terça-feira, 6 de setembro de 2016

FESTA NO INTERIOR E NÃO É A GAL COSTA



“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente...” E tem dias que a gente pensa que enlouqueceu!

Passeei com olhares por terras do meu Brasil onde deixei um grande pedaço de mim. Sei bem como essa minha gente ama falar, bem ou mal, mas infelizmente falar sem que necessariamente a verdade acompanhe o que diz. É quase um falar compulsivo, como se falar desse à vida um tom de suspense de novela, de trama dramática, com carro de som fazendo fundo e estourando os ouvidos da população, num total desrespeito à escolas, hospital, bebês ou anciãos. Afinal falar alto parece ser suficiente para convencer os eleitores, mesmo que se despeje nele um monte de mentiras, planos mirabolantes, frases de efeito, trejeitos de suposta sabedoria e honestidade. E todos querendo provar que o mentiroso é o outro. É sempre o outro! Quem fala é santo! Como alguém ousa duvidar? Santo de carteirinha, passada no cartório do céu e assinado embaixo, “Deus”. Aos ateus se dispensa.

Mais extraordinária ainda se torna a disputa quando apenas se combate a pessoa do adversário. As comadres tomam conta e não admitem qualquer insinuação ou acusação, mesmo que elas sejam comprovadas. Já vi de tudo um pouco em campanhas eleitorais! Brigas de todo tipo! Entre desconhecidos ou irmãos. Mas juro que nunca vi antes algo tão surreal. Vejamos. Quem sobe num palanque para fazer campanha? O candidato, claro! E pessoas destacadas que o apoiem! O que acontece quando alguém ocupa um palanque em campanha eleitoral como candidato sem ser candidato? Bem aí é surreal. E o que propõe o candidato que não é candidato? Nada. Como assim? Pois é, nada! Passa mais de hora aos gritos ofendendo a todos, ameaçando um a um, jurando que vai se eleger e que vai fazer e acontecer. Bem, se isso acontecer, teremos que questionar seriamente quem comeu bola nesse processo, porque a lei é clara e o não candidato não pode ser candidato posto que condenado pela justiça foi cassado nesse direito. 

Nesse ponto a coisa se torna ainda mais surreal: um monte de gente acredita que ele não foi punido e apoia a eleição do candidato que não é candidato, mas que jura que é candidato e que vai fazer e acontecer. E o povo acredita. Documentos são falseados, sites são hackeados, montagem mal feitas invadem a cidade e os posts em faces alucinados. E a batalha entre os afoitos apoiadores do candidato que não é candidato e os apoiadores de outros candidatos ocupam todo o tempo das discussões. Sobram acusações, ofensas, afirmações sem provas, faltam projetos. Sobram expectativas e esquecimento de fatos...

Mas o candidato que não é candidato continua e o povo vai pra rua e faz festa, aplaude, delira com o discurso aos berros cheio de ameaças. Surreal! Então você pensa: como se faz para que as pessoas parem de ser usadas? Por todo e qualquer candidato? Como se faz para que parem de discutir pessoas e sim programas? Como romper com o fascínio da “novela” que põe condimento numa vida nem tão fascinante quanto a emoção que a novela provoca? Complicado...

Enquanto candidatos e candidato não candidato se pegam, o povo entra no jogo da arrogância, da prepotência, das injúrias, das perseguições, das fofocas, das mentiras, dos fakes, dos insultos... E a cidade? Bem, a cidade entre candidatos e candidato que não é candidato espera como a Bela Adormecida, por um príncipe que venha a desencantá-la e lhe dar o que precisa. Como a Disneylandia não é aqui, vamos continuar esperando que o povo acorde e se preocupe apenas em solucionar suas necessidades de fato!

                                      Cristina Manga
                                      (in "Crônicas")


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