista todos os dias. Parece que é mais fácil pensar logo que é "do outro mundo", "superior às suas forças e ao seu entendimento" e deixar o problema na órbita de DEUS.

Porém ao fazer isso, o faz cheio de temores, "expulsando" a tentativa de compreensão e achando logo, cômoda ou "orgulhosamente", que pensar naquilo é "pecar". Essa atitude, muito conveniente para ser depois a gênese de una neurose ou de uma histeria, não é "santa" nem "beata" nem de respeito a Deus. É simplesmente o orgulho do homem para não confessar a si mesmo e aos outros a sua ignorância e a típica fobia ao desconhecido, quando não é simples preguiça mental. Entretanto, o homem venera e constrói seus templos para a daimonia e para a suposta numinosidade. Entre elas a "cura espiritual" que não é "cura" do espírito, privilégio da psiquiatria, mas cura do físico, espiritualmente, que também é campo da psiquiatria para os casos de neurose e de histeria, respectivamente. Entretanto é realmente fantástico o número de casos de "cura espiritual" narrados ou testemunhados por pessoas que merecem a maior credibilidade.

Excepcional, por exemplo, é o caso de José de Arigó no Brasil. Não sei o resultado das observações feitas por cientistas de vários países do mundo no caso dele. Parece-me que nenhuma explicação científica foi apresentada para vários dos casos de "cura" feitos por Arigó, curas essas referentes às cirurgias. Também não sei, infelizmente, o que ocorreu no pós-operatório: se o paciente ficou definitivamente bom ou se morreu ou se a moléstia voltou depois de algum tempo, hipótese essa última a mais frequente nos casos de "cura espiritual". É um pouco o caso que todo mundo lê a notícia, mas muito poucos leem o desmentido. De qualquer modo, o caso Arigó, como alguns outros, é realmente impressionante e excepcional, como o são vários outros, desde a altura de um Arigó até o mais simples e humilde "benzedor".

Mas o que faz a psiquiatria senão "cura espiritual" sem paramentos a serem usados pelo "curador"? Lucas era chamado "médico de corpos e de almas". Jesus também fez "curas" e assim por diante teremos muitas "curas espirituais" assinadas por personagens dos mais ilustres e respeitáveis. Também o psiquiatra faz curas espirituais. Só que ao psiquiatra ninguém chama de "sobrenatural" nem diz que ele possui dons "extraterrestres". Ele é simplesmente psiquiatra quando não é chamado de "medico de loucos". Porém psiquiatra quer dizer "curador de almas". Os objetivos ou os resultados da "técnica" do psiquiatra e a do *curador" é nenhuma quando a cura é obtida. Toda a diferença reside na nomenclatura: a técnica (portanto, "complicada") e outra simples e compreensível para a maioria que crê. Eliminada a nomenclatura resta que o "curador" usa simbolismos talvez mais "sugestivos" ou "convincentes" usando a fé ou o medo como "matéria prima", enquanto o psiquiatra usa argumentos e demonstrações da fácil explicação da doença, de suas origens "mentais". Em casos de extrema gravidade, como a possessão pelo diabo, o trabalho do "curador" é o mesmo, mutatis mutanti, do exorcista da igreja católica romana, que "expulsa o demônio" do possuído.

Muitíssimo mais que o "trabalho" do "curador”, que é individual, é o trabalho do exorcista nos casos de "manifestações" com características de epidemia, como o famoso caso das monjas na Idade Media. As histórias de Blatty em "O exorcista" e de Huxley em "Demônios da loucura" são duas literaturas simples, mas de muito bom e interessante conteúdo para algum esclarecimento do leigo. Tanto no caso do "curador" corno no do psiquiatra observamos a presença do mesmo elemento: a sugestão, sem o que, (considerem-se as várias formas de sugestão) não há cura. Mais importante ainda é observar que tanto as curas por sugestão praticada por psiquiatras, como as praticadas por "curadores" SÃO TEMPORARIAS e somente em raríssimos e facílimos casos a cura por sugestão é definitiva. Em psiquiatria a literatura descreve a cura por sugestão, por exemplo, dos casos simples de "histeria de ocasião" e de neurose por insegurança subjetiva (vontade-contrária) chegando até (já não simples) à esquizofrenia, como uma “extensão da neurose”. São exemplos claros dos resultados da cura por sugestão. Já outros exemplos, não tão simples, narram curas através de outras técnicas, também baseadas na sugestão. São a "auto-hipnose", a "sugestão induzida" a "derivação do sujeito" a "transferência orientada", etc., etc.

Nos casos clássicos de curas feitas por um "curador" a sugestão toma outro feitio e o que é realmente induzido ê o medo. A transferência orientada da psiquiatria passa a ser uma "transferência de defesa", ou até “transferência de acomodação". Casos típicos são as histerias com sua gênese no complexo materno, por exemplo. AÍ um "curador" não resolve o problema, mas uma "curandeira" o resolve. O histérico transferiu seu objeto da mãe para a "curandeira" (mulher) e isso com muita facilidade, pois no caso da curandeira não há o pai para atrapalhar e impedir a manifestação efetiva dos instintos reprimidos. Quando isso não ocorre a cura é induzida pelo medo ao "sobrenatural" e pelo medo da "vingança" do espírito, que teria o mesmo efeito do castigo imposto pelo pai. Nesse caso o inédito é "sublimado", muito convenientemente, pelo "doente”, que passa a ser, pela "cura", um anjo de bondade e resignação.

Observe-se essa palavra muito usada: "resignação". Traduzida ela quer significar "conformismo em não realizar o instinto reprimido". Ora, não há nenhuma resignação definitiva. O instinto não desaparece por encanto. Ele permanece latente, pronto a se manifestar à primeira oportunidade, exceto se houver "transferência de objeto". O amor à mãe passa, por sugestão do que cura, a ser "amor a Deus ou amor ao próximo", ficando o instinto totalmente reprimido, definitivamente, mas, nunca de forma consciente. Essa forma consciente somente é obtida pela psicanálise. Sendo ainda inconsciente a repressão, o instinto continua latente e pronto para se manifestar. A "cura" se daria, por exemplo, com o casamento, quando a transferência e a satisfação do instinto seriam definitivas, na grande maioria dos casos. Isso o "curador" não consegue obter. Mas o "curador", real e surpreendentemente (nunca milagrosamente), consegue "curar" por "dissociação do consciente", "estreitamento da consciência" ou por provocação do "estado hipnoide" em que o "curado" passa a viver em estado que corresponde a uma muito "boa sublimação” no melhor dos estilos. Encontramos também muitos desses "curados" em um estado pré-esquizofrênico ou para-esquisofrênico.

Assim o "curador" consegue curar "espiritualmente" muitas "doenças" físicas e é claro, quando essas "doenças" são manifestações histéricas. Inclusive o nome de cura "espiritual" é muito próprio para indicar uma cura por modificação do estado mental do "doente". Não negamos, assim, que um "curador" pode curar espiritualmente, como o pode fazer qualquer pessoa, que o "doente" respeite ou tema ou passe a amar. Por incrível que pareça o "curador" pode curar usando praticamente a mesma técnica do psiquiatra. A "encenação" é que é diferente. Medida pelos resultados, a técnica do "curador" é a mesma usada pelo psiquiatra. Dizemos resultados no sentido de que a "doença" desaparece. Mas as formas e as consequências são reais e definitivamente muito distintas. O "curador" invoca "poderes sobrenaturais", não dele "curador", mas de um "ente" espacial de altíssimo nível. Essa é nada mais nada menos que uma forma de "captar" a confiança ou o medo do "doente" ou a sensação de que ele, doente, é digno de ser tratado e, claro, "curado" por seres divinizados a quem deve respeitar e, o que é fundamental, deve obedecer. A desobediência poderá trazer "castigos" os mais temerosos e repugnantes e ainda a condenação a uma "eterna doença" quando não a loucura.

É muito difícil mesmo resistir a tais ameaças e muito mais fácil e simples "ficar logo bom", se não por esses motivos, que são muito fortes, pelo menos para sentir-se também divinizado, pois foi "curado" por um ser numinoso, sobrenatural. A "carga psicológica" é imensa para ser resistida. Daí a "cura". 

Mas tudo isso não quer significar que não há a cura. Sim há, apesar das consequências e, na maioria dos casos, da temporalidade. Mas o psiquiatra não faz coisa muito diferente disso tudo. A diferença básica e fundamental é que a cura obtida pela psiquiatria é CONSCIENTE pelo doente, pelo reconhecimento da gênese da “doença" pelo "enfermo”. Pode, sem dúvida, haver no tratamento psicoanalítico casos de sublimação, transferências, etc., se, por exemplo, o tratamento é interrompido ou o "doente" acha, em determinado momento, que "já está curado", sem o estar definitivamente. Aqui como ali existe o perigo da "recaída", ou da temporalidade da cura. Enfim, pessoas mais sugestionáveis são mais facilmente "curadas" por "curadores". As mais intelectualizadas são mais facilmente curadas por psiquiatras, sempre dependendo do grau e gravidade da doença, é claro.

Como dissemos, a técnica é, mutatis mutanti, a mesma. A nomenclatura é diferente. A sugestão induzida ou a “ameaça* de represálias ou de castigos eternos são diferentes e definitivamente a cura consciente existe em um dos casos e não existe no outro. Se eliminarmos a nomenclatura técnica do psiquiatra e usarmos as expressões comuns dos "curadores" e seus "jargões" indutores de sugestão veremos que ambos dizem quase que exatamente a mesma coisa, sendo o "simbolismo" e a invocação do sobrenatural usados pelo "curador" mais SUGESTIVOS ao "doente* sensível. O "trabalho" do "curador com seus assistentes" é muito similar nos resultados, ao trabalho do exorcista da igreja católica ou da "expulsão do demônio" feita por Jesus. Não queremos deixar de dar ênfase em que a "cura" dos "curadores" é alcançada por "derivação do objetivo" enquanto a do psiquiatra é alcançada pelo "tornar consciente a gênese da manifestação".

Dos muitos exemplos concretos de cura por uns e por outros temos o mais comum, talvez um dos mais simples, mas o que "impressiona" mais: a cura da paralisia em suas múltiplas formas, das mais simples as mais sofisticadas, sempre, como é óbvio, que tal paralisia seja pura manifestação histérica (o que é mais frequente do que se possa imaginar) e não seja na verdade uma enfermidade como a do paraplégico, sem perder de vista que muitas doenças SE TORNAM doenças somáticas reais por negligencia inicial na cura da gênese histérica, dando como consequência até mesmo a atrofia de órgãos.

O histérico não "finge” uma doença. O histérico tem realmente a doença física de que reclama os sintomas. É erro, e pode ser um erro grave, o comportamento às vezes até chistoso assumido pelos que convivem com um histérico ou um neurótico, alardeando que tal pessoa não tem doença nenhuma, que tudo é imaginário. Não é não. Como já vimos, a manifestação somática da histeria se dá em um ponto mais fraco do organismo físico ou no órgão mais comprometido, ou mais sensível e predisposto até por características hereditárias. Pode perfeitamente acontecer que o órgão escolhido seja o próprio cérebro, se for o cérebro o órgão mais vulnerável do histérico. Nesse caso podemos ter como resultantes perturbações motoras (dispraxias), por exemplo, o que, aliás, é uma disfunção muito frequente nas histerias e muito mais nos casos de psicopatias.

Essa dispraxia não é "psicológica" como os leigos mal informados "diagnosticam" muito rapidamente. Ela é real e deve ser tratada convenientemente por um especialista, no caso um neurologista e não por um psiquiatra. No caso da cura espiritual pelo "curador", uma providência dessas não é tomada pelos que cercam o doente ou por seus familiares. Então, mesmo que a histeria tenha sido resolvida, suas consequências somáticas permanecem. Essa situação é muitíssimo importante tanto para o doente como para o psiquiatra-analista. A atitude comum dos familiares do doente é de dizer e apregoar que ele não foi curado. Foi sim, A causa desapareceu. O que resta são consequências. Seria como dizer-se que o terremoto não acabou porque ainda há paredes rachadas que deverão ser consertadas. Assim são as consequências somáticas das histerias e eventualmente das neuroses (quando estas são “mistas").

Outra consequência do não tratamento específico das afecções somáticas é a RECAÍDA do enfermo. Essa recaída é muitíssimo mais frequente nas curas dos "curadores" do que nas curas dos psiquiatras. Aqui ocorre uma INVERSÃO causa-efeito. Se a perturbação ou o estado histérico havia promovido uma perturbação somática, agora se dá o inverso. O problema mental passa a ser resultante do sintoma somático. E isso é fácil de entender. Um histérico tem histeria por predisposição a tal moléstia. Assim ele é historicamente sensível. Ao ver que os sintomas somáticos permanecem ativos, a pessoa RETORNA ao problema mental, pois acha que não foi curada; "ora, eu ainda sinto a mesma coisa". Mas não sente realmente "a mesma coisa". Pode isto sim, sentir a mesma dor de cabeça (cefaleia), a mesma dismnéia, a mesma dispneia, etc. POR NÃO TER SIDO TRATADA DESSAS DISFUNÇÕES. Ocorre aí a inversão de causa-efeito para efeito— causa.

Até mesmo uma pessoa normal pode ter relances histéricos ou neuróticos quando percebe que um sintoma somático não desaparece rapidamente. Uma simples dor de cabeça se transforma, para uma a pessoa muito sensível, sem mesmo ter hiperestesia, em um "tumor cerebral" e daí infindáveis consequências de ordem mental. Vemos aqui a inversão. No primeiro caso a histeria provocou uma disfunção no órgão mais vulnerável. Agora a disfunção provocou uma neurose ou faz retomar uma histeria já curada. Pode-se formar então um círculo vicioso dos mais perigosos, pelo entrelaçamento de causas e efeitos, cada hora a causa se tornando efeito e o efeito se tornando causa, tudo isso levando a uma terrível dificuldade de diagnóstico correto e, por conseguinte, de tratamento correto. Chamamos a esse processo "função-memória": é quando o efeito se torna causa por "lembrança" da causa real, inicial do processo. Uma dor, por exemplo, com a mesma localização e a mesma intensidade da dor sentida antes da cura da histeria pelo combate à sua gênese, essa dor atuará como "disparador" e fará emergir todo o processo da neurose já curada. A enervação antes provocada pela neurose CONTINUA ATUANDO POR CERTO TEMPO APÓS A CURA, como se sua causa não houvesse terminado. A isto chamamos "falsa memória", muitas vezes também manifestada pelos "tic’s" nervosos. Os nervos inicialmente excitados psiquicamente passam a sofrer uma excitação automática, sem causa real provocadora da excitação, mas por falsa memória. O comando cerebral ou estímulo nervoso continua atuante, agora, mecanicamente. No caso, a solução é atacar ambos, simultaneamente, procedimento não aconselhável nos casos de histeria e neurose, quando os efeitos somáticos são importantes para a orientação do psiquiatra na confirmação da gênese da histeria ou da neurose. Mas quando se forma a confusão entre causa e efeito não vemos outra saída senão o tratamento simultâneo.

Sendo uma RECAÍDA da histeria, esta dificilmente será RECURADA, pois o doente achará que está perfeitamente bom ao não sentir mais os sintomas somáticos e geralmente interrompe o tratamento. No futuro tais sintomas retornarão, porque a histeria não sendo completamente curada, ficou em estado latente. Todo esse quadro não é perceptível ao "curador", pois ele quer ou precisa que as forças sobrenaturais pareçam infalíveis ou não conseguirá a cura. A recaída é então tomada como NOVA ENFERMIDADE, PORQUE A PESSOA NÃO ADERIU AOS RITOS DO ESTADO SOBRENATURAL e não os praticou. A falha definitiva da cura espiritual praticada por "curadores" desmerece os elogios e a credulidade que apresentamos anteriormente. A cura do "curador" somente é “definitiva" QUANDO O CURADO TRINSFORMA OS SINTOMAS EM PODERES SOBRENATURAIS QUE ELE AGORA "DESENVOLVEU" EM SI. Passa a ser assim um eterno doente, acomodado nos ambientes dos "sobrenaturais", quando não se achando um novo salvador dos aflitos. É uma forma de sublimação realmente penosa, pois que na sublimação “normal" o sofrimento desaparece, enquanto na sublimação por poderes sobrenaturais o sofrimento torna-se "necessário" para manter a pretensa numimosidade. Somente pela eliminação da gênese uma histeria ou uma neurose pode ser realmente curada. Mas, ainda que na maior parte das vezes a cura espiritual seja transitória, há que reconhecer que EXISTE tal possibilidade de cura que não está em sentido antagônico à cura de um médico ou à cura ortodoxa, tradicional.

Se tomarmos o uso de medicamentos como predispositório chegamos a um lugar comum na cura: a transferência ou a migração da energia. Para uma perfeita compreensão é preciso caracterizar bem cada caso de enfermidade. Mas em qualquer dos casos a transferência ou a migração de energia está incontestavelmente presente. Chamamos transferência de energia quando o enfermo "capta" energia de uma terceira pessoa. Veja-se bem que não dizemos que alguém "transmite" conscientemente energia, mas sim que alguém capta energia. Todas as pessoas transmitem sistematicamente algum tipo de energia. Basicamente energia positiva ou negativa. Para o equilíbrio do corpo e do espírito preciso adquirir o tipo de energia que falta, ou desfazer-se do tipo de energia que sobra. Observamos que uma pessoa perfeitamente equilibrada não tem poderes sobrenaturais, não cura ninguém e, o que é muito importante para a convivência comum, não enferma ninguém. Em outras palavras, o equilibrado não capta nem transmite energia em quantidades tais que causem seu próprio desequilíbrio. Haverá isto sim, muito pequenas quantidades de energia positiva ou negativa para transmitir ou para receber, mas tal transferência se dá quase que automaticamente, ou seja, sem encenações necessárias à predisposição a tornar-se transmissor ou receptor. Chamamos encenações os rituais usados para obter o estado hipnoide ou alucinatório, como por exemplo, o ritmo constante dos tambores nas feitiçarias africanas ou a música para "preparar o ambiente", ou a penumbra de algumas salas de tratamento, inclusive as dos psicanalistas.

O cenário, sem dúvida, ajuda qualquer espetáculo, quando não é mesmo necessário a ele, ou aos resultados pretendidos. Um filme cinematográfico sem cenário, ou uma peça teatral sem cenário, jamais causaria impacto nos espectadores, ou pelo menos o mesmo impacto que causa com cenários. O ar misterioso do que vai curar é tão necessário como o cenário. Ele é necessário não só para o que vai ser curado, mas também, e às vezes principalmente, ao "curador'*. Tudo isso funciona nada mais nada menos como um "condutor" de energia. Assim como precisamos fios e cabos para transmitir energia elétrica, também a energia psíquica necessita de "condutores" para melhor transferência. Como é óbvio, a energia transmitida somente é útil, somente é eficaz se for captada. Mas, que tipo de energia é captada? A necessária ao equilíbrio físico ou psíquico. A energia para tal equilíbrio é tirada dos outros corpos energéticos (todos) e só e preciso que, para captar, a energia disponível seja de igual qualidade à da que está sendo necessária ao equilíbrio.É tipicamente o que acontece quando ouvimos dizer: "Fulano me curou quando ninguém conseguia". Assim como a administração de um medicamento impróprio não cura, assim uma energia imprópria não faz "o milagre". A energia necessária é sempre a mais "carente" para o doente, ou seja, a mais necessária ao seu equilíbrio. Tal energia pode ser positiva ou negativa. Para efeito de raciocínio vamos dizer que energia positiva é o bem e negativa é o mal. Assim muitas vezes a pessoa precisa do bem, de pessoas bondosas que lhe transmitam energia positiva. E não é preciso ser curador para transmitir tal energia. Qualquer pessoa pode fazê-lo. Outras vezes o que falta é o mal, a energia negativa que também é disponível em qualquer pessoa que a tenha de sobra. Se considerarmos a raiva como uma energia negativa é muito fácil obtê-la de qualquer pessoa que nos aborreça. E há muitas. E a raiva nos impulsiona à realização de coisas extremamente boas.

Observe-se que nos estamos atendo à energia em si, ou melhor, ao desequilíbrio (necessidade de energia contrária) em si, sem nos preocuparmos, por enquanto com a origem de tal desequilíbrio, sem nos preocuparmos com a sua gênese.

A transferência de energia somente é possível com a condição prévia de que a pessoa a ser curada seja RECEPTIVA. Como no caso do hipnotismo, só se pode hipnotizar se a pessoa deixar-se hipnotizar. Assim aqueles que não obtêm cura espiritual são porque não se predispuseram a ser receptivos, ou em linguagem vulgar, "não tiveram fé". Isso porque o que é fundamental em qualquer dos casos é o DESEJO. A força do desejo ê tão transmissível que a podemos comprovar quase que diariamente. Uma mulher "sente" instantaneamente que um homem a deseja e vice-versa. O desejo é um estado psicológico bem maior que a vontade. Com vontade não transmitimos, mas sim com desejo. Principalmente quando tal desejo vem acompanhado de impulsos libidinosos. Esses são inegavelmente os mais fortes ou mais eficazes.

