quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

SITUAÇÕES



Faz calor. Muito. É sábado. É? Perdi a noção do tempo: os dias são todos iguais! Bendito seja o calendário, único amigo que mostra o tempo passando. Preciso dele como um seqüestrado que marca o tempo nas paredes. A televisão marca as horas.

Tento manter alguma sanidade neste espaço improvisado que não interage. Só mostra o provisório e ilusório de tudo. Neste silêncio de vida, vegeto o grito que abafo e tento...

- Oi! Sou eu, e aí tudo bem?
- Tudo, e você?
- Sem muitas novidades, o trabalho continua...
- Sim, claro.
- Pois é, mas sei que vou conseguir...
- Com certeza.
- Depois a gente se fala. Um abraço.
- Outro. Obrigado.

Consegui de novo. Que bom. Ouvi tudo e não falei nada. Não podem mais dizer que não sei ouvir. E para que falar? Só consigo que se afastem mais! E sintam-se mal...

Todos têm receitas para tudo, mesmo quando não as usam. Pimenta em olho alheio é tão fácil! A incompetência é sempre minha. De certa forma é mesmo.

Vontade de fugir, sumir! Mas para onde e como? Nada me interessa. Todo lugar é igual aos outros. Parece que já sei tudo o que vão dizer... E principalmente o que não querem ouvir. Aliás, eu também não. Melhor é ficar parada, silenciosa, sequestrada, mesmo sem entender nada. Cansei...

- Alô!
- Oi!
- Tudo bem?
- Claro.

O que dizer do óbvio que ninguém aguenta mais ouvir? Eles sabem que não aguentam! Todos cheios das suas e das minhas histórias. Falar do nada não quero.

Brigo com Deus, clamo por Sua Voz dentro de mim! Sumiu? Chamo os Sonhos, a realidade diz: não posso fazer acontecer... Sonho à revelia. Creio à revelia, nesta cela imposta, nunca desejada. Clamo por liberdade recuperada. A quem matei? Ninguém. De que me acusam? De tudo e de nada. Como entender o sem sentido? Como intuir em meio a esta densidade?

Restou eu, culpada de delito desconhecido. Pena: isolamento e fomes. Fomes e ascos. Asqueia-me a fantasia que vestem para sobreviver e relacionar-se. Asqueia-me o aspecto superficial e distante, fugindo ao menor sinal de proximidade. Do que vocês têm tanto medo? É de roubo? Do que? Da sensação de invasão...? Do Sonho? Do sentir-se impotente? Dos espelhos...?

- Alô!
- Oi!
- Está tudo bem?
- Tudo.
- Olha um dia desses eu vou passar por aí...
- Quando quiser. Tudo bem.

É engraçado: falam sem falar, e quando falam deixam-me como se um juiz oculto houvesse decretado o aumento da pena de isolamento. Desligo deslocada, sentindo-me um lixo que nem o lixeiro leva.

Minha vida desfila em minha mente como ocorre com moribundos. Não entendo nada, mas examino tudo, cada parte, procurando respostas e curas. Estou cansada, mas ainda resta vontade de tantas coisas...

Vida muda. Telefone mudo. Sonhos muitos, vontade de viver e a realidade mostrando absurdos. Chega! Deixem em paz meus mundos! Deixem-me viver porque não aguento mais! Coração liberte-me! Mas você também não sabe!

Estou me partindo! Me desligando! Saindo desses palcos sujos, mentirosos, asqueantes...

- Alô!
- ...
- Alô!
- ...
- Alô! É você?
- ...

Meu Deus, o que estou fazendo! Não posso, não tenho direito. Vai ficar mais complicado! Ninguém tem culpa das minhas incapacidades.

- Alô! Alô! Você está aí?
- O que foi isso? Por que não respondeu? Quase desliguei...
- Sou eu, ainda.
- Você está bem?
- Não sei.
- Vá beber um copo d’água. Eu espero. Ponha açúcar.
- Está bem
- E agora?
- A verdade? Preciso chorar muito... Desculpe.
- Volte para você!
- Para que?
- Não é para que. É para quem. Você, por você.
- Estou cansada e confusa. Desculpe. Obrigada.
- A gente conversa depois...
- É...

E continua tudo o mesmo...

                                                           Cristina Manga
                                                     (in "Alguns Retratos")


Nenhum comentário :

Postar um comentário