quinta-feira, 20 de novembro de 2014

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA


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Todo ano as mesmas discussões: ressaltar a consciência negra reforça o preconceito, dizem uns; é necessário dizem outros. Entre as duas posições uma série de argumentos. Porém, os fatos demonstram que os discursos camuflam, ou disfarçam a realidade das práticas discriminatórias e a necessidade de conscientização de afrodescendentes de suas identidades pessoais e sociais e de não afrodescendentes de suas atitudes ou falta delas com relação àqueles que possuem identidade pessoal e social diferente das deles.

Alguns fatos desmentem os argumentos. A igualdade deveria ser perante as leis. “Todos somos iguais perante a lei”. Será? Os dados das ações dos agentes da lei desmentem. 70% das ocorrências policiais com morte são de pessoas afrodescendentes e jovens. Será que não existem brancos marginais? Claro que sim. Então, porque os números reais não informam isso?

Somos iguais? Não. Não somos. Dizer que somos é apenas uma forma de reafirmar que não há nem consciência das diferenças, nem desejo real de mudança de situações de toda ordem e que não deveriam existir. Recordo-me de um programa que assisti há muitos anos onde o apresentador entrevistava, por conta deste feriado, a quatro mulheres negras de diferentes profissões. Num dado momento uma delas, doutorada no exterior, personalidade respeitada e conhecida internacionalmente declarou ao entrevistador: lhe asseguro que eu tomo banho todos os dias e lavo meus cabelos (nesse momento fiquei pasma com a observação) e completou: “porém tenho que usar um sabonete que não é adequado à minha pele e um xampu que também não serve para meu cabelo. Percebi naquele momento a que ponto chegava nossa negação da existência de pessoas diferentes. A industria simplesmente ignorava essa fatia do mercado. Por que? Considerando que a maioria do povo brasileiro é afrodescendente ou mestiço, como entender que suas necessidades de higiene pessoal fossem ignoradas? Óbvio que produtos não fundamentais são para pessoas de certo poder aquisitivo e que essa fatia da população não estava inserida nesse contexto, logo, não havia interesse da industria em fabricar esses bens. Para ela essas pessoas eram tão invisíveis quanto os mendigos que viramos o rosto para não ver que estão ali a nos lembrar suas mazelas e nossa riqueza (mesmo que não reconheçamos que somos ricos, por outras deformações de consciência).

Foram necessárias vagas por sistema de cotas para vermos um negro favelado formar-se médico. Essa ainda é uma profissão majoritariamente de brancos e de famílias de posses. Ainda é uma profissão de elite e como elite se comporta, mesmo ainda na faculdade. Vide os episódios terríveis que acompanhamos nos últimos anos na USP, símbolo da elite por excelência.

Não. Realmente não somos iguais. Somos pessoas com características diferentes, necessidades diferentes, vivências de mundo diferentes, acessos a bens de consumo diferentes, mercado de trabalho diferente, e pior, impomos ao diferente noções de beleza, riqueza, respeito, valores, que não lhes pertence. A identidade que se reflete nos conceitos de “bom” ou “mau”, bonito ou feio têm como referência o que é bonito, bom, desejável ou correto àqueles que pertencem à elite branca. Não. Não somos iguais nem como indivíduos, nem socialmente. Somente hipócritas podem afirmar que somos.

Diante da lei somos iguais. Diante da ciência somos iguais. Diante dos discursos religiosos somos iguais. Mas, nossas práticas não nos igualam. Pelo contrário, nos separam claramente. E não podemos afirmar que é uma questão meramente social. A consciência de si e do mundo decorre daquilo que fazemos. E o fazer entre os diferentes são evidentemente desiguais por onde quer que olhemos: acesso ao estudo, mercado de trabalho, moradia, local de moradia, acesso à saúde, entre outras coisas. Nenhuma dessas coisas depende da escolha do diferente. Sua fatia social já lhe é dada no nascimento. Mudar de fatia não depende de seu esforço pessoal somente. As páginas policiais estão repletas de fatos que comprovam isto.

Quando uma criança negra é obrigada a brincar com uma boneca branca, porque não existem bonecas negras no mercado, ou quando existem, mas seus pais não podem comprá-la, fica claro que sim, somos diferentes e o universo que o diferente deve desejar, os conceitos de bom ou mau, bonito ou feio, não é dado por ele mesmo.

Se ainda não fui clara, convido vocês a assistirem ao vídeo abaixo, uma experiência realizada por acadêmicos de uma universidade americana. Vejam. É profundamente real e demonstrativo do que afirmo.

Não. Não somos iguais no mundo. E sim, é melhor que exista pelo menos um dia que nos obrigue a refletir sobre tudo isso. Uns para que encontrem sua identidade pessoal e social e outros para entender que o mundo é formado por diferentes de toda espécie e exatamente isso nos torna iguais.

                              Cristina Manga





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