Compreenda-se que a presença da libido é tão pura quanto o pode ser um ato religioso, como o pode ser uma sublimação, que pode levar até à santidade, repressão personalizada ou transformada. Não se tome, então, o termo libidinoso como "palavra feia", apesar de sua conotação sexual e apesar do código ético e moral de muitas sociedades classificarem o impulso sexual como "coisa feia". Realmente a libido é coisa das mais sublimes para a existência do homem, para que o homem possa cumprir uma das suas "missões" na terra. Sua força é tremenda simplesmente porque é natural. Qualquer tipo de desequilíbrio dessa força resulta invariavelmente em neurose ou histeria ou psicose.

Vemos assim o PODER DO DESEJO como transmissor de energia, Sendo mais fraca a disponibilidade de energia a ser transmitida, mais necessária é uma forma qualquer de encenação ou de AUXÍLIO SUGESTIVO. Mas é muito possível obter-se a cura, ou o efeito por autossugestão, por autocura. É o caso da cura espontânea, cura das moléstias passageiras, que desaparecem por si só, tal como apareceram. Houve realmente uma cura por INDUÇÃO. Isso, aliás, é bastante comum. Nos outros casos é preciso que exista o estado de predisposição à cura. Nestes casos até um copo de água faz o "milagre" se a cura for obtida por autossugestão. Nesse caso, são dispensáveis todos os tipos de cenários ou de encenações, ou de uso de alucinatórios ou de ambiente misteriosos para induzir a sugestão ou o medo. É até muito curioso dizer que alguém pode se curar pelo medo, mas esse é um "medicamento" quase que infalível se bem induzido em "doentes" adequados. O medo INDUZ DESEJO DE SE LIVRAR DO SEU CAUSADOR e a pessoa vê que a única maneira de livrar-se daquilo é ficando "boa".

Vemos, então, que é possível uma transferência de energia e que o desejo é uma energia como muitas outras sensações, Mas, é da maior importância para nossas observações saber porque, saber qual a razão que levou uma pessoa a procurar esse tipo de cura para seus males, Sem medo de errar podemos dizer que tais males são produto, ou manifestações somáticas de histerias. Nesse caso, como na neurose de complexos matemos ou paternos e na neurose de afeto, o enfermo NÃO DESEJA ser curado pelos métodos normais. Ele PRECISA SER UM CASO RARO e não raciocina que casos idênticos ao dele existem aos milhares e não tem nada nem de raro, nem de coisa do outro mundo, Traduza-se SER CASO RARO por receber afeto ou transferir o objeto por substituição ou sublimação. O mecanismo de transferência de energia pode também funcionar à revelia do recebedor, que no caso é um receptor espontâneo.

Quando em estados relaxados ou despreocupados somos espontaneamente receptivos. O mesmo acontece guando estamos com uma pessoa de quem gostamos ou admiramos. Numa ampliação vemos que o estado receptivo pode atingir massas. É o estado alucinatório das massas em manifestações populares, sejam elas políticas ou mesmo "artísticas". O som dos BEATLES não é diferente, em efeito sugestivo, ao som dos tambores dos feiticeiros. Todos eles provocam o estado hipnoide, com todas as suas consequências. Assim, são auxiliares do desejo, ou melhor, da sua manifestação, TODOS OS MÉTODOS, do samba ao rock, a música suave e romântica para RELAXAR A VONTADE, mas que na verdade EXCITA A VONTADE e cria uma DESCULPA DE COMPORTAMENTO, para não tornar muito sério o posterior sentimento de culpa. Tudo isso seria um lado positivo. Mas existe a energia negativa, é claro. Vamos chamá-la de CONTRA-DESEJO, para os que emitem energia negativa, mas que só é realmente negativa para quem a recebe. Tipicamente temos o caso da inveja e do "mau-olhado".


INVEJA E MAU-OLHADO

Antes, porém, de considerarmos essas sensações, devemos recordar que é absolutamente necessário ao homem ter equilíbrio. Essa necessidade, ou essa tendência, é irreversível e está dirigida à psique e aos humores, pois sem tal equilíbrio não poderá haver vida saudável e o homem não encontrará sua harmonia com o Cosmos a que pertence e que é fundamentalmente equilibrado, harmonioso, com toda a natureza. Isso posto, temos que a inveja é tipicamente um desequilíbrio emocional com características histéricas. As sensações produzidas pela inveja pode derivar para sintomas somáticos, o que é frequente. Há, indubitavelmente, uma correlação entre a inveja, a instabilidade emocional, a libido e a neurose (alguns tipos). A pessoa emocionalmente instável o é porque não sabe exatamente o que quer, ou sabe o que quer, mas sofre de profundas inibições, ou tem já um "complexo de inferioridade”. A variação da causa está geralmente na idade da pessoa e na presença de problemas psicológicos não resolvidos.

Aqueles que com grande esforço e muita luta conseguiram afinal certa estabilidade econômica tendem à instabilidade emocional e à inveja. Isso, provavelmente se deve a que uma situação econômica condizente com o ambiente em que vive, ou ao que aspira, é muito mais importante do que um bom desenvolvimento cultural, para essas pessoas. NÃO TER É MAIS DEGRADANTE DO QUE NÃO SER. Disso resulta a grande preponderância da mediocridade no homem moderno. Daí conformar-se ele com a leitura das notícias e artigos dos jornais ou com os programas "educativos" da televisão. E isso basta para que ele se sinta "sábio": pode manter uma conversa animada com os amigos e mostrar seu conhecimento. Mas não se sente realizado nem feliz. No fundo ele sabe que não sabe e teme que isso seja descoberto pelos outros. Nesses casos, uma atitude típica é procurar a companhia de pessoas mais jovens, pois só aos jovens, incautos, ele pode "dar aulas” e, o que é pior, sente-se ele "importante", respeitado e sábio! O diagnóstico é infalível: instabilidade emocional, sentimento de inferioridade e inveja consciente ou inconsciente. Quem é SÁBIO e, sobretudo quem é CAPAZ, não sente inveja. Simplesmente aprende com quem sabe mais.

Porém, a instabilidade emocional, fonte da inveja, é muito presente nos casos de insatisfação da libido. Isso é compreensível e tolerável nos adolescentes, mas é problema psicológico no adulto. A repressão da libido por conceitos éticos, morais ou religiosos, por sentimentos prévios de culpa ou até por falta de oportunidade pela indecisão na escolha do “partner”, a repressão da libido dizíamos é diretamente responsável pela grande maioria dos casos de instabilidade emocional e suas consequências. Não só a repressão, mas também a insatisfação, ou a satisfação incompleta ou antinatural. O desejo é o agente provocador da inveja que não é, em si, uma sensação negativa consciente. A inveja é um CONTRA-DEJEJO. O invejoso não deseja que o outro não tenha, ou não faça o que lhe causa inveja, mas, isto sim, deseja ele mesmo ter ou fazer, ou se ressente de sua incapacidade (pressuposta) para ter ou de fazer aquilo que outro faz ou tem, inclusive a aparência física. O desejo do invejoso é dirigido a si mesmo, mas a energia produzida por esse desejo é transmitida em forma de CONTRA-DESEJO ou em forma de energia negativa contra o invejado. O invejoso, geralmente, não culpa a outra pessoa que tem ou faz o que ele invejoso não tem ou não faz: culpa a si mesmo, ou muito provavelmente culpa uma terceira pessoa, ou até toda a sociedade. Ê, no caso, uma autêntica DEFESA de sua incapacidade ou de seus problemas psicológicos.

A inveja é, indubitavelmente, uma sensação resultante de um estado psicológico enfermiço condizente a uma neurose (se já não existente, o que é o mais provável) e a uma histeria. Quando a inveja tem fundo libidinoso o invejoso corre um grande perigo e estará arriscando toda uma vida com problemas de difícil solução. Porque a inveja também é VÍCIO e vício difícil de curar por ser migrante pelo organismo do homem. Mesmo curada, ou satisfeita pela posse do que o invejado tem, a inveja mais cedo ou mais tarde, reaparece com outro formato. E assim indefinidamente, até converter-se em neurose de obsessão com manifestações mista de histeria, reconhecíveis por um comportamento possessivo em relação á outras pessoas. Temos então que o invejoso, como o possessivo, é um INCAPAZ. Ê um viciado, ou um doente que necessita tratamento e cuidados especiais na convivência com outras pessoas, principalmente por culpar outras pessoas ou até toda uma sociedade pelo seu estado de "infeliz". Aliás, esse “estado de infeliz" é sempre representado pelo invejoso, mas nunca é real. O que existe realmente é a sensação de incapacidade justificada neuroticamente pelo invejoso como "medo", ou abstinência para não cometer um pecado. 

Toda essa energia desviada dos objetivos normais e projetada no invejado, quando por este captada, o desequilibra energeticamente, com isso resultando erros de procedimento com consequências negativas, É quando se diz que "fulano me deu azar". Mas tudo isso depende e necessita da colaboração do captador, isto é, de sua passividade e, portanto, da sua predisposição para captar a energia negativa. Quem sofre as consequências da inveja TAMBÉM SOFRE DE INSTABILIDADE EMOCIONAL. A pessoa equilibrada não "recebe" a energia negativa da inveja, ou a recebe somente superficialmente, sem maiores consequências.

Já o "mau-olhado", forma derivada de inveja, tem outras conotações. Aqui há a intenção de causar mal ao outro. A energia negativa é dirigida diretamente ao invejado ou à vítima passiva. O mau-olhado é essencialmente um CONTRA-DESEJO que, curiosamente, não produz energia negativa na mesma intensidade que produz o DESEJO do invejoso. Enquanto a inveja é espontânea e incontrolável pelo invejoso, o mau-olhado é consciente e tem objetivos diretos. Por ser uma força consciente não pode ter a mesma capacidade de uma força inconsciente. A inveja é transmitida de inconsciente para inconsciente enquanto o mau-olhado só é transmitido do consciente para o objeto. Não se tome transmissão inconsciente como algo que "não sabe o que está fazendo". O invejoso sabe muito bem que está tendo inveja. Tem até sintomas físicos como, por exemplo, aceleração dos batimentos cardíacos ou da respiração, condições físicas essas idênticas as das pessoas que se concentram para obter transmissão telepática. O invejoso é consciente da inveja que sente, não há nenhuma dúvida. Somente acha que não tem culpa. A culpa é de outro, como vimos. O mau-olhado não tem conotação de desequilíbrio psicológico como a inveja, Ao contrário, o que produz mau-olhado tem alguma capacidade de concentração e, portanto, força psicológica. Essa força psicológica não é nenhum "poder sobrenatural" que requeira antídotos também sobrenaturais.

A terapêutica para um CONTRA-DESEJO é o equilíbrio, a estabilidade emocional e a vontade consciente. Outra vez, o equilibrado não é vítima de mau-olhado. Aquele que pratica o mau-olhado é um doente como outro qualquer. O cunho ou a conotação de maldade que acompanha o mau-olhado demonstra a existência de complexos reprimidos representados pelo DESEJO DE VINGANÇA. Esse desejo somente existe onde existe problema e seu campo é tão vasto, que quando se trata de gênese psicológica, até mesmo uma mulher que se casa amando o marido sente um forte desejo de vingança após o contato sexual. Ela foi "manchada" pelo mal. Principalmente quando não ocorre a satisfação plena, ou quando o ato sexual não foi precedido pela libido. A ignorância do fato de a mulher ter uma natural anestesia quando inicia sua vida sexual a conduz, por um trauma psicológico, a situação de mulher “fria" para o resto da vida. A "decepção" causada pela ignorância produz o complexo de incapacidade para o ato sexual e, conjuntamente, veja-se bem, produz não a inveja de quem é feliz no comportamento amoroso, mas um desejo de vingança: ou contra o homem que a decepcionou, ou contra as mulheres que se satisfazem. Esse desejo de vingança, aqui exemplificado com relações sexuais insatisfatórias, mas que ocorre por uma infinidade de decepções psicológicas, é esse desejo de vingança que, basicamente, produz o "mau-olhado", ou aquele que emite mau-olhado. Ele transmite ÓDIO em doses menores do que o ÓDIO provocado pelo AMOR.

Vemos, então, que “TODAS AS SENSAÇÕES PSCILÓGICAS FORTES" são transmissíveis. É o que chamamos de "bom ambiente" ou "mau ambiente" ou "ambiente carregado”. A energia despendida e posta para fora por extravasar a capacidade de retenção daquele que tem a sensação, "fica no ar" e é captada pelos mais fracos psicologicamente, pelos instáveis emocionalmente ou pelos predispostos captadores. Ê importante advertir que TODOS ESSES CASOS são de energia psicológica e não tem ABSOLUTAMENTE NADA DE SOBRENATURAL. Ao contrário, são perfeitamente normais para a espécie humana (ou não existiriam no homem) podendo, no máximo, serem mal empregados ou mal utilizados.


FANTASMAS, ALMAS DO OUTRO MUNDO
E CASAS MAL-ASSOMBRADAS

A derivação de impulsos e desejos reprimidos, ou sua transformação, podem levar a complexas formas de neurose e mesmo a alucinações (estas ainda não psicóticas), como são os sonhos alucinatórios. Um dos casos de repressão são os fantasmas e almas do outro mundo. Há fantasmas? Rodam por aí almas do outro mundo? Sim, há fantasmas e tantos quantos o número de homens existentes. Os fantasmas somos nós mesmos, ou são os modos como o consciente vê o inconsciente, quando este está quase pronto a revelar-se, a manifestar-se, farto de aguentar as fantasias do consciente. A alma do outro mundo é o próprio inconsciente que realmente vive em "outro mundo", que é o interior do homem e que nos "assombra" quando olhamos para ele.

Veja-se a expressão “as sombras". Vivemos nos assombrando quando não vemos "assombrações"? Não. Só nos assombramos quando vemos uma assombração. É que nem sempre reconhecemos conscientemente a assombração como tal, se ela estiver desprovida de mistérios e ambientes lúgubres. Nosso interior, nosso inconsciente, enquanto não integrado ao consciente, é, definitivamente, um ambiente lúgubre, por desconhecido e pela força persuasiva que emite. Os símbolos, linguagem do inconsciente, maneira como ele tenta manifestar-se, tenta ser entendido pelo consciente: são as "almas do outro mundo”.

E existem almas boas e más. Muitas vezes não nos assustamos quando deparamos com uma alma do outro mundo. Ela é até agradável. Ê quando convém ao consciente a mensagem do inconsciente. Porém, quando não convém ao consciente, o homem se assusta com sua percepção do mundo interior, do outro mundo com seus símbolos que ele mesmo, homem, criou e "esqueceu-se" deles. Passaram a ser almas do outro mundo maléficas, sempre que inconscientemente associadas a maus eventos, que originaram o simbolismo e reprimiram a sensação consciente. Quando a alma do outro mundo se mostra PROTETORA é benéfica, ela representa os símbolos inconscientes agradavelmente associados pelo consciente. São "lembranças esquecidas" de eventos agradáveis e, principalmente no caso, lembranças esquecidas de ENSINAMENTOS que conduziram a pessoa ou a sucessos, ou a evitar fracassos. Esses ensinamentos foram registrados pelo inconsciente e ao se manifestarem através dos símbolos mnemônicos conforma a "alma do outro mundo boazinha".

Os impulsos e desejos reprimidos por serem "maus" pensamentos ou maus desejos, passam a integrar o elenco dos "demônios", ou a alma do outro mundo má. Possivelmente o homem possui dentro de si muito mais demônios do que anjos. Isto porque é mais frequente a repressão de desejos e impulsos "maus"', cuja frequência se encontra justamente na face mais sensível do homem: infância e adolescência, fases mais críticas por serem fases do início da compreensão dos fatores sensoriais com repressão dos impulsos instintivos. O homem está sendo "educado". Todo esse processo de criação de anjo e de demônios no "outro mundo" (no inconsciente) se encontra, invariavelmente, em todas as pessoas, pois todos nós reprimimos, pelo menos, os impulsos libidinosos da infância e da adolescência por ser "pecado". Criou-se um demônio em nosso outro mundo. Se os impulsos foram sublimados criou-se um anjo. Anjos e demônios vão, mais cedo ou mais tarde, perturbar a pessoa que deixou latente tais conflitos gerados por ocasião da decisão sobre se o impulso é mau e deve ser reprimido, ou se o impulso é bom e deve ser guardado como relíquia. Dizemos que deixou latente, porque os impulsos e desejos quer sejam reprimidos como maus, quer sejam registrados como bons, NÃO SE ACOMODAM no inconsciente da pessoa, Assim, quando decidimos pela "educação" que ensina que o impulso libidinoso é "coisa má", nosso inconsciente se recusa a aceitar essa classificação e gera o conflito que mais tarde será chamado de TENTAÇÃO DO DEMONIO.

Esse é um tremendo FANTASMA com quem devemos conviver por toda a vida, até resolvermos o conflito ou ficarmos neuróticos, ou psicóticos, tendo inclusive alucinações como a de VER UM FANTASMA. A sensação de ver um fantasma é bem mais comum nas mulheres do que nos homens e essa sensação é idêntica à sensação experimentada nos momentos prévios à primeira relação sexual. O FANTASMA está sempre presente. A insegurança, o medo, a "luta de consciência" para "entregar-se" é acompanhada da enorme força da libido, do desejo de realizar o “mau ato”. E uma vez realizado o ato, lá se vai o fantasma, SEMPRE QUE A RELAÇÃO OU O ATO SEJA CONSIDERADO LICITO PELA PESSOA. Em caso contrário o fantasma não desaparece, mas fica muito enfraquecido pela dúvida sobre se o fantasma é um demônio ou um anjo. Será demônio sempre que a relação for insatisfatória ou incompleta. Será anjo sempre que a relação for coroada de satisfações completas. O demônio imediatamente se transforma em um grande amor nesse caso.

Mas nem sempre a existência de fantasmas e almas do outro mundo é de tão fácil identificação. São os casos mais sérios ou mais perversos, quando o demônio ou o anjo se escondem em símbolos alucinatórios e quando não foram gerados por impulsos libidinosos. Nesses casos a chance de enfrentar o demônio e verificar que ele não tinha nada do outro mundo, que não era fantasma nenhum é ou pode ser infinitamente mais difícil. São fantasmas que nos acompanham sistematicamente e que podem ser vistos sempre que olhamos para o outro mundo, para o nosso interior, que, aliás, é um "outro mundo" maravilhoso, apesar dos fantasmas. A pessoa que vê fantasmas QUER VÊ-LOS ou PRECISA VÊ-LOS.

A atração que a pessoa sente pelos fantasmas (ou a “contra-atração”, o ‘‘medo”) é muito forte, ou até violenta. O modo é, nesse caso e curiosamente, uma “sensação agradável”, uma sensação como a do "não quero mas quero", (exatamente como é a sensação previa ao primeiro ato sexual), até tornar-se irresistível. O ver ou o sentir fantasmas e anjos se não acompanhados da sensação "secretamente agradável" é, então, algo muito sério e a pessoa deve ser examinada por um especialista, no caso um psiquiatra.

Um complemento dos fantasmas é a casa mal assombrada. Vamos pensar: o que simboliza essa casa cheia de fantasmas que muita gente "vê" e "ouve"? Se excluirmos, para raciocinar, os casos de telecinesia e outros que pertencem ao campo da parapsicologia, REALMENTE vamos perceber que a casa mal-assombrada é nada mais nada menos, que o símbolo do nosso interior, da “casa do nosso inconsciente". Prova isto o fato de que ao sabermos que uma casa é mal-assombrada nossa imaginação dispara em fantasias sem fim, SEMPRE COM PREDOMINÂNCIA OU COM CONOTAÇÃO LIBIDINOSA. Casa mal-assombrada é um ESCONDERIJO dos fantasmas, exatamente como o inconsciente é o esconderijo dos nossos desejos e impulsos reprimidos. Não querer entrar na casa mal-assombrada é NÃO QUERER TORNAR CONSCIENTE o que está escondido no inconsciente.

Todo esse simbolismo é de rara felicidade pela perfeição das representações simbólicas sem interferência de culturas, erudição ou idade. Claro está que esses fatores criam símbolos mais sofisticados ou menos sofisticados. Por exemplo, se a cultura da pessoa tem fortes componentes religiosos então, a casa mal-assombrada é um TABÚ e jamais ela deve penetrar nessa casa. Em outras palavras ela deve conviver com a neurose ou a histeria ou sublima-la, convencendo-se que fantasmas e almas do outro mundo são coisas de Deus e do Diabo e, portanto, intocáveis pelo homem, ou ele será "castigado" até tornar-se ele mesmo um intocável! E não são nada raros os casos de pessoas que consideram a si mesmos intocáveis, que passam a não procurar relacionar-se com outras pessoas, nem socialmente e muito menos sexualmente, porque foram tornadas pelo PECADO, ou porque devem PURIFICAR-SE para serem redimidas do pecado de não respeitar o TABÚ. Esses últimos se sublimam pela hipotética redenção que muitas e muitas vezes é sublimação de sua inibição, da sua neurose, da sua real Incapacidade de relacionar-se, ou de sua incapacidade física de praticar o ato sexual. Esses se tornariam SANTOS, mas só para eles mesmos, porque eles são realmente DEMÔNIOS, ou dementes não curados. Todo fantasma é uma TENTAÇÃO. Todo alma do outro mundo é uma SENSAÇÃO. E haverá pessoa que não tema um fantasma? Não! Todos temem os fantasmas, porque é impossível “resolver” todos os conflitos (fantasmas) gerados durante uma vida inteira e que residem na casa assombrada, ou no outro mundo: no inconsciente.

Algum fantasma sobrará para assombramos mais cedo ou mais tarde na vida. O que é absolutamente certo é que todas as sensações, percepções, manifestações de qualquer espécie que dizemos virem do outro mundo, realmente vem do outro mundo que é nosso próprio inconsciente, eterno desconhecido, porque não queremos conhecê-lo, porque temos medo de conhecê-lo, porque muitas vezes NÃO INTERESSA, OU NÃO CONVÉM CONHECÊ-LO, para não termos que enfrentá-lo. Ele, inconsciente, não é fácil! E esses fantasmas que nos rondam são responsáveis por uma infinidade de comportamentos e de sentimentos (falsos) nossos. Honestidade, desonestidade, mentira, vícios tão sérios e profundos como o jogo, a inveja, a mentira, a masturbação, ou seja, TODOS OS VÍCIOS QUE CONDUZEM A OUTROS VÍCIOS OU DEFORMAÇÕES DO CARATER são, indubitavelmente, obras dos nossos fantasmas, esses sim, verdadeiros demônios.

Talvez alguém pergunte por que não mencionei vícios como o álcool e as drogas. É porque esses, como seus vícios similares, não são fantasmas, mas sim fugas dos fantasmas. Enquanto o jogador, por exemplo, ABSORVE o fantasma, o drogado TENTA afastá-Io ou trata de não enfrentá-lo, apesar de muitas vezes, encobrindo-se com a droga, represente as manifestações do seu fantasma, o que prova que o viciado em drogas tem, pelo menos, relances de percepção da existência de problemas que deveriam ser resolvidos. O jogador e o invejoso não têm essa "consciência".

De tudo isso depreendemos, que no fundo, até que é muito bom acreditar em fantasmas, vê-los e ouvi-los pois estaremos acreditando que ainda permanecem vivos nossos desejos reprimidos e talvez nos façam decidir resolver o problema. Deve-se é não temê-los, deve-se enfrentá-los, conversar com eles de forma o mais consciente, deve-se compreendê-los, pois estaremos compreendendo a nós mesmos. Deve-se "visitar" uma casa mal-assombrada, pois estaremos visitando nosso próprio interior. E podemos fazer isso todos os dias. Visitar a casa mal-assombrada não significa ação física de entrar em uma casa dada como mal-assombrada. A visita é espiritual, é psicológica por um lado, é e deve ser perfeitamente consciente por outro lado. É preciso ouvir com muita atenção e com muita predisposição os nossos fantasmas e estar muito atento as suas manifestações.

A tentação (representada ou simbolizada pelo medo) de entrar em uma casa dada como mal-assombrada é uma mensagem do inconsciente para que façamos uma visita a ele, que o penetremos e lá, encontrando-nos com fantasmas, devemos convertê-los em anjos conscientes, isto é, devemos praticar na vida cotidiana, conscientemente, todos os desejos reprimidos que não se contraponham à cultura da nossa sociedade. Não sendo isso possível, ou havendo proibições éticas ou morais para a prática dos desejos, devemos tê-los conscientes, aguardando una oportunidade de realizá-los e jamais reprimi-los a ponto de torná-los inconscientes, pois essa repressão é crime contra a integração do homem e sua realização como indivíduo.

Ao contrário do que possa parecer ver e ouvir fantasma é um sintoma que pode ser muito positivo. Mais que um sintoma é uma sensibilidade perceptiva que revela uma produção psíquica apreciável. Mas, insistimos em que fantasma é personificação etérea de problemas internos, são manifestações de desejos reprimidos e dos traumas não resolvidos. É preciso prestar muita atenção ao que faz o fantasma no momento em que é visto. Ele ri, chora, faz careta, voa, faz carinho, fala, é mudo, etc. etc. porque o que faz no momento que o vemos é reproduzir o que nós mesmos gostaríamos de fazer, ou de manifestar frente à questão reprimida. Se o fantasma ri, por exemplo, é que nós zombamos da proibição imposta pelo código ético ou pelo código moral para uma atitude que tivemos ou uma atitude que quisemos ter e a reprimimos. O fantasma vai expressar exatamente nosso verdadeiro pensamento ou nosso verdadeiro julgamento, que não foi expresso no momento próprio, quando ele surgiu em nossa mente.

O problema é de tal seriedade que TER MEDO DE FANTASMAS, mesmo sem nunca tê-los visto, É MAIS SÉRIO do que vê-los e ouvi-los. Quem tem medo de fantasma e de almas do outro mundo nunca tem um fundamento, uma explicação aceitável para esse medo. Essa é uma eficaz indicação da existência de problemas psíquicos que a pessoa não pensa em pelo menos tentar resolvê-los. A pessoa se apavora à simples ideia de enfrentar o fantasma de sua própria alma. E isso é tremendamente prejudicial, pois conduz, invariavelmente, às distorções de comportamento, com reflexos muito negativos na vida da pessoa e que ela tentará transmitir ao seu companheiro, aos seus filhos e à seus amigos, pela transformação do seu problema interior em MITO que a pessoa criará com perda do mundo real.

Quem vê e ouve fantasmas os vê ou os ouve de duas maneiras básicas: ou o fantasma FAZ O QUE ELA NÃO CONSEGUE FAZER, MAS GOSTARIA FAZER, ou o fantasma FAZ COISAS QUE JUSTIFICAM, QUE RATIFICAM, A CONCLUSÃO OU O COMPORTAMENTO DA PESSOA. O segundo caso é o mais perigoso, definitivamente. Os fantasmas e almas do outro mundo são um "sonhar acordado". Há sonhos que não contamos a ninguém, pois são reconhecidos como desejos inconfessáveis, dos mais banais e inconsequentes aos mais agressivos à ética e à moral. Por outro lado há sonhos (geralmente os mais importantes) que nos apavoram: são os chamados pesadelos. Mas, vemos que a classificação de pesadelo é dada tanto por quem sonha que está morrendo afogado, como pela donzela que sonha estar sendo deflorada, geralmente, no caso, por um monstro. Tais sonhos são as manifestações dos fantasmas anjos ou demônios, dependendo de cada sonhador.

Observe-se que muita gente VÊ FANTASMA, mas SENTE a presença de almas do outro mundo. Daí nossa decisão em separar os dois fenômenos mentais. O fantasma é ATIVO enquanto a alma do outro mundo é PASSIVA, um simples habitante do nosso outro mundo, do nosso inconsciente. Outra observação interessante é a que a alma do outro mundo é, na grande maioria das vezes, uma alma sofredora ou uma alma bondosa, geralmente com nuanças até de alma "triste". Já o fantasma é vigoroso. A diferença está no conceito que a pessoa tem sobre a manifestação libidinosa sem querermos dizer que fantasmas e almas do outro mundo estão SOMENTE relacionados com problemas da libido. Não. Qualquer problema mental é transformado em fantasma ou alma do outro mundo. Se fixarmos a ideia de que ver e ouvir fantasmas é SONHAR ACORDADO, ou estar em estado hipnoide, nossa compreensão estará completa e compreensível. Ver fantasmas é no mais íntimo do ser de quem os vê, excitante.

As visões de fenômenos sobrenaturais ocorrem geralmente quando a pessoa atravessa um período de transformação psicológica, seja pela entrada na adolescência, seja pela transformação ou expulsão de conceitos éticos morais e religiosos anteriormente adquiridos ou impostos. Nesse momento, principalmente, surgem os fantasmas "ao vivo", quando os sonhos não conseguiram trazer solução às questões e dúvidas, acompanhadas do desejo de optar por uma solução considerada imprópria, com ou sem fundamento. As visões são aqui tão fortes representações de desejos prestes a explodir que a pessoa consegue PERSONIFICÁ-LOS nas imagens de fantasmas, ou nas sensações de mensagens de almas do outro mundo. Esse fenômeno mental da personificação não é tão raro, principalmente nos "sensitivos", ou seja, nos hiperestésicos. Se tal pessoa sente um forte desejo de acariciar outra pessoa, mas não pode fazê-lo por uma razão qualquer, ela terá uma visão de alguém que se aproxima da outra pessoa e a acaricia, É a chamada projeção. Ela se projeta na "visão" e faz aquilo que desejava. Esses tipos de projeções são coisas do dia-a-dia e tão comuns que muitas vezes o próprio "projetante" não o percebe.

Igualmente alguém pode "ver" outra sofrendo um acidente. Chamam a isto premonição, adivinhação do futuro. Nesses casos há duas hipóteses: a "visão" é simultânea a um acidente que realmente está ocorrendo, ou a "visão" é anterior ao acontecimento. No primeiro caso ocorre o que Jung chama de "sincronicidade” e no segundo caso, função do instinto de conservação transferido, isto é, não queremos que aquilo aconteça a uma pessoa que necessitamos por uma razão ou outra, a uma pessoa de quem somos psicologicamente dependentes.

Há outras visões que são anseios. Queremos que algo aconteça e queremos com tal intensidade que a coisa realmente ocorre. Mas tudo isso, outra vez, não tem absolutamente nada a ver com fantasmas, almas do outro mundo que ajudam, ou poderes sobrenaturais. São sentidos normalíssimos do homem e como qualquer outro sentido é mais sensível ou menos sensível de pessoa, para pessoa. Quanto mais equilibrada for a pessoa menos chance terá de ver fantasmas, ou ter percepções premonitórias, pois isso é mais próprio dos hiperestésicos ou dos neuróticos, cuja sensibilidade aumenta espantosamente, impressionantemente, chegando mesmo a confundir pessoas menos avisadas, que julgam serem esses fenômenos ou processos mentais, coisas do outro mundo. E o próprio hiperestésico julga-se com poderes especiais concedidos a ele por Deus (e por que não pelo Diabo?).

Enfim, fantasmas, almas do outro mundo, visões e todas as coisas desse gênero são produzidos por nós mesmos e é só nos integrarmos com elas que desaparecerão, pois foram realizados os nossos desejos, impulsos e anseios, tudo muito naturalmente. O que resta é o desejo, claro que doentio, de ser ou parecer sobrenatural, ou do desejo compensatório da inferioridade, ou o de ser "superdotado".


OS “SUPERDOTADOS"

Vem a propósito essa expressão “superdotado”. Ora, não existe nem poderia existir alguém superdotado. Variando a compreensão do termo pelas várias interpretações a ele dadas, um superdotado é UMA PESSOA CHAMADA DE SUPERDOTADO POR OUTRAS PESSOAS, principalmente pelos parentes e amigos e nada mais que isso. Concordamos que existam SUBDOTAD0S, porém não definidos por esses critérios. Os assim chamados o são por se sobressaírem EM ASSUNTOS DETERMINADOS, geralmente não comuns à maioria das outras pessoas. Já dissemos que é absolutamente impossível aceitar que alguém diga que outro fala bem o chinês se aquele que o diz não sabe chinês.

Analisando, em princípio de modo geral, a razão porque alguém (normalmente jovem) é chamado de superdotado, verificamos que a causa inicial é uma surpresa e a causa final é um deslumbramento ignorante. Há PESSOAS QUE SE DESTACAM, mas superdotado deveria ser outra coisa. Familiares substituíram a palavra gênio pela palavra mais cabalística e mística de superdotado. Antes, quem demonstrasse maior facilidade e maior rapidez na compreensão de matérias julgadas (geralmente por leigos) "mais difíceis" era uma pessoa muito inteligente. Quando essa expressão começou a generalizar-se, porque todos os pais queriam que seus filhos fossem muito inteligentes e assim o chamavam e apregoavam aos vizinhos incautos e quando ser inteligente, ou muito inteligente, tornou-se expressão massificada, apareceu urna expressão substitutiva: gênio, Agora que ternos gênios com fartura aparecem os superdotados. É preciso mais ponderação, mais tranquilidade, mais assentamento e menos entusiasmo para classificar pessoas aparentadas ou amigas disso ou daquilo, Em primeiríssimo lugar SOMENTE UM GÊNIO SERIA CAPAZ DE IDENTIFICAR OUTRO GÊNIO. A formiga acha o mosquito um ser enorme! Vejamos algumas considerações sobre os chamados superdotados.

Por que razão esses chamados superdotados se revelam em matérias não comuns às massas, corno a matemática, a física, a música? Por que não há superdotados cozinheiros, padeiros, engraxates, encanadores e assuntos destes gêneros? Simplesmente porque aquelas pessoas que classificam outras de superdotados são, ou melhor, não são versadas no assunto na profundidade necessária ao seu inteiro domínio. Então, aquele que se sobressai nesse assunto será para o ignorante, ou para o medíocre, um superdotado. "Ora, levei anos para aprender isso e esse jovem dá aulas sobre isso, com a maior naturalidade”. Ora, digo eu. Se alguém levou anos para aprender alguma coisa e só a aprendeu superficialmente, o problema não está no que aprende rapidamente, o que é NORMAL, mas nesse que não consegue aprender. Seria um pouco como crer em Deus porque não sou capaz de fazer o que ELE faz.

Conheço jovens estudantes que não tiveram a infelicidade de serem classificados de superdotados e se mantiveram pessoas normais, mas que sabiam DECÓR livros de até 400 páginas! Sei de outros que sabiam de memória TODO UM CATÁLOGO TELEFÕNÍICO de uma cidade com cerca de 100.000 habitantes. É conhecidíssimo o caso de dois irmãos jovens, que trabalhavam em uma empresa comercial para substituir as máquinas de calcular. Respondiam instantaneamente o resultado de um cálculo comercial, fosse o cálculo de qualquer extensão. Essas pessoas não foram chamadas de superdotadas, mas sim de "curiosidades"! NÃO HÁ REGISTRO DE SÁBIOS QUE TENHAM SIDO SUPERDOTAOS na juventude. Eram, isto sim, muito aplicados e inteligentes, ou mais cientificamente, "com inteligência mais treinada", Já veremos isso.

Em qualquer caso a "técnica" usada para com o superdotado, no sentido de convencer os outros desse "dom'', é exatamente a técnica de doutrinamento usada em várias religiões. Muito interessante é observar que, se por um lado o chamado superdotado é um deusinho, por outro lado ele é TRATADO DO MESMO MODO COMO SE TRATA UM DOENTE, um excepcional. É até temido, como se teme o diabo. Mas vejamos o que ocorre, em que circunstâncias surgem os chamados superdotados.

O cérebro humano se desenvolve e se aperfeiçoa a cada geração. Tal desenvolvimento se refere exclusivamente à QUANTIDADE DE MASSA em um mesmo espaço craniano e o aperfeiçoamento se refere exclusivamente a um AUMENTO DE CAPACIDADE COGNITIVA. É um processo de mutação bem diferente do resto do organismo em geral. O corpo SE DESENVOLVE EXPONTANEAMENTE, o cérebro APRENDE SENDO ENSINADO. Imaginemos uma situação para tentar facilitar a compreensão: se tomarmos una criança de cerca de seis meses de idade, perfeitamente sadia física e mentalmente e a trancarmos em um ambiente escuro, simplesmente dando-lhe alimentos e se a retirarmos desse ambiente vinte anos depois, o que observaremos? Observaremos que a criança tornou-se um adulto fisicamente. Desenvolveu-se, cresceu, é um homem do ponto de vista físico. E mentalmente? O que sabe tal homem? Absolutamente nada! Absolutamente nada exceto as sensações instintivas como a fome, o desejo de eliminar excrementos e a sensação animal do sexo. Intelectualmente é um homem das cavernas, um Homos Habilis, se tanto. Isso porque ela não foi ensinada, nem dispunha de material associativo. Isso demonstra que não há DESENVOLVIMENTO MENTAL ESPONTÂNEO.

O conhecimento provém do aprendizado e só é possível obtê-lo por aprendizado. Essa nossa experiência imaginária demonstra, também, o que a ciência já comprovou fartamente: que o peso da massa encefálica, o tamanho da caixa craniana em relação ao peso do corpo ou ao tamanho do corpo, não influência em absolutamente nada o grau de inteligência da pessoa. Nem isso seria possível sem que se modificasse toda a espécie humana, pois se é o tamanho do crânio, ou melhor, da caixa craniana, que deveria guardar uma massa encefálica cada vez maior aumentasse a cada geração, só poderiam existir partos cesarianas, pois o tamanho da pélvis não possibilitaria o nascimento normal do superdotado em tamanho de caixa craniana. Então, nem tamanho nem quantidade de massa encefálica implicam na criação ou no aparecimento de super-homens.

O que realmente sucede é que o cérebro do homem aprende por ASSOCIAÇÃO E POR DEDUÇÃO; Já vimos como isso acontece quando falamos sobre a criatividade do homem. Agora bem, a dedução É OU PODE SER ESPONTÂNEA, independente da vontade da pessoa. E a dedução como o raciocínio INDUZIDO é resultante a existência de associações. Assim, quanto mais forem disponíveis elementos associativos, maior a possibilidade da criatividade, ou da existência de gênios. E a criança tem, sem nenhuma dúvida, muito maior criatividade do que o adulto. Só que a criança não sabe, não tem consciência do que está fazendo ao estar criando, isto é, tendo novas ideias E NOVOS CONCEITOS por dedução e por indução.

Isto posto, acrescentaremos que nos dias atuais com televisão e principalmente com a febre dos computadores, muito da criatividade das crianças e dos jovens são CÓPIAS mal feitas daquilo que vêm e ouvem, que não entendem e que memorizam criando material associativo auxiliar repleto de fantasias. Tais fantasias se tornam coisas REAIS para eles e, mais tarde, vão jurar que viram, ouviram e viveram tais fantasias. Isso, sem nenhuma dúvida, exercita a criança no uso do raciocínio e na dedução, ou no sistema dedutivo. O sábio geralmente começa como sonhador. Acontece que as fantasias da criança e também do adolescente impressionam o adulto, principalmente seus parentes e amigos mais próximos, que não tendo formação e, portanto, não tendo capacidade para reconhecer uma fantasia, um desenvolvimento mental NORMAL, passam a chamar a criança de "gênio” ou superdotado e aí está tudo perdido para uma criança ESPERTA e em fase muito boa de desenvolvimento. Ela passa a achar-se gênio, superior às outras crianças de sua idade, passa a evitar companheiros de sua faixa de idade dizendo que eles são muito infantis para ela. Inicia-se aí um processo de desadaptação da criança que será fatal para seu futuro.

Há muita confusão em reconhecer uma criança PRECOCE e chamá-la superdotada. O precoce, geralmente, é fruto do erro de convivência. Afastando-se de seu ambiente natural, que seriam outras crianças ou outros adolescentes, eles convivem com adultos, pais, tios e avós e a simples diferença de geração leva esses adultos a se assombrarem com o comportamento da criança. Há tempos atrás um adulto poderia surpreender uma criança brincando com carrinhos e bonecos. Hoje essas são encontradas brincando com caixinhas que chamam de computadores e que estão fazendo viagens espaciais. E usam nomenclatura, muitas vezes totalmente desconhecida pelos adultos que os observa, mas que eles ouviram na televisão.

Tratando-se de uma criança introvertida ela criará um mundo de fantasia (que não é fantasia para quem sabe) e, sem nenhuma dúvida quererá, desejará ser um CIENTISTA, como aquele da revista ou da televisão. A IMITAÇÃO é um processo normal de desenvolvimento e de criação de valores psicológicos que perdura até a fase adulta do homem. Mas os padrões de personalidade, os heróis, atualmente são completamente outros dos que eram a menos de duas décadas atrás, A diferença na evolução tecnológica entre as duas últimas gerações é simplesmente espantosa. E as crianças atuais convivem com essa nova tecnologia, incompreensível muitas vezes para os adultos de pouco mais idade. Então o deslumbramento, a aparição súbita de enxurradas de superdotados.

Tais crianças e adolescentes são mais que nada, estimuladas pelos adultos e porque os pais e avós se REALIZAM nos filhos e netos e roubam à criança o direito de ser criança, para tornar-se um objeto de satisfação de adultos. Dizer de si mesmo que é inteligente é constrangedor e inibitório. Dizer que o filho é muito inteligente é menos constrangedor e inibitório. Mas dizer que o neto é um superdotado não constrange nem inibe. Ao contrário é a LIBERTADE, é uma incrível sensação de realização como se o avô ou a avó fosse ele mesmo o superdotado. Daí trazerem as crianças à sua convivência, estimulando-as a ser, também, um adulto antes do tempo. Pode-se facilmente observar que os chamados superdotados têm uma linguagem que não lhes é própria, nem adequada. Usam os termos, as palavras usadas pelos adultos e ditas na televisão, de cujo sentido essas mesmas crianças nem sequer podem desconfiar, mas com as quais criam fantasias infindáveis. Tal criança é inicialmente chamada de PRECOCE para depois, persistindo-se nas circunstancias, tornar-se superdotado. Essas crianças serão adolescentes que nunca foram crianças e adultos que nunca foram adolescentes. E isso é terrivelmente maléfico. Seu desenvolvimento foi "truncado" e ela nunca será normal, o que é profundamente diferente de ser superdotada. O superdotado é um brinquedo delicioso de adultos, principalmente de parentes próximos. Enquanto criança de inteligência NORMALMENTE desenvolvida por um adequado ensinamento (treinamento) SEMPRE SERÁ INTELIGENTE, o superdotado, sendo o resultado de um falso desenvolvimento, tem sua superdotação insustentável no seu futuro. Até hoje, nenhum superdotado se manteve superdotado por toda sua vida. Ele somente é superdotado por um período da vida, períodos determinados, claramente coincidentes com o processo de desenvolvimento que deveria ser normal, se os adultos não atrapalhassem. E esses períodos de superdotados jamais retornam. Muito ao contrário, o que se observa é que uma criança que FOI superdotada se situa abaixo dos níveis médios normais quando se torna adulta. E a responsabilidade é dos adultos que com ela conviveram.

Partindo do que já dissemos, isto é, que NÃO HÁ DE DESENVOLVIMENTO EXPONTÂNEO DA INTELIGÊNCIA, e que o CONHECIMENTO SOMENTE PODE PROVIR DO APRENDIZADO, a questão do superdotado fica bem mais fácil de diagnosticar. Quando se encontrar um superdotado, ou quando se observar em uma criança atitudes que nos levariam a julgá-la superdotada bastará nos indagamos: "com quem ela APRENDEU isso"? A resposta é na maioria das vezes um tanto difícil para o adulto. Mas, se indagarmos a própria criança, ou se investigarmos seriamente as origens do conhecimento dela naquele assunto, descobriremos, indubitavelmente, a origem da CÓPIA e o herói que está sendo COPIADO pela criança, pois tornou-se um padrão para ela.

O que é absolutamente correto é que tal conhecimento, ou tal comportamento, NÃO VEM DO NADA. Foi ensinado ou copiado ou imitado. Ocorre que biologicamente é impraticável atingir grau de desenvolvimento superior ao conjunto biológico em desenvolvimento. O processo biológico de intelectualização é lento e progressivo. Não há saltos. E se os houver, haverá também um "buraco", um "oco" na personalidade total adulta. Faltará, invariavelmente, alguma coisa na formação biológica do indivíduo, que fatalmente resultará em problema na sua vida. Possivelmente a razão do superdotado não permanecer superdotado por toda a vida e, quando perde essa pretensa condição, desce intelectualmente a níveis inferiores à média normal. O que pode ocorrer (não considerando as cópias e imitações) no processo de desenvolvimento físico e mental são PICOS temporários. Vê-se, por exemplo, que subitamente uma criança cresce em altura. “Nossa! Como cresceu!" É uma expressão corriqueira em qualquer lugar do mundo onde existam crianças. O mesmo PICO pode ocorrer no desenvolvimento mental. Pode perfeitamente ocorrer UMA EXCITAÇÃO ANORMAL de neurônios, produto das modificações químicas do organismo, resultando numa EXICTAÇÃO DA INTELIGÊNCIA, ou tornando a criança ou adolescente muito mais ESPERTO, até mesmo hiperestático (se for introvertido) e muito ativo (se for extrovertido). Acontece que esse PICO cai, e cai geralmente bem abaixo do nível, como se fosse uma compensação do organismo pelo "esforço" extra feito.

É nesse PICO, e somente durante esse pico, que a criança ou adolescente demonstra comportamento que é tomado e chamado de superdotação. Esse estado que chamamos "pico" é tão natural como o que ocorre com qualquer um de nós vez por outra. Há dias, ou até momentos, que nos sentimos com um raciocínio leve e muito rápido, compreendendo facilmente tudo o que lemos ou ouvimos. Há outros dias que nos sentimos pesados e lerdos, quase que com preguiça mental. Esse "pico” ou estado de espírito é muito comum e natural nos estudantes. Há dias que entendem tudo com a maior facilidade e há dias que tudo parece incompreensível. Muitos desses estados são consequência até de estados físicos, mas é geralmente fruto de estados mentais de alegria, contentamento, de estar feliz consigo mesmo. É um estado de relaxamento e, portanto, de quebra de "barreiras psicológicas à tendência natural de contrariar pessoas”, de ser "do contra". É um estado anímico passivo e altamente receptivo. Após tal estado de ânimo e ao retornar à nossa personalidade normal, com todos os nossos problemas, já não sentimos a mesma facilidade de compreensão e em outros dias estamos perfeitamente "tapados".

Isso também acontece com o chamado superdotado. Quando ele sente que já não é superdotado, que passou a ser normal, mais inteligente ou menos inteligente que as demais pessoas com quem convive, pode esse chamado superdotado sofrer traumas dos mais sérios, inclusive o de sentir-se ignorante ou com problemas mentais. Ele não conhece ainda o que é estado normal e, principalmente, sente a falta dos assombros e dos elogios que se acostumou a receber. Sente-se então um desgraçado. Essa a principal razão porque queremos advertir pais e professores a darem a maior atenção e a terem o maior cuidado ao classificar uma criança simplesmente inteligente como uma criança superdotada. Ora, só poderíamos considerar alguém super ou sub se tomarmos a média como ponto de referência, como parâmetro, considerando essa média como "normal", já que será o padrão mais frequente. Com esse procedimento veremos que se a média de inteligência em um determinado ambiente ou sociedade for baixa, uma pessoa normal será classificada como “super". Se a média for alta, o normal será “sub". Uma pessoa que se sobressai em um ambiente é de extrema mediocridade em outro ambiente. Isso não ocorreria se existisse alguém superdotado. Ou é o caso de perguntar-se: superdotado EM QUE? E a simples resposta indicaria a inexistência de superdotado.

Como vemos o superdotado não se mantém nesse estado por toda sua vida, mas uma criança que desenvolveu normalmente sua inteligência SEMPRE SERÁ INTELIGENTE, o que definitivamente não ocorre com o chamado superdotado. Diremos inteligente no sentido vulgar, pois que cientificamente, ou melhor, biologicamente, basta ser da espécie humana para ser inteligente, isto é, ser capaz de aprender. O que existe é um maior ou menor desenvolvimento da capacidade intelectual, dependendo exclusivamente do treinamento recebido, isto, claro, não havendo problemas somáticos ou mesmo doenças físicas ou mentais que possam prejudicar, ou mesmo dificultar o desenvolvimento intelectual da criança. 

Queremos deixar absolutamente claro que não dizemos, em nenhum momento que não há crianças com maior facilidade de aprendizado do que outras. Pode, sem nenhuma dúvida, uma criança estar bem acima da média das crianças da sua faixa de idade em seu desenvolvimento de potencial intelectual. Mas é fundamental que seja uma criança mentalmente sadia e não um imitador de adultos, o que por si só revelaria um estado inicial patológico. Essa a nossa preocupação e o fundamento básico de nossas observações, de nossa crítica aos adultos que, sem maiores cuidados, vão rotulando, geralmente seus parentes ou seus alunos, de superdotados. TUDO QUE É NORMAL É ANORMAL e suas causas devem ser investigadas, compreendidas em seu real teor e, sendo o caso, essas causas deverão ser eliminadas para felicidade do "anormal". Uma criança sadia, viva e inteligente deve ser tratada NORMALMENTE, para que se desenvolva NATURALMENTE e, se tiver de sobressair-se, que se sobressaia NORMALMENTE. Não deve ela ser tratada como um deusinho, mas sim como uma criança e, sobretudo, deve-se sempre investigar cuidadosamente a "fonte" de seus conhecimentos e se eles são próprios à sua idade, isto é, se ela tem o necessário desenvolvimento biológico para compreender o que parece que sabe.

Em vários exames feitos criteriosamente em crianças e adolescentes chamados superdotados concluiu-se pela elevadíssima percentagem de 95% de crianças que viviam em ambientes impróprios, que simplesmente deslumbravam os adultos circundantes, mas que não mantinham uma conversação EM PROFUNDIDADE sobre o assunto em que eram consideradas superdotadas. Seus conhecimentos eram de TERMOS e FÓRMULAS, mas sem nenhuma real compreensão do uso da fórmula ou do significado do termo. Seus conhecimentos eram "conhecimentos sem inteligência". E, note-se, essa "fraude" não é iniciativa da criança. Ela simplesmente PASSA A JULGAR-SE PELO QUE DIZEM QUE ELA É. A Reação normal ou comum de quem acha que sabe um assunto é deixar de estudá-lo. Ao julgar que sabe tudo a criança DEIXA DE APRENDER, pois é muito mais satisfatório psicologicamente ser um "centro de atração", do que ser um sábio, que, aliás, a criança nem sabe o que é. Isto é uma transferência da fonte de afeto muito importante porque ANORMAL para seu desenvolvimento normal e sadio. É tipicamente uma necessitada de afeto NORMAL e que deve ser dado a ela, seja ou não, revele ou não vivacidade e inteligência acima da média da sua idade. É a única forma de mantê-las interessadas no desenvolvimento intelectual normal e, portanto, duradouro.

A inteligência de uma criança ou de um adolescente deve ser orientada com total independência para as conclusões dela, criança ou adolescente, e deve ser EXERCITADA. Mas nunca, como vem ocorrendo na maioria dos casos, nunca se deve passar à criança ou ao adolescente A RESPONSABILIDADE DE SER INTELIGENTE, DE SOBRESSAIR-SE. Esse é o caminho certo do fracasso se a criatura não tiver, corno seria anormal que não tivesse, a absolutamente necessária estabilidade "biológica, psicológica emocional”, condições essas que pais, avós e parentes não estão, em princípio, em condições de avaliar. Não façamos super-homens, mas sim façamos HOMENS!


SEGREDOS E MENTIRAS

Parece que o homem nasce com uma predisposição à neurose, como se neurose fizesse parte do seu desenvolvimento. É bem possível, ou mesmo correta a observação, sempre que as 'neuroses de desenvolvimento" sejam o que devem realmente ser: um exercício para a maturidade mental.

Quando ouvimos dizer que todo mundo é neurótico isso nos impressiona, nos faz descrentes, ou nos faz assumir comportamentos de defesa. No último caso a neurose já está instalada. Ensina-se que a gênese de toda neurose é um trauma ou um conflito não solucionado. No caso do trauma ele é causado por emoções, ou melhor, por sensações fortes e adequadas, ou em harmonia com os sintomas posteriormente emergidos. Essas neuroses geralmente passam à categoria de histerias ao surgir uma sintomatologia somática. É o caso das derivações das sensações reprimidas. E toda pessoa tem algo para reprimir. Uma inquestionável repressão é o "segredo" que deve ser mantido a todo custo. Outra é a mentira, que não pode ser revelada. Mentira e segredo fazem parte da vida da criança, do adolescente e do adulto e onde há segredos e mentiras há, necessariamente, a neurose, quando não a histeria, quando não a psicose. Tudo isso é muito mais importante do que pode parecer. Um segredinho ou uma mentirinha não faz mal a ninguém. Faz sim. E às vezes muito mal. A mentira revelada espontaneamente corrige imediatamente seus efeitos e, se a revelação for profundamente consciente, ela amadurece a pessoa. Mas a mentira não revelada e descoberta por outros, desmoraliza o mentiroso e o traumatiza por profunda depressão. O antídoto que o mentiroso encontra, sua reação, por incrível que pareça, é arranjar outra mentira, aparentemente com a intenção de compensar a mentira descoberta.

Quando não revelada espontaneamente, nem descoberta por outros, a mentira inicial, por menor que seja, necessitará de mentiras cada vez maiores para ser mantida. E isso ou se torna urna "acomodação", ou cria um mentiroso profissional que passa a viver a mentira como se ela fosse uma verdade e a tal ponto que o mentiroso, em determinado estágio, não consegue mais diferenciar o que é mentira do que é realidade: instalou-se definitivamente a despersonificação ou a aquisição de uma personalidade "eternamente representada". Instalou-se uma séria neurose que dependendo de sua base (mentira de maior ou menor consequência se descoberta) vai se transformar em características até de esquizofrenia. Assim, a mentira tem consequências inocentes ou até seríssimas. E o homem mente desbragadamente, com e sem nenhuma razão ou necessidade, exceto as necessidades neuróticas de afeto, ambição, vingança, etc.

Uma das origens mais comuns da mentira é sem dúvida o segredo. O segredo é por si mesmo uma repressão, como a mentira, Temos, então, uma repressão para encobrir outra repressão. Isso forma um círculo vicioso de muito difícil estancamento e assim é que a pessoa se perde em um verdadeiro labirinto de falsidades, de vida irreal, de preocupações sistemáticas, não encontrando mais a necessária tranquilidade, o necessário equilíbrio emocional para viver uma vida saudável física e mentalmente. O que tem segredos vive preocupado em esconder o segredo. O mentiroso conduz toda sua energia para esconder a mentira. Entretanto, aquele que tem segredos a encobrir é incomparavelmente melhor do que aquele que tem mentiras a esconder. Muito poucas vezes é necessário mentir para manter um segredo. Mas é sempre preciso mentir novamente para esconder uma mentira inicial. O segredo faz parte do desenvolvimento do homem enquanto a mentira o destrói psicologicamente. O mentiroso ou é ou se tornará um enfermo dos mais difíceis de serem curados. O desvio da personalidade é quase que total. Há, definitivamente, uma dupla personalidade e ambas sofrem muito se não apelarem para o cinismo que é a degradação final da pessoa, a perda total de uma possível personalidade tolerável, pelo menos. Mas, neste no momento nos interessa mais o caso do segredo.

Quem tem segredos tem neuroses, ainda que potencialmente, ou ainda que em forma latente. E isso não é difícil de compreender. O segredo começa, invariavelmente, na infância, quando a criança faz suas descobertas iniciais em seu próprio corpo. As primeiras manifestações incipientes da libido têm de ser guardadas em segredo. Porém, esses segredos são logo compartilhados com outras crianças e o problema desaparece sem deixar qualquer marca. O importante aqui é o despertar do “homos psicologieus”. O primeiro segredo infantil é o primeiro sintoma da função psicológica em funcionamento. E essa primeira manifestação é de defesa. Mas, ao mesmo tempo em que a descoberta deve ser escondida, a criança toma consciência, ainda que precária, de sua função biológica. Apesar do segredo, ela se sente gente, sente orgulho interior, sente satisfação. A etapa seguinte e quase imediata é sua mudança de comportamento em relação aos adultos. ”Eles não sabem que eu sei”, é uma forma de sentir-se como eles. O segredo tornou a criança "importante”.

O que a criança desconhece é que o processo de guardar um segredo é um comportamento de introversão. E, finalmente, um processo de repressão. Todos, ou quase todos, os segredos infantis colaboram para seu desenvolvimento psicológico. Os segredos criam controle das emoções e devem trazer equilíbrio emocional à criança. Todo esse quadro de comportamento indica que a criança sabe que os adultos têm segredos: são aquelas coisas que eles não contam às crianças. Ainda que para o adulto nada disso seja seu segredo e sim uma forma de educar, não interessando, no caso, se essa forma de educar é conveniente ou não, para a criança tudo o que lhe é escondido é segredo de adulto. E ela "precisa" ter também seus próprios segredos que jamais revelará aos adultos. Começou aí a guerra. Manter segredos é um jogo entre crianças e adultos e um jogo de certa forma sadio.

Mas a disputa teve início e nunca mais vai terminar. Na evolução, o segredo infantil contra os adultos vai se transformar em segredos de adultos para adultos. Então o panorama é completamente outro. A criança que gostou de brincar de segredo levará esse comportamento à fase adulta de seu desenvolvimento e, não havendo a necessária correção, tornar-se-á um adulto difícil, inseguro psicologicamente e finalmente tornar-se-á um mentiroso. Vemos, então, que o mesmo fator de desenvolvimento inicialmente muito bom e até necessário tornou-se um fator totalmente negativo na personalidade. Quando chega neste ponto, aquele que tem segredos tem neurose. O hábito sadio que levou a criança a armazenar armas para a sua defesa natural tornou-se uma arma para seu suicídio psicológico. Assim o hábito adulto de ter segredos é como uma fixação e, portanto, uma ausência de desenvolvimento, de amadurecimento psicológico. Isto ficou tão arraigado na personalidade do homem que até hoje se dizer que alguém é capaz de guardar segredo é um elogio a seu caráter.

Todavia, mesmo o guardar segredos dos outros é uma atitude infantil. Quem guarda, não revela segredos dos outros, se sente como uma criança, uma pessoa importante, agora por duas razões: uma por ser "de confiança" e outra pela ainda infantil sensação agradável e confortante de também ter um segredo. Em qualquer uma das hipóteses o que é importante é observar-se que se o segredo infantil serviu para o desenvolvimento psicológico sadio, essa criança, uma vez adulta, será um bom guardador de segredos dos outros e, portanto, revelará uma personalidade consciente e honesta. Seria necessário saber como ela se comporta com seus próprios segredos, pois ela poderá guardar muito bem o segredo dos outros, não por honestidade, mas por "treino" em guardar os seus próprios. Ter segredos para o adulto é, repetimos, um desvio considerável de sua personalidade que deve ser cuidada e corrigida. É sem nenhuma dúvida um estado neurótico se não histérico. Tudo isso é bem demonstrável nos resultados da psicanálise pelo método de associação livre, quando vemos que ao tornar consciente a gênese de um problema esse problema desaparece imediatamente e a cura é definitiva.

O mesmo ocorre com o segredo consciente. Veja-se que no exemplo que mencionamos do tratamento psicanalítico, a gênese da neurose ou da histeria É INCONSCIENTE. Já no caso do segredo ele é CONSCIENTE. E tão consciente que o guardador de segredos vai sentir-se mal de certa forma, sempre que uma situação, ou ate mesmo uma conversação, ameace o descobrimento do segredo, por lapso seu, ou por perspicácia dos observadores. Essa ameaça pode até causar um verdadeiro pavor, com suores e mal estar e com a fuga da pessoa do ambiente que ameaça seu segredo, ou desesperadamente tentar mudar o rumo da conversa.

Devemos considerar com muito cuidado dois estados mentais completamente diversos como resultantes da conservação de segredos. Um estado mental é o de absoluto bem estar. A pessoa vive, saboreia seu segredo, cria fantasias com ele e sorri à sua simples lembrança. "Tenho uma coisa que é só minha", ninguém pode tomá-la nem dela compartilhar. O estado mental oposto é uma permanente inquietude, um permanente desconforto, um permanente medo por achar que o segredo é maior que suas forças para mantê-lo como tal. Outras vezes é uma questão de consciência. Note-se a diferença entre duas pessoas que testemunham um crime, que vêm um assassinato, mas que ninguém sabe que elas viram. É seu segredo. Uma, como a primeira que mencionamos, sentir-se-á feliz por ter esse segredo. Dirá aos parentes e amigos que "sabe como se assassina uma pessoa?" e, intimamente se diverte, e muito, quando alguém lhe diz que ela é incapaz de sequer imaginar como é um assassinato. Eia sente-se "superior" e guarda cada vez com maior carinho o seu segredo. É capaz até de pensar em escrever um romance policial em que a cena do assassinato seria tão real, que o livro seria um sucesso. E o segredo se mantém e a neurose também.

Já a pessoa do segundo exemplo sentir-se-ia inquieta e corresponsável do assassinato por não contá-lo a ninguém. Essa pessoa sentir-se-á mal ao ler notícias de assassinatos nas páginas policiais dos jornais. Dormirá mal, terá pesadelos, enfim, terá uma vida de tormentos enquanto não revelar o seu segredo. São comportamentos completamente diversos que resultam da formação psicológica de cada um, não tendo nada a ver com sua educação propriamente dita, pois uma pessoa pode ser educada e ensinada a que não se deve mentir, mas nunca ninguém lhe dirá que não guarde segredos, porque como todas as pessoas têm segredos, ninguém ensinará a outra que deve revelar os seus e os segredos dos outros. Além do que a sociedade ensina isto sim, que aquele que não sabe guardar um segredo não e uma pessoa honesta e confiável.

É um julgamento em causa própria, portanto, não é um julgamento válido. Então afinal o que é o correto: guardar um segredo eternamente, ser uma pessoa honesta e confiável, ou não guardar segredo nenhum e revelar a todos os segredos nossos e os que nos foram confiados, ou que descobrimos?

É importante diferenciar entre ter um segredo, guardar um segredo e descobrir um segredo. No caso infantil que exemplificamos a criança, em suas experiências e nos seus descobrimentos, cria segredos de duas espécies: "descobre", por exemplo, seus órgãos sexuais e faz segredo disso. Mas também descobre o segredo dos pais, descobre uma coisa que era segredo dos adultos e dessa descoberta ela guarda segredo. É um segredo do segredo. Em cada um desses casos o processo psicológico é diferente. No primeiro caso o segredo da criança é uma defesa contra um temor. É uma defesa CONSCIENTE contra um eventual castigo, uma defesa contra o complexo de castração, o sentimento de culpa, etc., dependendo de sua educação.Já no segundo caso, não há uma repressão, uma necessidade de manter o fato em segredo, acompanhada de frustrações, medo e outras consequências psicopatológicas. Há uma REAÇÃO, uma sensação de já ser igual ao adulto quando não de já dominar o adulto, pois que agora ela já conhece seu segredo. Agora ela é importante e o segredo consiste em esconder seu conhecimento e fazer-se de ingênua, mas com um forte sentimento de ser superior. É quando a criança inicia a demonstração de sua própria personalidade, respondendo com convicção ou até com malcriação ao adulto e cometendo seus primeiros atos de desobediência. Interiormente ela acha que não pode mais ser castigada porque possui uma a grande arma: o segredo do adulto. Estão em igualdade de condições. Ela, criança, agora é gente grande.

Ainda que tal comportamento seja muito mais revelado na adolescência, a "arma" contra os adultos já existe há muito tempo e foi como continua sendo, seu grande segredo. Esses são os tipos de segredos que chamamos segredos de desenvolvimento. Eles são inevitáveis e, normalmente, não trazem prejuízos posteriores à formação, à maturação da personalidade. Na juventude essa pessoa achará graça dos seus segredos infantis e mesmo os contará despreocupadamente a quem os queira saber, sempre que tanto o ambiente como os ouvintes sejam adequados e que não haja irreverência. Nesse caso a criança libertou-se do segredo sem deixar nenhum trauma ou defeito de desenvolvimento. Pode ocorrer, e ocorre com relativa frequência, que as observações infantis sejam equivocadas, como também que permaneçam pontos que não foram completamente compreendidos pela criança. Essas dúvidas permanecerão em segredo, agora acompanhado do temor de revelar, de confessar que não entendeu ou que não sabe. É nesse ponto que o adulto tem um papel da maior importância: à primeira oportunidade, esclarecer corretamente o adolescente ou o jovem, anulando completamente suas dúvidas, de preferência da forma mais científica possível, já que de outro modo o adulto nada mais fará senão transmitir suas próprias sensações e convicções, erradas ou certas, mas que de qualquer modo poderá não convir ao adolescente, pois como vimos, o aprendizado como qualquer processo psicológico é estritamente individual. Então toda a questão deverá ser discutida francamente para benefício de todos os envolvidos. NINGUÉM SABE SÓ POR SER ADULTO. É responsabilidade do adulto consciente não transferir às crianças e adolescentes suas impressões e sensações como se fossem elas as únicas certas e verdadeiras.

Os demais tipos de segredos têm conotações muito mais sérias: ou terão como consequências o desvio da personalidade, ou já se transformaram em traumas, com marcas de neurose ou de histeria. Fica, então, basicamente delineada uma resposta sobre se devemos ou não manter segredos: depende do segredo.

Temos outro tipo de segredo: o "segredo compartilhado" ou o segredo induzido por sedução. Muito longe das características do segredo infantil, esses segredos têm características patológicas, às vezes das mais serias. Iniciemos pelos mais simples. Se observarmos corretamente, descobriremos uma forma de segredo na nomenclatura dos profissionais. Esse é um segredo idêntico, em objetivos, a um dos segredos infantis: a autovalorizacão. Mas, se há necessidade de autovalorizacão há presença de sentimentos de incapacidade, insegurança ou de inferioridade. O uso corrente de nomenclatura técnica em qualquer profissão, fora do ambiente profissional, além de inconveniente é pernóstico. Quando um profissional usa nomenclatura técnica com outro profissional ele quer DEMONSTRAR QUE SABE. Quando usa essa nomenclatura com um leigo naquela profissão ele quer DIZER QUE É SUPERIOR.

Um terceiro termo seria o medo de que todos saibam como ele sabe e, assim, perder sua superioridade no assunto. Esse tipo de comportamento é altamente indicador de problemas de personalidade. A sensação de um profissional ao usar termos técnicos na conversa com outro profissional DO MESMO NÍVEL é praticamente nenhuma. A sensação ao usar os mesmos termos com um novato na profissão tem conotação de jactância. Ao usar com leigos a sensação é de absoluta superioridade.

Fazemos aqui uma necessária ressalva para o uso de termos técnicos indispensáveis ou intraduzíveis. Por exemplo, o termo "gravitação" tem um enorme envolvimento com muitos fenômenos físicos. É difícil a um físico usar outra palavra que a substitua. Se disser "atração" não expressará o que deseja. Se disser “atração recíproca", dirá algo sem sentido completo e assim por diante. Não há outra forma que não a técnica pare significar "massa" em física. Mas "inflação" em economia pode perfeitamente ser substituída por "excesso" sem grande prejuízo da ideia. "Cefaleia" em medicina pode, sem nenhum prejuízo, ser substituída por "forte dor de cabeça" que todo mundo entende. Mas a nomenclatura técnica incompreensível é parte indispensável do segredo que não pode ser revelado.

Outro gênero de segredo compartilhado é o das sociedades secretas, como os da "turma" de garotos. Não há muita diferença entre esses tipos de segredos. Compartilhar é necessário, como se o segredo ou fosse grande demais para ser de uma só pessoa, ou porque o segredo só terá efeito de segredo se dele participar um grupo. E isso se estende de um grupo de garotos em um bairro aos grandes doutores. Exemplo típico é o segredo compartilhado das religiões. O que se ensina ou se revela em um curso de teologia jamais será divulgado aos seguidores, aos fieis. Tais segredos podem ser classificados juntamente com os "símbolos coletivos". São "segredos coletivos". O que é muito importante em toda essa questão é que o segredo pode ser, e geralmente o é, como uma grande mentira que deve ser mantida para benefício de alguns ou mesmo de um só indivíduo.

Talvez finalmente, temos o segredo compartilhado por sedução, quando uma pessoa conta a outra seu segredo ao mesmo tempo em que a induz, que a seduz, para compartilhar, para ser sócia no segredo. É uma forma de sedução e de chantagem ao mesmo tempo. A pessoa seduzida tem de guardar dois segredos: o seu e o do sedutor. Tomemos um exemplo comum e corrente: uma mulher é infiel ao seu marido, ou uma pessoa pratica atos condenáveis pela sociedade a que pertence. Essa pessoa sentirá uma compulsão para arrastar com ela outra pessoa, de preferência de sua amizade e de princípios honestos. Trata de seduzi-la a praticar os mesmos atos. Com isso compartilha seu segredo, e, portanto, se alivia psicologicamente, corno também pensa criar um sistema de segurança para ela: se for surpreendida em seu segredo poderá usar como defesa o fato de que tal ato também é praticado por "fulano", que é una pessoa muito honesta. Portanto, o ato não é tão condenável assim, No caso de uma desconfiança e não de uma revelação do segredo, o "pecador" terá um defensor incondicional: a pessoa que seduziu para compartilhar seu segredo. Aqui se percebe a chantagem psicológica ou real mesmo. Dificilmente uma pessoa seduzida delata o sedutor. Sem dúvida que as consequências são um desastre psicológico e uma profunda alteração da personalidade da pessoa induzida. Se um homem quer trair sua mulher ou se uma mulher quer trair seu marido (e dizemos trair em qualquer sentido) que o faça, mas sem precisar ser seduzida por outrem que não o "partner" na sedução, nem tampouco precisa seduzir outras pessoas para praticarem os mesmos atos. Os casos de sedução são interessantes porque não pode haver sedução sem predisposição do seduzido. Esse seduzido já trás em si o desejo reprimido, ou jamais seria reduzido, do mesmo modo que é impossível a sedução para prática de atos a que a pessoa sente repugnância.

É interessante ainda observar uma transferência, agora de repressão. Do desejo reprimido a pessoa passa à repressão do segredo. Isso porque todo segredo é, em si mesmo, uma forma de repressão e, portanto, um indutor de conflitos, gênese de neuroses, ao mesmo tempo em que o fato de ter ou guardar segredos, sentindo com isso emoções agradáveis, é um comportamento neurótico no mais das vezes. Ê muitíssimo difícil encontrar uma pessoa normal, ou seja, psicologicamente estável, que possua segredos quer seus quer de outros. A tendência natural é repudiar o segredo, sentir-se desconfortável com ele e assim não absorvê-lo, nem mantê-lo em qualquer de suas formas. O que é natural é lutar pela tranquilidade interna e o anormal é excitar, muitas vezes até libidinosamente, a mente com segredos. A pessoa não normal chega mesmo a criar segredos que realmente não tem e que são puro fruto de suas fantasias e estas, é claro, produto dos seus desejos reprimidos.

A simples expressão "eu não tenho coragem de fazer isso" quando acompanhada de sensações excitantes é, também, acompanhada da ideia de poder fazer e de guardar o fato em segredo. Que criança não teve na vida um esconderijo? Mas adulto que tiver esconderijo tem fixação ou não se desenvolveu devidamente. O esconderijo-segredo no adulto é problema sério que sempre perturbará sua felicidade, seu bem estar, sua convivência normal e tranquila dentro da sociedade a que pertença, em que conviva.

Outro caso de dupla repressão é o segredo por sentimento de culpa. Tanto a culpa (mesmo que imaginária) é reprimida, como o segredo de sua existência, Esse estado psicológico é encontrado nas pessoas que, como já vimos, seduzem outras, geralmente amigos ou parentes, induzindo-as ao mesmo erro. É uma tendência à obtenção de conforto ao sentimento de culpa. O desejo inquietante de participar de determinados grupos ou sociedades é a esperança inconfessável, a esperança secreta de realizar desejos reprimidos, que com ou sem razão (e aí não interessa a classificação), se tonaram segredos. A pessoa humilde que "sonha" com a alta sociedade o faz porque vê no comportamento das pessoas que frequentam tal sociedade, uma possibilidade de realizar seus desejas considerados "maus". Já vimos que a realização da personalidade está na individuação e não na socialização. Na sociedade somente ela, sociedade, tem personalidade. Não os seus integrantes, necessariamente.


BUSCA DE “SOCIEDADES” OU GRUPOS

Em menor escala, mas tendo o mesmo efeito, é a necessidade de fazer muitos amigos. Ter muitos amigos quer dizer ser muito querido. É mais uma forma de desejo reprimido conservado em segredo, é urna necessidade neurótica, quando exagerada. Ter amigos, como participar em determinada sociedade, é "ter pessoas iguais a mim" ou "ser igual àquelas pessoas". Em um ou outro caso há uma necessidade neurótica. Dizemos que é neurótica apesar de o homem ser um animal social. Mas, somente seria normal se a pessoa não absorvesse a personalidade do amigo, ou da sociedade que ele "forçou" a tornar-se membro.

A necessidade de identificar-se coletivamente é a procura de meios para fazer o que não faria sozinha. É uma miniatura do comportamento das massas. Repetimos incansavelmente que a chance da felicidade está na individuação da personalidade e somente nela. Somente o encontro consciente-inconsciente e seu mútuo entendimento traz essa individuação, traz a personalidade firme e inseduzível. A necessidade de ser parte de grupos ou de sociedades é a busca da desculpa de fazer algo "como todo mundo faz". O simples pensamento de fazer o que todo mundo faz indica a existência de segredos, desejos reprimidos e despersonificação. A maneira correta seria FAZER O QUE TEM VONTADE, SEMPRE. A pessoa deve vencer princípios que não são os seus, costumes implantados na sociedade para satisfazer desejos de outros, para resolver problemas de outros, mas deve resolver seus próprios problemas SEM CRIAR PROBLEMAS PARA OUTROS.

Resolver, supostamente, seus problemas criando problemas para outros não seria manter sua personalidade, revelaria, isto sim, uma personalidade egoísta ou, mas corretamente, incapaz. O egoísta é simplesmente incapaz de manter sua própria personalidade, ainda que participando de um grupo ou de uma sociedade. Por favor, nunca se entenda que manter sua personalidade em meio a uma sociedade seja SOBRESSAIR-SE. Aquele que sente necessidade de sobressair-se dentro de um grupo não pertence ao grupo e sim usa o grupo para esconder seus segredos entre a massa de pessoas, para confundir os observadores. E isso é tanto verdadeiro quanto o fato dessas pessoas procurarem grupos ou sociedades reconhecidamente de nível intelectual inferior ao seu, ou de idade inferior à sua. Tal ambiente é um excelente "cofre" para seus segredos, ao mesmo tempo em que é um ótimo "alimento" para seus desejos, suas ambições fantasiosas, pois na verdade o que ele quer é esconder na massa a sua incapacidade, ou sua mediocridade, seus conflitos, que não consegue solucionar.


ENERGIA SEXUAL

Honestamente, não é fácil aceitar uma definição e, consequentemente, uma classificação para o impulso sexual, para a libido, dentro das características extrassomáticas do homem. O impulso sexual, como tal, não se classificaria corno um conteúdo quer do consciente, quer do inconsciente, nem seria intuição, nem total e somente instinto. Ou a libido é um quinto termo com características próprias, ou seria uma mistura equilibrada, ou não, das funções conscientes, inconscientes, intuitivas e instintivas. Isto porque podemos observar no impulso sexual a participação maior ou menor de cada uma dessas funções e, às vezes parece não haver participação de nenhuma delas, aparentando ser uma função inteiramente independente. Isso definitivamente ela não é. Se o impulso sexual não provém de uma dessas fontes, ou de uma determinada combinação delas, indubitavelmente ela se manifesta através delas de forma definitiva, muitas vezes fortemente, quando não até violentamente e tem sua participação no comportamento do homem como no de outras espécies.

Essa participação é evidente. Porém, não é fácil determinar se ela é causa ou efeito. Se tomarmos o impulso sexual como instinto de conservação da espécie será uma atitude cômoda, mas não satisfatória no momento em que considerarmos a prática de atos sexuais anódinos, principalmente pelo homem. É corrente dizer que há dois instintos básicos no homem, instintos estes que se manifestam de forma inexorável; a fome e o sexo. Do ponto de vista estritamente animal isso pode ser correto, mas do ponto de vista do homem-ser, do homem como um todo, a afirmação já não merece tanta confiabilidade.

O autor que possivelmente mais se dedicou à observação do papel do sexo na vida humana foi, sem dúvida, S. Freud. Mas, as observações e práticas posteriores à teoria formulada por Freud conduzem com facilidade à conclusão de que a teoria freudiana parece ter bases muito concretas e corretas, mas não permite conclusões tão concretas nem tão generalizadas como pretendia Freud. É definitivo que o impulso sexual se não satisfeito, não se esvai, mas como toda forma de energia, se transforma. Isso nos leva a preferir a expressão "energia sexual" em todo o referente à libido, por nos parecer mais própria, mais correta, mais exata para á sua compreensão e para sua análise mais objetiva e mais concludente, pelo menos para nossos objetivos atuais.

As primeiras manifestações psicológicas da criança são orientadas no sentido de satisfazer a fome e assim adquirir energia para preservar sua vida. É perceptível a satisfação da criança ao alimentar-se e essa satisfação é evidente em toda sua vida desde que seja uma pessoa saudável. Não há nenhuma dúvida sobre que a satisfação no ato de comer tem conotações sexuais, quer na criança, quer no adulto. Dificilmente uma pessoa inapetente tem comportamento sexual normal, ainda que seja isso una situação passageira durante sua vida. E muitas vezes não é passageira, mas sim permanente, como resultado de hábitos alimentares inconvenientes e incorretos na infância, ou por mau desenvolvimento na geração de energia sexual. Assim, a falta de energia sexual neste caso pode ser decorrente da incorreta alimentação na infância, como a inapetência infantil pode ser resultado de mau desenvolvimento da energia sexual. É difícil estabelecer-se corretamente o que é causa e o que é efeito. Há um entrelaçamento dos dois instintos, às vezes prevalecendo um, às vezes o outro, numa tentativa de equilíbrio, ao que parece. Porém, pode ser um sintoma desde a busca do equilíbrio, até um defeito genético.

Já vimos que o desenvolvimento físico é espontâneo, o que não ocorre com o desenvolvimento intelectual. Pareceria que a natureza se dedica mais à reprodução e conservação da espécie do que com seu desenvolvimento e aprimoramento psicológico. Isso não é bem verdade, pois se a energia sexual é necessária à vida, suas implicações psicológicas são evidentes. Essa mesma energia é estimulada tanto pelos sentidos, pelas percepções sensoriais como psicologicamente e até espontaneamente. Por outro lado essa energia sexual influi no comportamento psicológico e, outra vez estamos na dúvida entre o que é causa e o que é efeito. O mais provável é a existência do mesmo mecanismo já visto nos casos de histerias, em que as derivações somáticas não são eliminadas. Elas que eram um efeito do estado histérico passam a causar um estado histérico. 

O que é indiscutível é a participação da energia sexual em praticamente todos os atos humanos. Tal participação é observável no comportamento social e no desenvolvimento intelectual que são fortemente influenciados por ela, principalmente quando ela não é utilizada correta e naturalmente, ou simplesmente não é aproveitada para seus fins específicos. Queremos dizer com isso que as abstinências, as práticas anticoncepcionais, como o coito interrompido, a masturbação, enfim todo desvio da descarga natural da tensão libidinosa produz efeitos somáticos e psicológicos múltiplos, tais como, entre mui tos, a impotência masculina, a frieza feminina, a neurastenia, a neurose e a histeria nas suas mais variadas e perturbadoras formas. A passividade ante os fatos da vida, a agressividade, a sublimação (geralmente pelas artes e apegos religiosos), a reacomodação (homossexualismo), são apenas algumas das consequências da repressão ou do desvio da energia sexual.

Sendo difícil determinar sua origem e composição, a energia sexual parece estar contida nas instruções genéticas transmitidas pela cadeia de ADN ao ser humano. Ela está integrada no ser indivíduo e tem características absolutamente individuais, corno os demais sentidos. Não há duas pessoas que possam ter idêntica energia sexual, nem igual forma ideal para cada um usar e descarregar essa energia. Passa ela, então, a fazer parte da personalidade de cada indivíduo, influenciando seu caráter, seu gosto ou desgosto, sua maneira de expressar-se, seus gestos, seu Interesse maior ou menor por esse ou aquele assunto, enfim a energia sexual está presente de uma forma ou de outra em todos os atos humanos. Essa presença leva à incontida tendência do homem-social a "regulamentar" os comportamentos sexuais ou torná-los compatíveis com a cultura de cada sociedade. Assim, a condenação do incesto nos culturas antigas, por exemplo, resultando na exogamia muito mais um ato político do que uma forma de disciplinar e conduzir corretamente a reprodução. Assim também a tolerância e a compreensão da liberdade sexual masculina e as restrições morais à liberdade sexual feminina, com todas as desculpas e explicações com que o homem intenta justificar suas decisões sociais, sejam elas justas, corretas ou não. Também os movimentos feministas pela "igualdade" da mulher com relação ao homem, disfarçada em condições de trabalho, participação nos atos sociais e políticos, no tratamento legal, tudo que se diz e faz para que a mulher seja "moderna" e tratada com igualdade, O resultado foi quase espontâneo: a mulher moderna tem liberdade sexual parcial, da mesma forma, que tem o homem, já que o adultério ainda é válido como crime para ambos os sexos.

A tolerância cada vez maior da homossexualidade e outros tantos comportamentos sexuais não convencionais ou definitivamente NÃO NATURAIS demonstra os caminhos encontrados pelos homens para diminuir (?) as repressões da energia sexual natural e não naturais. Nada há a opor a essas decisões. O que não é verdade é que essas mesmas decisões sejam a bem da natureza humana, nem social e muitíssimo menos biologicamente. A seleção natural ainda existe no mundo e sempre existirá, ou a espécie para a sua evolução ou, ainda pior, a espécie degenera. As funções biológicas são funções biológicas próprias e adequadas e não são intercambiáveis, nem devem ser prejudicadas por decisões político-sociais, já que o prejuízo real é para a própria sociedade tolerante. Nenhuma generalização existe sem cometer erros. Assim também a generalização do conceito de "liberdade" seja em que sentido, em que direção for, leva a sociedade a erros por vezes irreparáveis, quando não degenerativos. 

Como sempre acontece na "evolução social" a verdade fica escondida ou se tenta escondê-la. O que realmente ocorre na vida moderna é uma restrição cada vez maior à vazão da energia sexual. O que parece liberdade é no fundo uma restrição. O fato básico e insofismável desse desvio é a falta de naturalidade no uso da energia sexual, como consequência do progresso socioeconômico das comunidades. É cada vez mais difícil a escolha correta do partner, escolha esta que foi uma transcendental conquista do homem em todo o mundo.

As longas distâncias, os transtornos dos transportes, a comunicação por meios artificiais, a excitação pelas publicações, cinema, televisão, etc. sem o necessário fornecimento dos meios de vazão para a energia excitada, conduziu aos vícios sócio-sexuais, às práticas não naturais e à promiscuidade. Ê totalmente falsa a hipótese de que tal liberdade de comportamento seja satisfatória ao homem. Os resultados, as consequências, estão à vista com os consultórios dos psiquiatras lotados nos grandes centros urbanos e o homem vivendo cada dia mais insatisfeito, material (o que não nos interessa) ou psicologicamente. Liberdade implica, necessariamente, em restrição, por paradoxal que pareça. Sobrecarrega assim o homem sua mente com conteúdos defeituosos, agora com defeitos artificialmente elaborados pela mesma sociedade na qual convive e até por ele mesmo. Note-se que componentes artificiais não são a mesma coisa que "percepções sensoriais incorretas". Os valores psicológicos criados pela sociedade, sem fundamento na evolução natural ou no acompanhamento da evolução natural, são valores artificiais. Se o homem já tem problemas decorrentes das suas percepções sensoriais incorretas, aonde chegará ele com a absorção de valores psicológicos artificiais? 

A luta normal do homem pela posse de bens materiais tem objetivos saudáveis: não tendo de preocupar-se com a sobrevivência material cria o homem o caminho para sua real liberdade intelectual. Nessa liberdade intelectual está implícita a possibilidade da satisfação sexual adequada (por ser individual), completa e normal. Nas sociedades, o homem materialmente rico sempre gozou de maior liberdade do que o homem materialmente pobre. A própria sociedade é mais condescendente com o rico do que com o pobre, apesar de combater politicamente ou psicologicamente a riqueza. A pessoa sempre combate o que não tem enquanto não tem. O intelectual também é combatido por quem não é capaz de aprender. Quem detém o poder é combatido por quem não o tem e quando este for poderoso terá atitudes defensivas de seu poder e será combatido pelos que continuam não tendo poder. Esse é um comportamento, uma reação normal do homem. Assim como os filhos lutavam pela posse das mulheres dos pais, o mito e a tradição psicológica subsistem e sempre subsistirão. O que se modifica são os nomes dados à mesma coisa. Um eterno processo tautológico. O homem sempre lutará pelo que não tem e combaterá os que têm, seja o que for. Ainda que não pareça ou possa não parecer, todo esse comportamento humano tem, no fundo, uma conotação sexual, objetivo precípuo e final do homem-materia.

Sendo o comportamento social e psicológico ditado pela energia sexual, é esta, afinal, a resposta do homem aos objetivos e normas da sociedade em que vive, tudo dentro de uma parafernália de acomodações, explicações e tentativas de burlar a si mesmo, trocando ou substituindo o nome das coisas por falsos nomes, em uma típica atitude humana. O homem é um artista na construção de eufemismos. Entretanto, todas as conquistas do homem-indivíduo são insuficientes para satisfazê-lo, para realizá-lo, se não houver a satisfação do impulso sexual, esteja esse impulso em sua manifestação natural ou esteja ele disfarçado, desviado, em suas múltiplas formas de sintomas somáticos ou de sintomas psicológicos compensadores. A condução da energia sexual de forma natural e com o partner inteiramente compatível é a única sensação real do amor. Tudo o mais é incompleto e insatisfatório em curto prazo, por ser produto da fantasia ou da esperança, símbolo da paixão-desejo.

Em tudo falando em nome do amor e, portanto, desvirtuando-o, nessa busca quase já desesperada, o homem está se perdendo nas atuais sociedade modernas, repletas de liberdades formais, mas criadoras de prisão e dependência psicológica. Aliás, quanto mais liberdade formal for criada, mais aprisionado psicologicamente viverá o homem-social. Somente na realização do amor (não da liberdade amorosa) é que pode existir una inegável integração corpo-alma e a real satisfação da energia sexual.

As atuais liberdades conduzem à variedade e assim a promiscuidade (com prejuízos irreversíveis à natureza do homem), à sua eterna insatisfação, à sua infelicidade. Sem nenhuma dúvida, a energia sexual é dos conteúdos mais fortes e mais presentes nas atitudes humanas. É como conteúdo que o sexo nos interessa, para os objetivos deste trabalho, já que o assunto daria um livro completo somente tratando sobre ele. A energia sexual é da maior importância, já que é ela que molda o caráter do homem e indica seu comportamento na consecução de seus objetivos na vida, pois participa de uma forma ou de outra em todos os demais conteúdos do consciente, do inconsciente e da alma, acomodando o comportamento da pessoa e conduzindo e induzindo tal comportamento à sua feição, às suas necessidades de vazão, seja de que modo for.

É inútil e inconsequente negar o poder da energia sexual. Seus desvios em sublimações ou perversões não alteram sua influência no homem. Se dissermos que tudo é sexo, será uma generalização e como tal incorreta. Mas, se dissermos que o sexo conforma todas as nossas atitudes espontâneas, isso será inegável. O que resta é a condução correta dessa enorme energia, tendo perfeita consciência da sua existência e de sua força, de sua capacidade de conduzir o homem à felicidade ou à desgraça, dependendo de como ele, homem, dirija essa energia. Nada há de assustador no fato de uma religiosa ter consciência de que sua devoção, sua fé inabalável é sustentada pela energia sexual. Ela, religiosa, fez uma opção de uso, nada mais. O importante é que ela se sinta feliz e isso é perfeitamente possível. Entregar-se a Deus, casar-se com Cristo ou guardar-se para o Céu, são atitudes explicitamente sexuais. O que é absolutamente necessário à perfeita compreensão do que dizemos é tentar raciocinar fora do condicionamento social de que sexo é coisa proibida, é coisa feia e ideias semelhantes. Sim, o sexo é coisa proibida quando realizado na promiscuidade, simplesmente para uso de liberdades concedidas pelas sociedades modernas. Isso não é libertação da energia sexual de modo natural. É atitude puramente neurótica, quando não psicótica. Disto resulta o surgimento cada vez maior de mulheres anestésicas e jovens impotentes. Tanto a anestesia como a impotência, no caso, são fenômenos psicológicos que longe de indicar anormalidade, indicam muito pelo contrário, uma absoluta normalidade: a recusa, a repulsão à prática sexual só por pratica-Ia.

Na educação imposta pelas sociedades conservadoras, tanto o jovem como a jovem eram orientados a uma total abstinência sexual até o casamento. A moça devia guardar-se para o futuro marido. O erro estava tão somente em que ela não escolhia o marido levada por uma identidade sexual com o pretendente. Isso foi corrigido, mas os anos de vida passados sob a influência dos pais mantiveram aceso o problema da anestesia feminina. A mulher até hoje se sente, no princípio de seu casamento, um tanto estranha ao conviver sozinha com um homem, seu marido. Se adicionarmos a isso a ideia da obrigação da mulher de dar filhos ao marido ou, na sociedade moderna, na ideia de não ter filhos durante os primeiros anos de matrimônio, mais as restrições higiênicas que levam a mulher ao resguardo nas relações sexuais com o marido, o quadro final somente poderia ser o estado anestésico, a frieza sexual. Quando afinal a mulher se liberta de todos esses preconceitos é tarde. O casamento está falido. O marido provavelmente dedicou-se ao adultério e aprendeu a não contar com a esposa para seus desejos. Reata a mulher à sublimação e ao adultério.

Tendo ela uma rígida educação, descartará imediatamente a ideia de adultério por mais que sofra com seus desejos agora despertos. O que resta é a sublimação pelas artes, pela dedicação doentia e, portanto, prejudicial aos filhos, pela possessividade e outras mil formas de desvio da energia sexual não sinalizada corretamente. Com o jovem sucede coisa parecida ou similar, guardando-se as diferenças inerentes ao sexo dele, masculino. Se for levado à abstinência incorrerá em práticas antinaturais e se “contaminará” de vícios, que desejará depois transmitir à esposa, ou pretender que ela participe de tais vícios. Outra vez a consequência é a falência do casamento. 

De tudo isto podemos depreender que, não é a liberdade desregrada, mas uma informação adequada e não excitante que seria o remédio tentativamente melhor. A base fundamental é sem dúvida a escolha correta do partner, do companheiro ou da companheira. As ilusões, as fantasias geradas durante o natural desenvolvimento da libido tanto no homem como na mulher levam a precipitações na escolha. Sempre o resultado será que a mulher dos meus sonhos ou o homem, o herói dos meus sonhos é um pesadelo. Mas é com isso, sonho ou pesadelo, que o homem tem de conviver: todo o conteúdo da energia sexual atuará em sua vida, no seu comportamento, nas suas preferências, no seu caráter, na sua felicidade ou na sua infelicidade. A única saída é ter plena consciência desses fatos e sublimando ou não, normal ou pervertida, feliz ou infeliz, saber conduzir a energia sexual a destinos, se não os naturais, pelo menos pouco prejudiciais à sua própria felicidade e à felicidade dos que com ele convivem.


O PROCESSO EVOLUTIVO FÍSICO E MENTAL
A EVOLUÇÃO DO HOMEM – SEU APERFEIÇOAMENTO

“... e com dores darás à luz os teus filhos”, foi como Deus castigou a mulher (Eva) por ter seduzido o homem (Adão) à desobediência. Mas se foi um castigo, foi também uma previsão só digna de Deus. Conforme observa o anatomista inglês Sir Wilfred Le Gros Clark, ao mesmo tempo em que subitamente aumentava o volume craniano do homem, houve uma transformação da anatomia humana com uma reformulação radical da pélvis, como que uma adaptação para que pudesse nascer o "novo” homem. Ainda assim o nascimento se dá com dores, pois já não era possível aumentar a pélvis sem prejuízo dos movimentos da mulher. E assim cumpriu-se a palavra de Deus. Parece muito mais provável que a atual estrutura mental do homem seja resultante do aprimoramento cultural, do que do aperfeiçoamento anatômico. Após a transformação anatômica o cérebro humano mantém mais ou menos seu volume, porém vem ganhando massa através de milhões de anos de evolução da espécie.

Isso faz crer que o saber adquirido pelo aprendizado, única forma evolutiva do cérebro-mente, não se perde, mas se incorpora às novas gerações. Quanto mais exercitado, quanto mais aprende o homem, mais massa cresce em seu cérebro, diminuindo as distâncias dos impulsos cerebrais, formando microcircuitos onde os neurônios atingem impressionante velocidade de intercomunicação. O resultado não é só maior conhecimento, mas também um considerável aumento no campo, na diversificação do conhecimento. O cérebro pouco diferenciado de um réptil, anatomicamente se transforma, em milhões de anos, em unidades cognitivas cada vez maiores e mais capazes, tudo resultando do volume de conhecimentos novos adquiridos a cada geração. Parece que o aprendizado interfere, modificando, aprimorando o código genético que receberão as novas gerações, ampliando potencialmente seu campo de conhecimentos, sua capacidade de aprender coisas novas. É possível que muitos neurônios tivessem estado inativos por milhões de anos numa hipótese e, em outra, e mais provável, novos neurônios ou novas formas de combinações de neurônios tenham sido possíveis à cada geração estreitamente relacionadas com o aprendizado da geração anterior.

O saber adquirido por uma geração não se perderia com a morte, mas seria transmitido às futuras gerações, pelo menos em forma de potencialidade, através das informações modificadas no código genético. Parece não passar de fantasia a teoria (se assim se pode chamar) de que una grande parte do cérebro humano tem capacidade ociosa. Ora, isso não pode acontecer porque a capacidade é relativa à necessidade. Há pessoas que não têm a menor necessidade de conhecer fenômenos científicos, por exemplo, Nem por isso seu cérebro deixa de ser ocupado por outros conhecimentos que um cientista não terá. Não sendo possível a onisciência (privilégio de Deus) o cérebro é totalmente ocupado pelo volume de conhecimentos necessários ao "funcionamento" do portador, dentro dos parâmetros estabelecidos pelos próprios conhecimentos. Quanto mais saber, mais VARIEDADE de funcionamento, isto é, mais COMBINAÇÕES de conexões dos neurônios. Mas, todos os neurônios ocupados são ativos. Não há ociosidade. Isto quer dizer que quanto mais o homem aprende mais possibilidade de associação ele terá, maior discernimento, melhor compreensão, mais variadas concepções e maior possibilidade de evoluir mentalmente, com maior índice de criatividade,

Concepções do universo, como as atuais, por exemplo, eram absolutamente impossíveis há um século. Mas, nem por isso TODOS os homens atuais têm a mesma concepção do universo, porque não são todos os que têm o necessário conhecimento científico que possibilite tais entendimentos. Isso não indica mais ou menos inteligência, maior ou menor capacidade, mas indica simplesmente diferentes oportunidades e necessidades de aprendizados. Parece que o cientista é tão necessário como o lavrador. O conjunto, a humanidade em seu todo e em seu tempo é o que importa no processo evolutivo. O homem somente pode raciocinar com as informações de que dispõe em seu cérebro. Só pode saber o que resulte do aprendizado. Porém, pode fazer combinações inéditas dessas Informações: e o raciocínio é o que diferencia o homem de outros animais. Cada combinação inédita é um descobrimento. Não chamamos descoberta, porque só é possível descobrir o que já existe, basicamente. A única coisa que poderá ser inédita é a combinação das coisas conhecidas de uma forma original, não combinada por ninguém anteriormente, da mesma forma. Dizendo de outro modo, é possível ao homem observar novas REAÇÕES dos elementos básicos conhecidos, em novas combinações. È exatamente o processo de funcionamento do cérebro.

Formas, cheiros, consistências, nomes, símbolos, tudo isso é combinado pelos neurônios cerebrais para que o homem entenda alguma coisa, ou tenha sensações sensoriais, extrassensoriais, sendo as primeiras combinações recorrentes e as segundas combinações decorrentes. É preciso saber para saber mais. Não há outra maneira. Entretanto, o que importa é a TRANSFERÊNCIA dos conhecimentos de uma geração para outra através do aumento naturalmente evolutivo da capacidade cerebral de obter combinações associativas e, assim, conclusivas. Definitivamente o cérebro humano atual tem, potencialmente, muito mais capacidade cognitiva do que o cérebro de seus ancestrais. Chegamos às vezes a dizer que as crianças atuais "nascem sabendo". Isto porque o próprio comportamento instintivo tem que, obrigatoriamente, ser diferente na criança atual, já que o que a rodeia não são animais carnívoros perigosos, nem ela está exposta às intempéries por falta de abrigo adequado.

Os instintos do homem anterior, mesmo os da geração anterior produziam defesas que a nova geração já não precisa. Não sendo utilizada essa capacidade, ou melhor, essa variedade instintiva se atrofia e dá lugar ao desenvolvimento de novas formas instintivas, agora necessárias à sobrevivência. Comparativamente antes o instinto fazia o homem usar um machado de pedra, no amanhã, ainda por instinto idêntico, ele usará um raio laser. Porém, usar o raio laser requer muito mais habilidade e conhecimento do que e necessário para usar uma machadinha de pedra. Então a ideia (conjunto) de armas de pedra desaparece da mente do homem e em seu lugar aparece o raios laser, com todo o conjunto dos conhecimentos necessários para o entender e manejá-lo. Não é a diferença pedra-laser que indica evolução, mas os conhecimentos acessórios, os conhecimentos adicionais necessários à compreensão de uma coisa ou de outra. É o que poderíamos chamar de evolução: a capacidade de fazer um maior número de combinações das informações básicas contidas em cada neurônio. Se o primeiro passo da evolução do homem foi passar de homo erectus para homo habilis é porque o que chamamos de evolução é igual ao aumento da habilidade. E esse aumento da habilidade é produto da maior capacidade associativa, maior capacidade de obter novas combinações dos conhecimentos básicos, e, isto sim, foi muito ajudado pela evolução anatômica que acompanhou o aumento potencial do raciocínio, criando novas possibilidades de novo aumento e assim sucessivamente até que o homem ou se destrua ou chegue à Árvore da Vida.

A cada geração aumenta a capacidade mental humana, habilitando o homem a novos conhecimentos, que resultarão em novos aperfeiçoamentos genéticos, que resultarão em novas potencialidades, tudo sempre através da única fornia de desenvolvimento mental de que o homem é capaz: o aprendizado. Isso porque, como já vimos o cérebro-mente não se desenvolve espontaneamente. O simples fato de nascer não dá maior conhecimento. Mas, o renascer (nova geração) se dá com maior potencial de possibilidades de desenvolvimento cognitivo por possíveis alterações eletroquímicas no organismo, que preparam o homem para desenvolver as novas cadeias de ADN que trazem novos, mais aprimorados, mais extensos volumes de informações diversificadas no código genético. Também a capacidade de absorver informação extragenética aumenta, sendo das mais notáveis a escrita que também é extrassomática. Eis os fantasmas, as almas do outro mundo, as assombrações e as percepções extrassensoriais: as novas potencialidades que o homem levará anos ou séculos para ter consciência delas e utilizá-las, o que não parece muito inteligente como o homem pretende ser. 

Reconheçamos a impossibilidade de qualquer coisa saber dela mesma, no mais íntimo interior. O homem somente sabe algo de si mesmo através dos seus semelhantes. E este é definitivamente um saber equivocado. Se pensarmos um minuto nas bilhões de combinações de que é capaz um cérebro humano, veremos a total impossibilidade de que essas combinações sejam iguais ou até mesmo parecidas com as combinações feitas no cérebro de outro homem, ainda mais sabendo que as combinações (raciocínio) somente podem ser feitas com os conhecimentos que cada um tem e que adquiriu com todas as nuances e associações das percepções senhoriais e extrassensoriais resultantes da sua sensibilidade e capacidade pessoal. Para pensar igual seria necessário saber igual, com a mesma intensidade e os mesmos detalhes, o que definitivamente é impossível e se não o fosse o homem não teria alcançado o seu atual nível de desenvolvimento.

As diferenças induzem à dúvida, esta à meditação, à investigação, esta ao conhecimento. Assim o caminho para a evolução cultural do homem. O que aumenta é a capacidade associativa eficaz, ou seja, o melhor aproveitamento útil das unidades cognitivas básicas, com melhor uso dos conteúdos conscientes e com indução de novas percepções inconscientes. Tudo isso resulta em que um menor volume de conhecimentos básicos produz maior quantidade e maior qualidade de conclusões inteligentes. Anatomicamente a massa do cérebro aumenta, digamos, em densidade. Há maior concentração de neurônio em menor volume. Há, também, uma "aceleração” do processo de aperfeiçoamento a cada geração, como que em proporção geométrica: o tempo necessário para atingir um novo nível de desenvolvimento, de aperfeiçoamento, é cada vez menor. O que não parece acelerar é o tempo de maturação para tornar útil e eficaz o novo conhecimento. Talvez equilibrando o processo, o uso que o homem faz dos novos conhecimentos é extremamente superficial e imediatista. O enriquecimento da vida material tem prioridade ao enriquecimento da vida intelectual, Não interessa porque chove. Interessa que chova para que as colheitas sejam maiores e uma vez que chova não há porque preocupar-se com o resto. O maior conforto material, entretanto, cria uma perigosa dependência, também cada vez maior. Torna-se profundamente inquietante, frustrante, com sensações de incapacidade e de inferioridade não ter carro, calcular sem maquinas, lembrar, raciocinar e concluir por si mesmo por não dispor de um computador.

Darwin postulava que o desenvolvimento da linguagem oral no homem foi um esforço para liberar as mãos. O mesmo com a invenção de ferramentas pelo homo habilis. As máquinas "tinham" o objetivo de liberar o homem do trabalho mecânico, não necessariamente racional, para ocupar-se com os trabalhos da mente, o que não ocorreu, necessariamente. Ao invés disso o homem criou a dependência mental e se torna mais dependente de suas próprias invenções a cada dia. Com isso, mais diversificado e menos sábio. De qualquer modo, nem Darwin, nem os evolucionistas, nem a natureza, marcaram data para cessar o desenvolvimento e o aperfeiçoamento do homem. Os aperfeiçoamentos físico e fisiológico são evidentes. O aperfeiçoamento mental nem tanto. O físico de bruto, animalesco, tomou formas plásticas quase que perfeitas (para o gosto do homem, nem sempre de bom gosto). O aperfeiçoamento físico levou até ao incontido desejo de mostrar o corpo, de exibi-lo, descobrindo-o, ou aliviando-o de roupas. Se não foi o prazer da exibição foi a segurança da beleza (sempre do ponto de vista da espécie), a constatação do aperfeiçoamento, do aprimoramento físico da criação. Os bebes são cada vez mais bonitos e sadios e os jovens cada vez têm menos roupa.

Todavia, podemos ver essa evolução por outro prisma: o aperfeiçoamento das culturas levou, entre muitas coisas, à limitação da natalidade, eufemisticamente chamada "controle da natalidade". O efeito psicológico não demorou a manifestar-se. O macho tornou-se menos macho no sentido absoluto biológico. Com isso, as Evas atuais precisam de recursos mais eficazes que as maçãs para tentar o Adão de nossos dias. O aprimoramento físico e sua exibição são ferramentas úteis para manter a reprodução e preservar a espécie, ao mesmo tempo em que é um retorno às origens, até chagarmos ao "Paraíso”, onde não havia roupa. Todavia não nos esqueçamos que ao despertar do desejo induzido pela maçã, Deus vestiu o homem, cobriu-o. Hoje Deus precisaria desnudá-lo para obter o mesmo efeito. Então o aperfeiçoamento físico com a maior beleza do corpo é também uma sabedoria da natureza e não se deu por acaso, mais com objetivos sabiamente previstos. Cada vez mais o homem precisa de estímulos para a reprodução e preservação da espécie e o aperfeiçoamento físico tenta fornecer esses estímulos, juntamente com a perspectiva de filhos mais bonitos e mais sadios. Perdura então no homem a prioridade do físico sobre o intelectual. É que sem corpo não há mente. A beleza física promete a beleza mental. Restaria saber se a beleza mental é letárgica ou inquietamente ativa. Se considerarmos os novos elementos fornecidos ao homem através do desenvolvimento e do aperfeiçoamento fisiológico que acompanha o aperfeiçoamento físico, a conclusão não é pela letargia. Se tudo no homem passa a funcionar melhor, isso indica uma maior adaptação da forma humana ao cosmo. As leis de seleção natural eliminaram (e continuam eliminando) os menos adaptados e, portanto, incapazes de evoluir. A consequência do aperfeiçoamento fisiológico é também, sem dúvida, o aperfeiçoamento não mental, que não é automaticamente consequente, mas aperfeiçoamento do cérebro somático.

O homem-indivíduo se torna fisiologicamente cada vez mais singular, mais único no meio da sua espécie e assim, o que é mais importante, se torna potencialmente mais capaz mentalmente. Não há dúvida de que o homem sente essa potencialidade nova, chegando mesmo a sentir-se (e assim se manifesta) muito superior aos homens da geração anterior. A grande diferença é que a potencialidade é entendida como conhecimento e daí ao desastre é um pequeno passo. Auxiliado pelos novos meios de comunicação, o novo homem aprende novos termos, mas não concebe novas ideias, donde não adquire mais saber útil e sim as mais variadas e corretas informações, que não são devidamente elaboradas, principalmente pela totalmente ilusória "falta de tempo".

O tremendo afluxo de teorias científicas reformuladas, aperfeiçoadas, o tremendo fluxo de informações de toda ordem que subidamente o homem passa a receber, combinadas com sua capacidade biológica, mesmo altamente melhorada, não pode ser corretamente absorvida. Existe uma evidente defasagem entre o conhecimento anterior e o novo conceito. Falta rechear o meio que ficou vazio com prejuízo da coerência no raciocínio.

O jovem tem que conviver com duas poderosas forças que atuam simultaneamente: o novo pensamento e o pensamento tradicional, sem que lhe houvesse fornecido os degraus para a ascensão. Forma-se assim um vácuo entre o conhecimento básico, absolutamente indispensável e as conclusões novas. Sabe-se o que é, mas não se sabe por que é, sabe-se que mudou mas não se sabe o que mudou. Não é fornecido o conhecimento de ligação, de comparação entre teorias anteriores e teorias atuais, impossibilitando a percepção consciente do desenvolvimento. O que resta de possibilidade é a adaptação aos trambolhões, sem saber bem o que está acontecendo, sem tempo útil para conceber e entender o que se passa à sua volta. De tudo isso resulta a inconsistência do homem-jovem, enquanto jovem, e tudo isso demonstra novamente o processo da natureza para o desenvolvimento.

O fator TEMPO é absolutamente inerente ao processo de aperfeiçoamento. O que a natureza levou milhares ou milhões de anos para fazer o homem tem de levar tempo proporcional e adequado para elaborar, entender, conceber. Aí talvez um erro do sistema educativo atual. Os homens adultos se assombram com as novas descobertas, ou com as novas formulações da ciência, se assombram com as novas tecnologias e sem a necessária maturação tentam transmitir DE FORMA SIMPLIFICADA (quando transmitem) os novos conceitos que eles mesmos não dominam inteiramente e que muitas vezes nem entenderam corretamente, A informação é transmitida muitas das vezes de forma incorreta e incompleta ou, na melhor das hipóteses, sem a profundidade inerente à matéria científica que demanda sólidas bases de conhecimentos teóricos para sua manipulação. A ciência é apresentada com o mesmo entusiasmo e com a mesma alegria com que se presenteia uma criança com um brinquedo novo e original, O exemplo típico em nossos dias é o computador: a média de seu uso, fora do círculo científico, é mais como uma novidade, um brinquedo, do que como ferramenta que é, Se parece com o assombro do índio, que por primeira vez vê seu rosto em um espelho. É espantosa a maneira como a matéria científica é apresentada, com expressões de desprezo, como que querendo dizer que as formulações anteriores, que o pensamento científico de gerações foi uma grande bobagem, ou que foram totalmente superadas ou desmentidas. E o “educador" goza psicologicamente com essa fantasia, com esse entendimento completamente errado.

Quer ele pensar, convencer-se, que a ignorância não foi dele ao pensar, antes, que era certo o que foi reformulado (não corrigido) e que se tornou coisa ultrapassada. Ele quer fazer transparecer que a ignorância foi do cientista "velho” que foi agora desmentido. Tudo isso é profundamente errado e equivocado, como é ainda mais errado o ensino médio das ciências, por incompleto, sem prévio embasamento teórico. Adiante veremos as consequências disto. E tal erro se extravasa por outras matérias que, tendo ou não participação nas novas idéias científicas, seus professores sentem a obrigação de reformular (dizem eles que é adaptar (!), simplesmente para que SUA matéria TAMBÉM SEJA MODERNA. O primeiro efeito observável e primeiro desastre é na linguagem. Tornam-se rapidamente linguagem corrente termos científicos, que passam a ser usados diariamente com total impropriedade, sem nenhuma base de relação com os desenvolvimentos específicos da ciência, geralmente porque os "aplicadores" do novo termo e até de uma nova gramática, não têm sequer uma visão, por não terem formação científica, do significa intrínseco do novo termo, que geralmente não tem nada de novo, mas muito ao contrário.

Porém a tentação de ter a sensação de participar das novas descobertas, de estar "atualizado” é grande demais e o sentimento de inferioridade que advirá do não uso dos novos termos é maior ainda. O novo modo de transmitir informações importantes é um novo e eficiente alimento para as antigas neuroses e um excelente criador de neuroses novas, naqueles que recebem tais informações. Os termos impressionam mais que a própria matéria e dão até um novo "status". "Status" que ainda não sabemos do que completamente. Usando os novos termos que foram decorados, mas não absorvidos, o adulto sente-se neuroticamente superior (função cultural do adulto), ao mesmo tempo em que se sente jovem novamente, sente-se coparticipe da nova sociedade jovem, enquanto o jovem real sente-se nada menos que um sábio, superior aos mais velhos, esquecendo-se que são os "velhos" os que ensinam aos jovens. Mas, se o sentimento de inferioridade é aliviado em alguns pelo uso dos novos ternos, a megalomania é incitada em outros. Tudo isso só por causa de um termo científico, o que faz depreender a extrema necessidade de amparo psicológico nos dias atuais.

Há poucos dias ouvimos uma expressão para a transmissão de palavras por teletipo: "linguagem digital". É evidente a influência da linguagem típica dos usuários de computadores, porém, linguagem digital seria um enorme retorno às cavernas e à mímica, à linguagem dos dedos, dos gestos, seria a linguagem que os psicólogos Beatrice e Hobert Gardner ensinaram aos seus chipanzés, aliás, com grande sucesso.

Mas o que realmente nos interessa são os resultados de um volume muito maior de conhecimentos impostos abruptamente ao homem. A criança tratada por muito tempo como ignorante passa a ser um adolescente-sábio, para tornar-se um adulto-genio, numa ciranda de fantasias mentais. Em nossa cultura, ser adulto, em si mesmo, deve induzir respeito, pois deveria representar a sabedoria. Não sendo um fato, o novo-jovem o percebe, mas incorre no erro da generalização, não respeitando mais ninguém que não seja, também, jovem. Talvez decorra, ainda, de uma decepção inconsciente do jovem, de uma frustração ao observar que os adultos se desmentem mutuamente, que o que era certo agora é errado, que enfim o mundo dos adultos é uma enorme confusão. O adulto ficou, assim, desmoralizado perante a juventude e passou a ser mais querido que respeitado por seus conhecimentos. Não percebe o jovem que é impossível saber o que ele pensa que sabe. Não fora por outras razões, bastaria a insuficiência do tempo necessário para absorção dos aprendizados novos, considerado o processo de desenvolvimento do cérebro humano, juntamente com a eficácia adquirida por esse mesmo cérebro. 

Atualmente a obrigação de saber é maior que a capacidade biológica de aprender. Essa pressão sobre os jovens, que fantasiosamente concorrem com os computadores, só pode resultar em insuportável tensão psicológica. A verdadeira corrida ao conhecimento científico, sem antes preparar-se o jovem fornecendo-lhe seguras bases teóricas, o que demanda tempo, conduz por um lado a desastrosas precipitações, como é o caso moderno do superdotado, com autentica saturação psicológica e por outro lado, ao comportamento anticultural, chegando-se a chamar de estúpidos ou de incapazes aqueles que, não tendo vocação ou interesse por assuntos científicos, ou por computadores (o que é muito importante (?)) querem dedicar-se às artes, à poesia, à literatura, etc. Essa saturação psicológica por insuficiência biológica natural pode estar levando os jovens à música alucinatória, aos vícios, às drogas, (aos computadores?), enfim a um viver antinatural.

A defesa (por incrível que pareça) contra o excesso de liberdade adquirida, contra a suposta individualização, cada vez maior, leva o homem-social a aumentar suas necessidades de relacionar-se com seus semelhantes, perdendo sua individualidade. Assim é que o trabalho individual cede lugar ao trabalho de equipe, o que é vivamente estimulado nas escolas. Sentindo seu desenvolvimento mental, o aumento de sua capacidade de adquirir e absorver conhecimentos, sentindo o aumento da função cognitiva, o homem se assombra e sente, também, mais temor e, o que é muito importante, sente mais insegurança, fenômeno paradoxal, mas evidente e comprobatório da saturação psicológica por tentar absorver mais conhecimentos novos em tempo biologicamente impossível. Assim a evolução fisiológica é mal aproveitada, senão desperdiçada, pelo louco afã de saber tudo por passe de mágica.

O perigo maior da não absorção correta das modificações genéticas, fisiológicas e psicológicas está na consequente não adaptação correta ao mundo novo. E os não adaptados são inexoravelmente expurgados pela seleção natural. Adaptação é coisa muito mais séria do que se possa pensar e requer, fundamentalmente, TEMPO. Somente o homem adaptado ao meio pode ter concepções corretas desse mesmo meio ou disparará o processo psicológico de defesa, típico da inadaptação, quando o indivíduo quer modificar o meio ao qual não se adaptou, (revoluções) numa inútil tentativa de inverter o processo natural, isto é, que o meio se adapte a ele e não ele ao meio. O resultado pode ser visto em algumas sociedades modernas e nos hospitais psiquiátricos. E quando dizemos meio não queremos significar somente o meio ecológico, mas também e até, o ambiente comunal.

Adaptação também significa cumprir as leis naturais da evolução para poder evoluir com elas. "Da semente à árvore”, como faz a natureza, o cérebro humano deve ir do aprendizado à sabedoria e não vice-versa se quiser tornar eficazes suas novas condições cognitivas, que lhe são oferecidas em maior quantidade e qualidade a cada nova geração. Insistimos em que TEMPO é ingrediente fundamental e absolutamente indispensável para entender, absorver, assimilar e finalmente usar, tornar eficaz, útil ao conhecimento. Qualquer tentativa de absorção excessiva, considerado o tempo, resultará em desastre físico, fisiológico, ou psicológico e suas combinações.

A necessidade imperiosa de tempo pode fácil e concretamente ser observada em TUDO. Não há nada neste mundo em que o TEMPO não esteja participando. Tentar abreviar o tempo é tomar-se incompleto ou defeituoso, não existindo posição intermediária. Precisamos tempo para nascer, para crescer, para comer, para dormir, para aprender, para saber, para viver. O universo inteiro se sujeita ao tempo. Por que não o homem moderno? Por que a pressa, a precipitação? Seria a expectativa da morte, sentimento que somente o homem tem? Penso que é muito mais uma neurose coletiva, com características próprias para cada grupo cultural, mas com um fundo básico único: medo da morte, não física, mas da morte social.

Os meios de comunicação modernos atuais são em grande parte os responsáveis por esse estado neurótico e até psicótico. A responsabilidade desses meios de comunicação nas transformações culturais é bem maior do que se possa supor à primeira vista. Entrevistas publicadas nos jornais e revistas, principalmente as ditas especializadas e muito pior porque atinge um número muito maior de pessoas, idênticas entrevistas transmitidas pelas estações de televisão, têm o efeito de deslumbrar os leitores e ouvintes. 

O primeiro efeito pode ser notado no corpo docente das escolas. Basicamente todos os professores, de todas as matérias, tendo ou não relação com o assunto publicado ou transmitido, passam a retransmitir a informação sem nenhuma verificação prévia da sua veracidade e de sua oportunidade, sem nenhuma consideração às condições de propriedade, sapiência e estado psicológico ou político da pessoa que fala ou escreve. E o assunto, seja ele qual for, de que natureza for, de que profundidade for, passa a ser importante, passa a ficar na moda. Observamos que desde uma música popular bem sucedida publicitariamente, até a entrevista de um cientista são, com a mesma tranquilidade, ou com a mesma irresponsabilidade, colocados na moda. Todo mundo vai discutir o assunto, estará cada um contra ou a favor, usarão os mesmos termos, sejam de conotação altamente científica ou uma gíria da música popular e, principalmente os de ordem tecnológica, por serem mais acessíveis por sua própria natureza.

Nos dias atuais, no Brasil que vem sofrendo muitos problemas de ordem sócio-econônicos, muitos dos quais incitados por esses mesmos meios de comunicação, podemos observar que os termos técnicos da economia, por exemplo, são empregados por todos sem a menor compreensão da propriedade ou da impropriedade de tais termos que passam, assim, a compor o vocabulário diário de todo mundo, num enriquecimento ilícito da gíria e da burrice. O mesmo acontece com termos exclusivos da técnica de uso dos computadores, assunto de moda mundial. Assim, palavras como inflação, aplicações, renda nacional, dívida externa, taxa do dólar, balança comercial, balança de pagamentos e até propensões marginais etc., no caso da economia e palavras como programar, processar, dígito, memória, "kabites” (Kbites-kilo bites), terminal, etc. no caso dos computadores, são usadas diariamente para significar coisas totalmente alheias ao significado real, científico ou técnico dessas mesmas palavras. Aqui, outra vez, o pavor de estar desatualizado. Vejam que o pavor não é o de não saber, necessariamente, mas o de não usar os termos, mesmo sem entendê-los, ou dando a eles significado outro que não o real.

Estou convencido de que isso não é uma atitude prepotente do jovem, mas um problema de quem ensina aos jovens e a ignorância dos meios populares de comunicação, ou melhor, dos que usam os meios de comunicação para divulgar o que quer que seja com a maior irresponsabilidade, mas com muita pose de entendido. Mostrar ou fingir que sabe o mesmo que passou na televisão é altamente publicitário e dá "status". Quem não usa esses termos é definitivamente um ultrapassado, um ignorante (?) quando na verdade, ao contrário, quem o faz está no uso impróprio, inadequado e extemporâneo de termos e ideias sobre assuntos muitas vezes altamente técnicos ou altamente científicos.

A própria teoria geral da relatividade é exposta e discutida com a maior tranquilidade por qualquer pessoa que leia jornais e revistas ou que assista a programas de televisão, havendo até os que são contra ou a favor da teoria, como se gostassem ou não gostassem de um sorvete. Esse estado psicológico ou quase patológico (se não o for realmente), somado a angustia de saber de tudo sem estudos e principalmente, como vimos, sem o TEMPO necessário para compreender as matérias, nos conduz a uma sociedade muito mal situada culturalmente e muito bem nutrida de mentirosos, incapazes e neuróticos, que pressionam com reivindicações absurdas por impróprias, os meios culturais, os meios científicos e o mercado de trabalho. 

O fundamento de tudo isso é a tentativa de conseguir o impossível biologicamente, como já dissemos. Não existe a mais remota possibilidade, quer psicológica, quer biológica, de absorver, no tempo pretendido, todo o saber que as pessoas de nossa sociedade sentem obrigação de ter. Essa tentativa de massificar conhecimentos é estéril. Massificação se faz mais tarde, está melhor colocada nas atuações político-partidárias reversíveis. A evolução da ciência e da técnica, (esta muito mais), é tão grande e rápida que realmente o que vemos é a solução para a especialização. Sendo praticamente impossível reter todo o conhecimento necessário para exercer a medicina em geral, a solução conveniente e correta é dominar UMA PARTE do conhecimento: especializar-se em UMA MATÉRIA, parte do todo. Até porque saber uma matéria já não é tão fácil como parece e muito mais difícil é, sem dúvida, domina-la. Sem domínio não há saber, mas somente parte do saber. 

Para que as coisas se passem dessa ou daquela maneira, isto é, se é ou não possível acumular saber, conhecimentos, no volume e na qualidade requeridos, vejamos alguns dados sobre a atual capacidade do cérebro humano evoluído aos dias atuais, dias atuais significando décadas, gerações e séculos. Inicialmente, para tomar um fato, vemos que as mais novas formulações científicas da teoria atômica, a partir da divisão do átomo (e não da filosofia atomista), têm mais de meio século (as últimas e mais recentes formulações). Só agora, entretanto, ela COMEÇA a ser conhecida da juventude (só da juventude?), ou pelo menos COMEÇA A SER ENTENDIDA realmente, não da forma "simplificada" (pode?) exposta nas escolas, mas no seu conteúdo mais intrínseco. Ora, levar mais de 50 anos para dominar uma única matéria, ou melhor, um único conhecimento de parte de uma matéria, é prova mais que evidente da lentidão do homem para assimilar matéria nova. Isso é normal e natural consideradas as condições culturais. A pressa de saber não deve ter como objetivo o lucro no uso dos ternos, mas a avidez de SABER para evoluir, o que somente é possível dentro das características biológicas de cada espécie. No caso do homem, sua evolução cerebral deve estar dentro de algumas possibilidades que devemos refletir.


EVOLUÇÃO DO CÉREBRO HUMANO

O anatomista alemão Ernest Haeckel sustentava que qualquer animal tende a repetir ou recapitular a sequência que seus ancestrais seguiram durante a evolução.

O feto da espécie humana desenvolve o cérebro de dentro para fora na seguinte sequência: chassi neural, complexo reptiliano ou cérebro arcaico (herdado), sistema límbico e neocortex. Essa é a mesma sequência observada na evolução do primata, depois homem, de um cérebro de peixe a um cérebro humano atual. É esse o modelo de cérebro concebido por Paul MacLean, diretor do Laboratório de Evolução e Comportamento Cerebral (Instituto Nacional de Saúde Mental - ISIU). É o cérebro trino. Diz o Dr. Paul: "O homem tem de se olhar e de olhar o mundo através de três mentalidades bem diferentes uma das outras e das quais duas não tem o poder da fala", sendo seu conteúdo imagens ou símbolos que contém as ideias-conjuntos. Diz ainda MacLean: "O cérebro humano compreende três computadores biológicos, cada um com sua própria inteligência especial, sua própria subjetividade, seu próprio sentido de tempo e espaço, sua própria memória, funções motoras, etc. "A cada um desses cérebros corresponde uma etapa de evolução diferente". São definitivamente também diferentes neuranatomicamente e em funções, contendo, acentuadamente, distrituições diferentes dos neuroquímicos dopamina e colinesterase. E cada urna dessas três partes se divide em funções mais ou menos específicas, mas não inteiramente autônomas. Assim o "cérebro arcaico" contém o bulbo, a medula espinhal e a ponte, compreendendo o rombencéfalo e o mesencéfalo. A seguir temos o sistema lírabico que se teria desenvolvido há mais de 150 milhões de anos, compreendendo o tálamo, o hipotálamo, a amígdala, a hipófise e o hipocampo, cada um responsável pelos "sentimentos" ou sensações do homem (os chamados sentidos). Finalmente o neocortex representando a mais recente conquista do cérebro humano na sua evolução. Teria aparecido há algumas dezenas de milhões de anos e teve um desenvolvimento súbito e enorme mais recentemente, há milhões de anos.

Esse "complexo cerebral" do homem forma a "grande memória" onde se instalarão os conteúdos futuros. Esses conteúdos são "informações" utilizadas pelo homem durante sua vida. São de duas ordens: genéticas e extragenéticas.

O "comandante" do sistema cerebral parece ser o córtex (ou neocortex) com suas regiões principais ou lobos: o frontal, o parietal, o temporal e o occipital que reúnem funções cognitivas caracteristicamente humanas. A base fundamental da evolução são as mutações. Essas mutações ocorrem em um para cada dez gametas e são proporcionadas pelo meio, ao acaso, ou são consequência das mutações bioquímicas que esse mesmo meio ou condições de vida proporcionam no organismo humano. Essa mutação produzirá uma alteração na informação genética dos cromossomos e, portanto, uma mudança genética nas gerações seguintes. Tais mutações são percebidas após dezenas, centenas e milhares de anos. Não são percebidas imediatamente já que a consequência da mutação será um novo comportamento do homem, só percebido por gerações e em gerações muito posteriores. Entretanto, a mutação já ocorreu. Existe um novo homem, geneticamente diferenciado, que entra em conflito com os homens da geração anterior.

Não sendo possível ao "transmissor da mutação" adaptar-se ao comportamento do "homem geneticamente diferenciado", mas mantendo sua autoridade e sua cultura, somente com sua morte real ou cultural é possível ao novo homem dominar a cultura, transformando-a de forma a se adaptar às novas necessidades da vida em cada etapa de desenvolvimento. Acresce à mutação genética as mutações por fatores extragenéticos e extrassomáticos que resultam da nova capacidade do cérebro do homem novo e das transformações culturais. Quando tudo está adaptado ao novo homem, já entrou em processo de readaptação a geração que o sucedeu e assim indefinidamente, É a evolução processando sua matéria prima, a mutação.

Nesse processo se podem observar mudanças quantitativas e qualitativas no conteúdo do cérebro humano, transformando-o em organismo cada vez de maior complexidade, considerando-se o número cada vez maior de funções que esse organismo deve desempenhar. O agente de tudo isso é o ácido hereditário conhecido como ácido nucleico, ou melhor, a molécula chamada ADN. Um cromossomo humano contém apenas uma molécula de ADN, esta composta por blocos chamados nucleotídeos. São estes de quatro variedades, Assim a linguagem da hereditariedade é composta de um alfabeto de quatro letras, apenas.

Todas as formas de vida sobre a Terra tem o mesmo sistema de código de quatro "letras". No ser humano uma molécula de ADN cromossômico se constitui de cerca de cinco bilhões de pares de nucleotídeos, Sendo todas as formas de vida conhecidas baseadas no mesmo código, isso leva a crer que é correta a teoria de que todos os organismos da Terra têm um mesmo ancestral, com origem há uns 4 bilhões de anos, O Dr. Cari Sagan calcula que o conteúdo de informação de um cromossomo humano é de algo como 500 milhões de palavras de, em média, 6 letras cada uma. Diz ele: "Se um livro comum contém quinhentas páginas, o conteúdo de um único cromossomo corresponde a 4.000 livros desse tipo". As outras espécies ou organismos possuem menor quantidade de informação por cromossomo, sendo menor para os organismos menos evoluídos, ou menos complexos e maiores para os mais evoluídos e complexos, até chegarmos ao homem, o mais complexo deles.

Essa quantidade de informação não existe desde um princípio. Em cerca de 3 bilhões de anos ela aumentou lentamente, segundo cada organismo e sua complexidade que aumenta com sua evolução, sendo esse aumento em si mesmo a própria evolução. Mas não se observa muito aumento de informação genética espontânea. O aumento de "geração a geração” é produzido por informações extragenéticas absorvidas pelos genes, modificando os gametas e, consequentemente, a geração seguinte. Os responsáveis pelas alterações ou mutação, matéria-prima da evolução, são, entre outros, os raios cósmicos, a radioatividade ambiental vindos do espaço e, como já dissemos, muito se deve ao acaso. Tal acaso é a resultante de novas e espontâneas combinações dos nucleotídeos que determinam as instruções hereditárias na molécula ADN. As ligações químicas se desfazem espontaneamente dando lugar a novos rearranjos dos nucleotídeos (sinapses).

Também o próprio organismo promove mutações ou "erros" na cadeia de ADN. Ainda que existam moléculas que "corrigem" esses erros, principalmente no que dizem respeito a lesões, muitas escapam do controle e os "reparos" não são totalmente eficientes, pois as mutações são imprescindíveis para a evolução. Temos assim um aumento das informações genéticas e extragenéticas, um aumento quantitativo e qualitativo, esse nem sempre aproveitado pelo homem, ou melhor, a qualidade no aumento de informações implica as informações novas de origem extrassomática que aumentam a quantidade de informações para as novas gerações, mas não melhoram necessariamente essas informações, já que alguns rearranjos dos nucleotídeos são vinculados às novas combinações dos neurônios (associações mentais), nem sempre de melhor qualidade.

Na evolução biológica, organismos como o do homem apresentam uma modificação de maior ou menor importância na proporção de l para cada 10 gametas. Temos assim uma mutação da ordem de 10 prováveis a cada geração, aproximadamente. Essas mutações nem sempre são "progressistas", podendo ocorrer mutações "regressivas" só observáveis após muitos anos e, por alguma razão, essas mutações regressivas são muito mais frequentes que as evolutivas. Isto explica a necessidade do tempo (para o homem, enorme) que decorre para urna mutação corresponder a uma evolução real. Alteradas ou não, evoluídas ou não, vejamos quais são as possibilidades de conteúdo ou de informação que pode conter um cérebro humano, em média aproximada, pois o índice de mutação é devidamente controlado pela seleção natural, porque existindo já um índice de mutação bastante elevado, um complemento maior de ADN genético elevaria esse índice de mutações a níveis inaceitavelmente altos. Ocorreriam, em consequência, demasiados erros com prejuízo da espécie se tivéssemos cada vez mais genes.

Acredita que sejam os neurônios, ou células nervosas, os responsáveis pela função cerebral do homem, sem prejuízo de que outras pequenas proteínas como o ARN contenham capacidade cognitiva. O cérebro humano deve conter cerca de 10 bilhões de neurônios. Outros 10 bilhões de neurônios estariam contidos no cerebelo, aparentemente sem função cognitiva específica e mais provavelmente como "memória auxiliar", com características ligeiramente diferentes das do cérebro, como por exemplo, funções instintivas naturais. Para cada neurônio existe cerca de 10 células glias que sustentam a arquitetura neuronal, uma incrível trama de interligações, extremamente complexa. Um neurônio *se comunica" com outro neurônio adjacente em cerca de 1.000 a 10.000 combinações diferentes: são sinapses. As células de Purkinje podem fazer mais de 10.000 sinapses (no cérebro) enquanto o número de ligações de neurônios no córtex parece ser inferior a esse valor. Quando alguém nos diz, por exemplo, "vermelho", nossos impulsos auditivos dão início a uma pesquisa no cérebro para localizar a impressão "vermelho" e ativar a "memória" onde está gravada essa impressão. Isso se faz pelas sinapses que responderiam "sim" ou "não" à cada consulta. Mas vermelho pode ser una infinidade de coisas ou simplesmente uma cor, a cor vermelha. O "raciocínio" se completa se o entendimento for de que se trata de uma cor, isto é, se nosso interlocutor não diz nada mais além de "vermelho”. Mas antes de completar-se o entendimento, o cérebro, através dos impulsos emitidos pelos neurônios e suas sinapses, "imaginou" que pode ser a ideia contida na expressão vermelho, tanto o sangue, por exemplo, ou uma roupa, ou qualquer coisa que essa pessoa, absolutamente individualmente associe ao "vermelho". Se nenhuma outra informação é recebida para complementar a palavra "vermelho", o raciocínio se completa com o entendimento de que somente pode tratar-se da cor vermelha. E assim, sucessivamente.

Quando o entendimento final permanece duvidoso sobre de que finalmente se trata, isso significa associações que essa determinada pessoa faz como resultado de impressões profundas ou até traumáticas ligadas à compreensão do "vermelho", sendo, no caso, a conclusão de que se trata da cor vermelha a mais natural e possivelmente a mais "normal", já que, à falta de outra informação externa concreta qualquer outra conclusão é puramente fruto da imaginação de quem ouviu a palavra "vermelho". Em uma consulta simples, que demande uma compreensão também simples de "sim" ou "não", o cérebro tem capacidade para responder a cerca de 30 trilhões de questões assim formuladas. Algumas sinapses repetem informações já contidas ou outras sinapses, algumas são relacionadas à funções motoras (a palavra "ande", por exemplo), enquanto outras correspondem a funções não cognitivas. Algumas podem simplesmente não conter informação nenhuma e são então "impressionadas" memorizando eternamente a nova informação ou mantendo-a em "stand-by" para associa-la em qualquer outra oportunidade durante toda a vida. Se o cérebro fizesse ou fosse capaz de fazer uma só sinapse, o homem teria apenas dois estados mentais isto ou aquilo, sim ou não, ainda que cada um desses estados mentais correspondesse a uma ideia-conjunto de infinita expressão ou conteúdo. Se duas fossem as sinapses, quatro seriam os estados mentais e assim sucessivamente, sempre se elevando os dois estados mentais iniciais à potência equivalente às possibilidades de sinapses ou combinações entre os neurônios do cérebro. Chegamos então ao incrível número de 2 elevado à potência 10 trilhões! São as combinações de que o homem é capaz de realisar. Ora, esse número é maior que todos os elétrons e prótons do universo! Concluímos então que ainda que dispondo de uma capacidade de sinapses tão fantástica como vimos o homem realiza, normalmente, na sua vida social, uma quantidade infinitamente pequena de sinapses. Isso não significa que o homem não use seu cérebro inteiramente, ou que há una enorme capacidade ociosa em cada cérebro humano. As sinapses ocorrem SEMPRE QUE NECESSÁRIO. Nenhuma associação ou sinapse com informação sobre matemática é necessária quando uma pessoa está, por exemplo, comendo. Entretanto, um matemático poderá estar durante sua refeição tentando contar as ervilhas de seu prato, ou procurando uma fórmula que indique quantos grãos de feijão pode conter um prato.

Vê-se, então, que as sinapses de qualquer espécie podem ocorrer a qualquer momento e em qualquer circunstância. Mas, somente poderá ocorrer uma sinapse se existir uma informação "memorizada”. Assim o número ÚTIL de sinapse é relativo aos conhecimentos que cada homem tenha adquirido em sua vida. O arquivo do cérebro tem uma enorme capacidade de armazenamento de informações, mas nem sempre suas prateleiras estão cheias. Se considerarmos um número mínimo de combinações de um conhecimento com outro chegamos simplesmente ao infinito. Mas, é necessário TER O CONHECIMENTO para poder combiná-lo com outros conhecimentos. Muitos chamam essa maior capacidade de combinações ou sinapses de inteligência, ainda que inteligência não seja exatamente isso. O processo de sinapses é um processo da MEMÓRIA. A inteligência é usada para "registrar" corretamente a informação inicial na memória recente ou na memória remota. Considerada a quantidade possível de sinapses no cérebro humano e suas combinações mesmo que tais quantidades estejam limitadas pelo SABER de cada um, vemos a total impossibilidade de que duas pessoas sejam iguais ou pensem, ou entendam qualquer coisa do mesmo modo, ou mesmo de modo sequer parecido. Quando duas ou mais pessoas afirmam que entenderam uma palavra ou uma ideia expressada por um terceiro, seguramente cada um entendeu coisa diferente, de acordo com as sinapses ocorridas em cada um dos cérebros. Da mesma forma é impossível um mesmo comportamento. Somente as palavras são iguais.

Acrescente-se a tudo isso os “micros circuitos cerebrais", as sinapses de função motora, as não cognitivas e teremos uma terrivelmente complexa máquina que é, não somente o cérebro humano isoladamente, mas todo o organismo humano que funciona de modo interligado e inter-relacionado. Ê então o cérebro o determinante da evolução do homem e dos outros animais. Todo organismo se desenvolve e evolui através do cérebro. E o próprio cérebro vem se desenvolvendo e evoluindo do ponto de vista da adaptação e readaptação ao sempre novo ambiente vital. Dos não adaptados se encarrega a seleção natural, eliminando-os de uma forma ou de outra.

Mas vejamos um pouco dos “micros circuitos cerebrais". Recentemente descobertos, esses micro circuitos dão aos neurônios que os constituem uma capacidade adicional da maior importância, com variedade muito maior de estados mentais, muito além do 'sim' ou "não"' dos neurônios autônomos. As combinações são muito mais elaboradas e sutis, com nuances da mais fina percepção mental. Sendo semiautônomos ou às vezes inteiramente autônomos, esses micros circuitos elevam a uma nova capacidade a quantidade possível de estados mentais conscientes e inconscientes. O número é tão elevado que pode perfeitamente explicar a imprevisibilidade do comportamento de cada homem, ainda mais se combinados com os estados mentais provocados pelos neurônios autônomos. Até nós mesmos podemos facilmente nos surpreender em comportamentos lógicos ou aparentemente ilógicos que não conseguimos conceber ou explicar conscientemente. Chegamos até mesmo a dizer que seríamos incapazes de fazer o que realmente fizemos. São os estados mentais hipnoides, também chamados, ou conhecidos como paranormais. No caso a paranormalidade é somente nossa ignorância ou impossibilidade de controlar conscientemente e pela vontade as manifestações provocadas pelos estados mentais autônomos e semiautônomos. Considerando tudo isso, é grande o número de configurações funcionalmente diferentes em cada pessoa, que poderíamos quase dizer que cada homem é um universo inteiro (alias é o que dizem as filosofias orientais e algumas ocidentais). Porém, a concepção de um universo também, logicamente, é diferente para cada um, tudo resultando em que o universo é de cada um, com seu tamanho, suas limitações e dentro das suas configurações, que atendem diretamente às relações de associação que os sentidos provoquem em cada indivíduo.

Consequentemente o comportamento individual é imprevisível, pois resulta dos infindáveis estados cerebrais possíveis no homem, acrescidos ainda das infindáveis combinações de neurônios autônomos com esses micros circuitos, também autônomos, e, portanto, fora do controle do indivíduo, como já vimos. Não há nenhuma possibilidade, entretanto, que todos os estados cerebrais possíveis estejam ocupados. Há uma incrível quantidade de estados "vagos" e, assim, uma infinidade de configurações ou combinações que jamais foram ainda deslumbradas ou realizadas por qualquer homem. Quando uma delas ocorre é a chamada "grande descoberta” por "inspiração", não por raciocínio ou sequência experimental. Se observarmos a historia da humanidade veremos que se tomarmos o tempo inicial do homem, "bilhões” de novas configurações e estados cerebrais surgiram durante a existência do homem na Terra, desde a mais remota antiguidade até nossos dias. Também a isso chamamos evolução, ainda que não estritamente correta, já que entendemos por evolução não os estados mentais novos em si, mas sim as novas possibilidades que surgem para propiciar estados cerebrais, ou configurações cerebrais originais, que vão influenciar o comportamento, a cultura, a saúde, a alimentação, etc. surgindo quase que uma "nova vida" a cada geração ou, pelo menos, surgindo os genes que modificarão a estrutura da nova geração e, por conseguinte, seus gostos, suas preferências e seu comportamento social.

A tecnologia é a "interface" dessa "nova vida". Isso não significa que os conteúdos do cérebro arcaico não mais permaneçam ativos e presentes. O cérebro reptiliano continua e continuará a atuar enquanto o homem for homem. Permanecem a origem e a tradição biológica do homem como espécie. Evoluída, claro, mas com as mesmas bases. Tanto o volume quanto a qualidade da informação contida no cérebro somente poderá ser determinada pelas funções genéticas, extragenéticas e somáticas e extrassomáticas que cada organismo tenha que desempenhar com maior ou menor eficiência, desde as funções básicas para sua sobrevivência até às mais complexas, como a reprodução e a conservação da espécie. As informações adicionais serão utilizadas para a evolução. As mutações produzidas no ADN pelos gametas e as mutações ocorridas no ARN são de lentíssima percepção biológica, isto é, são necessários milhões de anos para que as mutações possam caracterizar uma "nova espécie". A própria evolução do homem de Homo Erectus a Homo Habilis e chegar ao Homo Sapiens demonstra a lentidão das mutações por conteúdos informativos, pois esses três estágios da evolução do homem mudou o homem, mas não mudou a espécie. A evolução réptil-homem demandaria trilhões de anos. Mas as mudanças nos espermatozoides e óvulos muda O COMPORTAMENTO de cada geração.

Se a alteração ou a mutação se deu em campo "não verbal" das informações cerebrais, é muito difícil a sua percepção biológica, mas é evidente a mudança de comportamento e da capacidade de inteligência. Há uma corrente científica que pretende determinar a capacidade cognitiva do homem pela relação de peso entre o cérebro e a massa corporal. Os animais que tivessem um cérebro maior relativamente ao peso de seu corpo seriam mais inteligentes. Ora, isso não pode ter outro fundamento que o da simples especulação acadêmico cientifica. Como vimos a capacidade de armazenar informação está em relação às FUNÇÕES que esse organismo deve desempenhar para sua sobrevivência. Outra questão, que não se deve confundir com capacidade física ou tamanho da massa cerebral é a capacidade de realizar sinapses ou combinações e uso das combinações fornecidas pelos neurônios, quando esses sinapses vão além das necessidades básicas de sobrevivência e conservação da espécie. É a capacitação para o abstrato que diferencia feras e humanos, como o exemplo simples da capacidade só encontrada no homem para ler e escrever por códigos convencionados e não só por símbolos mnemônicos como é o caso da criança e do animal instintivo simplesmente. Em um terreno mais prático podemos observar que uma criança ao nascer tem, relativamente, 12% de sua massa lotai ocupada pelo cérebro. Principalmente o córtex (entre outras as funções motoras) cresce rapidamente e desproporcionalmente ao corpo nos três primeiros anos de vida, quando o aprendizado é muito mais rápido. Aos 6 anos, aproximadamente, a massa do córtex compreende 90% da massa total do cérebro adulto, sendo finalmente a massa cerebral do homem da ordem de 1 quilo e meio e sua densidade 1,5 litros.

Já o cérebro da mulher atual tem cerca de 150 centímetros cúbicos a menos que o cérebro do homem-macho. Entretanto, considerando-se fatores educacionais (excitantes de neurônios e estimulantes de novas sinapses) idênticos, não se obtém indícios concretos de menor inteligência na mulher, ou melhor, de menor potencial de inteligência. O uso desse potencial é que poderia determinar as diferenças entre os sexos, incluindo-se nesse uso as funções biológicas e fisiológicas que cada homem ou cada mulher deverá desempenhar.

Dentro da hipótese de relatividade da massa corporal e cerebral há que registrar que nos casos de microcefalia observados em adultos que nasceram com cérebros diminutos há uma considerável perda de capacidade cognitiva, tendo tais cérebros o peso 400 e 500 gramas somente. Mas, isso é uma imperfeição na espécie, não resolvida pelo processo de seleção natural e não pode ser base para conclusões de ordem geral. Conta-se que Lord Byron dispunha de uma das maiores massas cerebrais registradas. Entretanto, Anatole France, uma das maiores inteligências conhecidas no mundo, tinha um volume cerebral quase da metade do volume de Lord Byron. Leigh van Valen, biólogo especializado em evolução, demonstrou uma relação entre a massa cerebral e a INTELIGÊNCIA e não com a massa corporal relativa. Como na física, o que parece interessar realmente não é o volume da caixa craniana ou o peso da massa cerebral, mas sim sua densidade. Há indícios de que uma maior densidade produz uma maior inteligência ou pelo menos pessoas dotadas de raciocínios mais rápidos e compreensão mais rápida das coisas. Também as funções biológicas a desempenhar contam muito. Ê o caso da mulher que tendo urna massa corporal menor para controlar e tendo uma fisiologia peculiar mais simples, não necessitaria de uma massa cerebral nas dimensões da massa cerebral do homem, nem da mesma densidade. Tudo isso basicamente.

Dentro das estimativas sugeridas por Cari Sagan, numa interessante comparação, a densidade do "cérebro" de um computador moderno é de aproximadamente 1 milhão de informações básicas tipo sim/não por centímetro cúbico. Já o cérebro humano pode reter cerca de 10 bilhões de informações desse tipo por centímetro cúbico. Tem, portanto, o cérebro humano uma densidade 10.000 vezes maior que um computador moderno. Essa talvez seja a razão porque os computadores necessitam de uma terrível velocidade de operação que se situa perto de 17X10 de informações básicas sim/não processadas por segundo, o que é 10 bilhões de vezes maior que a velocidade de processamento necessária para o cérebro humano, muito mais condensado, Assim, o cérebro tão excepcionalmente engendrado e interligado com outras funções orgânicas que com tão pequeno número de informações básicas e uma velocidade tão lenta é capaz de concluir e realizar incríveis tarefas importantíssimas para a vida do homem, de modo infinitamente melhor que o melhor dos computadores. É preciso considerar que além das informações genéticas fornecidas pelo ADN ao homem, este ainda dispõe de bilhões de informações produzidas pelo seu cérebro através de pequenas proteínas e do ARN que produzem os neurônios de forma infinita. Quanto mais informação extragenética, somática e extrassomática for fornecida ao cérebro através do aprendizado, mais moléculas de ARN serão produzidas e registradas. Veja-se a importância do aprendizado correto: uma informação incorreta registrada pelo cérebro é multiplicada por milhões, talvez, segundo o uso que se faça de tal informação. Claro está que cada vez que um neurônio "errado” fizer uma sinapse com outro neurônio o resultado será algo incorreto de qualquer ponto de vista.

Todo esse processo biológico indica que o cérebro humano possui infindavelmente maior informação útil do que as informações genéticas fornecidas pelo ADN. Esse é o processo de evolução tanto das informações genéticas produzindo “novos homens” a cada geração, corno já vimos, devido às alterações do ADN introduzidas pelos conhecimentos do cérebro ao produzir sinapses originais e a evolução introduzida pelo aprendizado induzido ou espontâneo, instintivo até quando necessário à perfeita reprodução e à conservação evolutiva da espécie. Tal evolução deu-se gradualmente através do tempo com o aumento quantitativo e qualitativo da informação, tanto genética quanto cerebral. A evolução do cérebro humano demandou talvez bilhões de anos, quando surgiu um organismo possuindo mais informação em seu cérebro do que em seus genes. Teria sido um réptil e veio representar uma definitiva modificação na historia da vida humana. Posteriormente surgiram os primatas, ancestrais do homem e à medida que crescia a informação, tanto genética quanto cerebral, foi surgindo o homem, precedido por animais mamíferos de constituição bem diferente dos seres então existentes na superfície da Terra. Foi o domínio do cérebro sobre o gene. Mas, essa evolução toda, enquanto quantitativa direta, não demonstra a mesma direção quanto á sua qualidade, Esta se poderia representar por uma curva levemente senoidal. O prejuízo da qualidade pode-se dever ao acúmulo desordenado da quantidade. A quantidade é maior do que a que o homem poderia absorver biologicamente em determinado tempo. Isto foi visto em capítulo anterior, mas queremos acrescentar que a impossibilidade de absorção da quantidade de informação oferecida ao homem resulta em uma absorção defeituosa e, portanto, equivocada ou totalmente errônea. 

Sabemos agora que uma única informação registrada por associação (deduzida) pelo cérebro tem um efeito multiplicador interminável, criando uma incrível quantidade de informação sem qualidade por erradas. É o nosso fenômeno atual. Na verdade o homem antigo “sabia” mais que o homem moderno. Este é mais informado e tão informado que chega ”a saber, o que não sabe”, por não ter aquela capacidade biológica necessária a uma perfeita absorção DENTRO DO TEMPO. De qualquer modo, a evolução física do homem é evidente. Também a evolução mental, ainda que já não tão evidente à cada nova geração, podendo-se responsabilizar senão o próprio homem, ao substituir a ciência pela tecnologia e a filosofia pura pelo pensamento empírico, quando este, como lhe é próprio, esquece ou não se detém na identificação do que é causa e do que é efeito. Todo esse burburinho de informação não absorvida corretamente contribui definitivamente para lotar os consultórios psiquiátricos.


Carlo leitor

Se você leu cada página deste livro até sua conclusão, teve uma ideia da visão do todo que foi proposto. 

Não se conhece um círculo discutindo os arcos, pois só conhecendo o todo é que se entende a parte, a vida.
                         O Autor.

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